A lição de história por trás de Blue and Lonesome | Judão

Saiba um pouco mais sobre cada um dos covers blueseiros de uma seleção nada óbvia mas extremamente relevante feita pelos Rolling Stones :D

Para quem gosta de blues, o anúncio de um novo álbum dos Rolling Stones foi uma das grandes notícias do ano. Não se trata apenas do primeiro disco dos ingleses desde 2005. É, na verdade, um retorno completo às origens da banda, contando apenas com covers clássicos de blues. A estratégia de gravar um disco homenageando suas principais influências não é novidade, e muitos grupos de rock já seguiram esse caminho. No caso dos Stones, o brilho está em recuperar o blues (especialmente de Chicago, algo que eles são fãs e especialistas), mas sem canções óbvias, apresentando ao público músicas e artistas menos conhecidos.

Assim, o disco será o tema deste texto, mas não uma crítica detalhando as músicas dos Stones: a ideia é seguir o mesmo caminho do disco e apresentar um pouco a história das músicas (e dos seus intérpretes) do repertório de Blue and Lonesome.

| Just Your Fool (Little Walter — 1960)
Em 1954, a canção foi composta e gravada por Bud Johnson, um dos grandes nomes do jump blues, com o nome de I’m Just Your Fool. Entretanto, a canção namora mais com o jazz, pelo seu ritmo suave e pelos vocais de Ella Johnson, irmã de Bud. Mas não foi exatamente dessa fonte que os Stones beberam, e sim da versão de 1960, gravada por Little Walter. Mudando a letra da música, e encurtando o título para Just your Fool, Walter conseguiu, no mesmo ritmo da canção, transformá-la num exemplar perfeito do blues de Chicago. Acompanhado de lendas como o pianista Otis Spann, Walter mostra seu talento sobre-humano na gaita e sua voz já rouca (dizer que sua vida era boêmia é praticamente um eufemismo) combina ainda mais com o clima dolorido da canção.

| Commit a Crime (Howlin’ Wolf — 1966)
Aqui vamos para outro monstro do blues de Chicago, Howlin’ Wolf, com uma letra que, como é comum no blues, fica entre o relacionamento difícil e a violência física. A história é simples: o cantor está saindo de casa “antes que cometa um crime”, já que sua mulher já tentou assassiná-lo mais de uma vez, até mesmo envenenando seu café. A violência da canção, gravada em 1966, porém, não saiu da mente de Wolf, e sim de St Louis Jimmy Oden, pianista que, após um acidente de carro, começou a ganhar vida como compositor. Mesmo famosa como Commit a Crime, a canção oficialmente se chama What a Woman –ela aparece com esse nome, por exemplo, no álbum Howlin Wolf’s London Sessions, de 1971, que conta com as presenças de Charlie Watts e Bill Wyman, baterista e baixista (até 1993) dos Stones.

| Blue and Lonesome (Little Walter — 1959)
A canção que dá nome ao álbum também resgata Little Walter, que parece ser o grande homenageado do disco — e isso não é à toa, já que Walter sempre foi uma das grandes influências de Jagger, que é um excelente gaitista, algo que nem todo mundo sabe. Mesmo lançada como single somente no meio dos anos 60 (como Lado B de Mean Ole Frisco), Blue and Lonesome foi gravada em 1959, para o álbum Hate to See You Go. É um exemplar perfeito do blues de Chicago, com um som moderno, arrojado e estupidamente triste. Algumas fontes indicam que o autor da música seria o pianista Memphis Slim, mas isso é um erro: em 1949, Slim gravou Blue and Lonesome, mas a única coisa que as canções têm em comum é o nome, e mais nada.

| All of Your Love (Magic Sam — 1957)
Em 1967, Magic Sam gravou o disco West Side Soul, que mudou a história do blues de Chicago — e sempre lembrando que mudar a história do blues de Chicago era o mesmo que mudar a história do blues. Sam era um gigante, mas sua carreira foi interrompida cedo demais, quando morreu por causa de uma parada cardíaca, em 1969. Porém, antes de escrever um novo capítulo na história do blues, Sam já percorria o circuito de Chicago, se apresentando em clubes e gravando para a Cobra Records. All your Love (sem o “of” do disco dos Stones) foi seu primeiro single, e  o som ainda é parecido com o blues clássico da cidade, mas já mostra o talento e a voz poderosa do guitarrista. Nascia um gênio.

| I Gotta Go (Little Walter — 1955)
Sim, Little Walter novamente. Mas, aqui, temos uma canção do começo da carreira solo do gaitista, quando ele ainda tocava acompanhado de sua banda, Jukes. E, ao contrário das outras canções de Walter que apareceram até agora, aqui se trata de uma música mais dançante, provavelmente pensada para ser tocada em clubes. Os Stones estão longe de ser os primeiros a gravarem um cover de I Got to Go. Inúmeros blueseiros, de Charlie Musselwhite a Carey Bell, regravaram a canção de Walter, sempre com pequenas mudanças na letra, contando com algumas alterações nos versos e, em alguns casos, estrofes em posições diferentes. E os Stones seguiram esse caminho, fazendo com que a letra original (até onde eu sei) esteja somente na versão de Walters mesmo.

| Everybody Knows About my Good Thing (Little Johnny Taylor — 1971)
Esta música é a caçula do disco. Gravada em 1971 por Little Johnny Taylor, tornou-se seu segundo grande sucesso (o primeiro era Part Time Lover, de 1963, que chegou ao primeiro lugar das paradas de R&B). Por isso, o som é mais moderno: a voz e a guitarra de Taylor são blues puro, mas todo o resto da canção é menos cru que o som clássico de Chicago. Esta é a primeira canção de Blue and Lonesome que conta com a presença de Eric Clapton. Numa feliz coincidência, o guitarrista estava gravando seu disco mais recente, I Still Do, no mesmo estúdio dos Stones. Pensando no fato de que o pessoal dos Stones e Clapton são amigos há décadas, uma colaboração seria inevitável. Por se tratar de um álbum de blues, ela se tornou praticamente obrigatória.

| Ride ’Em On Down (Eddie Taylor — 1955)
Taylor foi um guitarrista de blues de Chicago que nunca conquistou o mesmo sucesso dos grandes blueseiros da época, mas isso não diminui sua importância. Além de ter ensinado Jimmy Reed a tocar guitarra, tocou ao lado de mestres como o próprio Reed e John Lee Hooker. Para homenageá-lo, os Stones escolheram Ride ’Em On Down, seu maior sucesso. Mas, como era comum nas músicas da Chicago dos anos 50, a origem de Ride ’Em On Down nos leva direto para o Mississipi. Afinal, a canção nada mais é que uma versão — aliás, uma das muitas versões — de Shake ’Em On Down, composta e gravada por Bukka White em 1937, pouco antes de cumprir pena na cadeia por se envolver em um tiroteio. O crédito no disco dos Stones fica para Taylor, porém, pois é sua versão que serve de base para os ingleses.

| Hate to See You Go (Little Walter — 1955)
A quarta e última música do disco a resgatar a obra de Little Walter, a personalidade com mais presença no disco dos Stones. É uma versão praticamente toda fiel ao original, que brilha especialmente pela sua letra melancólica: o cantor foi abandonado pela mulher (o bilhete de despedida que ela deixou estava no chão) e só então descobriu que a ama. A canção foi composta por Walter já em sua carreira solo, mas o ritmo de Hate to See You Go parece herança dos seus dias na banda de Muddy Waters. A letra amarga faz um contraponto com o ritmo acelerado e dançante da canção, e a voz insinuante do gaitista (algo que Waters era mestre) deixa a música ainda mais rica.

| Hoo Doo Blues (Lightning Slim — 1958)
Lightning Slim é um dos maiores patinhos feios da história do blues. O auge de sua carreira foi nos anos 50 e ele nunca fez tanto sucesso como os astros do blues da época — mas existem críticos que o colocam como um dos maiores blueseiros de seu tempo. E sua posição como um dos maiores nomes da história do blues da Lousiana é indiscutível. Hoo Doo Blues é um dos seus maiores sucessos e foi gravado em 1958. É um típico blues da Lousiana, não só pelo tema — o vodu é presença constante no blues de todas as regiões, mas os blueseiros da Lousiana pareciam gostar mais de abordar o tema — mas principalmente pelo seu ritmo preguiçoso, típico da música que se tocava nos pântanos da região.

| Little Rain (Jimmy Reed — 1957)
Praticamente todas as bandas de rock inglesas dos anos 60 veneravam a figura de Jimmy Reed, blueseiro que se tornou figura-chave nos primeiros anos do blues elétrico. Os Stones, particularmente Keith Richards, reverenciavam o sujeito como um deus, e sempre incluíam alguma de suas canções nos shows que faziam durante os primeiros anos de carreira (e também em seus primeiros discos). Assim, Reed seria quase uma presença obrigatória no disco, e os Stones escolheram um dos seus trabalhos mais delicados: Little Rain, gravada em 1957. Apesar de seu trabalho ser uma da pontes mais visíveis entre o rock e o blues, Little Rain é um blues lento, arrastado e melancólico, que usa a chuva, um dos elementos preferidos do gênero, para construir uma pequena canção de amor.

| Just Like I Treat You Baby (Howlin’ Wolf — 1962)
A segunda música de Howlin’ Wolf em Blue and Lonesome foi gravada como Lado B do single I Ain’t Supertitious. Porém, mesmo Wolf sendo um dos maiores nomes da história do blues, a canção puxa os holofotes para dois outros músicos. O primeiro é Hubert Sumlin, guitarrista da banda de Wolf e uma das maiores influências na carreira dos Stones. O outro é Willie Dixon, um dos maiores compositores da história do blues. Compositor da Chess, Dixon escreveu alguns dos maiores sucessos de Muddy Waters e Howlin’ Wolf. Como se não bastasse, ainda era um contrabaixista de mão cheia e participa da gravação de Just Like I Treat You Baby, que conta com um arranjo bem próximo do rock ‘n roll, mas uma alma totalmente entregue ao blues.

| I Can’t Quit You Baby (Otis Rush — 1956)
I Can’t Quit You Baby ganhou fama mundial nas mãos do Led Zeppelin (é uma das muitas composições de Willie Dixon executada pelos ingleses, e uma das poucas em que eles não tiveram problemas com a justiça por não creditar o autor original). Mas aqui vale mais a pena olharmos para a versão original, que Dixon compôs para Otis Rush em 1956. Chega a ser impressionante pensar que Rush gravou a música, que se tornou um monumento do blues, em suas primeiras sessões de estúdio. Foi um de seus maiores sucessos: com o tempo, sua obra se tornaria um monumento do blues, com um som único que se deve ao fato dele ser canhoto, mas não inverter as cordas da guitarra para tocar com a mão esquerda. É um dos maiores guitarristas do gênero e uma das principais influências de Eric Clapton (que também participa da versão dos Stones).

O escritor paulistano Rob Gordon é responsável pelos roteiros de Terapia, uma HQ online ao ritmo de blues, além de manter no Medium uma coluna semanal chamada Sábado de Blues.