Dos americanismos macho man à brasilidade queer | Judão

Os tiozões posers da Doctor Pheabes abrem o Lollapalooza 2017, seguidos por Jaloo, deixando ainda mais clara a diversidade de estilos do festival

Assim como num jogo qualquer do MEU TIMÃO, a ~experiência do Lollapalooza começa já no combo Metrô + Trem. Conforme você vai se aproximando do esperado destino, vai vendo mais e mais gente com aquela #EstileraFoda indie se misturar com uma turminha roqueira que vestiria preto até sob o sol do Niger, uma galera de camisa polo for him e shortinho mínimo for her visando a FRITADA no festival, e aquele pessoal high alt que na sexta a noite tava provavelmente tomando uma catuaba da Praça Roosevelt.

Tem também uma galera branca que aparece com pintura facial estilo indígena. Deixo proces a discussão.

A moral é a seguinte: o Lolla, inicialmente um festival de música indie (seja lá, exatamente, o que isso quiser dizer), é cada vez mais e mais plural. E isso é da hora. Por mais que, nessa fase inicial da parada as interações se resumam a umas olhadas de canto de olho pra lá e pra cá, denotando aquele claro “tô ligado que cê vai pro mesmo lugar que eu”, elas rolam. E dá uma sensação bacana de coletividade entre umas tribos bem diferentes que só aumenta durante os shows, que são dos mais variados estilos, quando você vê alternas batendo cabeça e rockers dançando funk.

E essa DUALIDADE já deu as caras nos dois shows de abertura do Lolla 2017. Depois de desembarcar na estação-referência, a Autódromo, em meio a muitas good vibes, gratidão, corri pra pegar o primeiro show no palco da cerveja que desce redondo, a cargo da banda de Hard Rock nacional (mas que só canta em inglês) Doctor Pheabes.

MEUA MIGO, que som de tiozão!

Não no sentido de que, bom, o pessoal mais velho vai necessariamente curtir a parada. No sentido de... sabe aquele tio roqueiro meio doido que ou você ou algum amigo tem, músico frustrado e que só aceita ouvir os “clássicos dos anos 80 e 90” — aqueles mais bregas possíveis? Então, imagina que ele e outros 3 resolveram se juntar e fazer um som que é, basicamente, um recorte do que ouvem. Mas imagina que, ao invés duma garagem, eles tão tocando num dos maiores festivais da América Latina. E que, já na quarta música, os caras metem um COVER DE GUNS! Yep!

O nome da banda, o vocal faz questão de explicar no palco, vem do filme de terror “ou série, não sei explicar” de 1971, O Abominável Dr. Phibes. Nele, Vincent Price vive um cientista e teólogo que liberta as pragas do Egito contra 9 médicos que, acredita ele, mataram sua esposa.

Justiça seja feita: TECNICAMENTE, os caras seguram a onda. Eles mandam legal e tal, mas pesam tanto na vontade de parecerem rockstars descoladões, que a parada se transforma num show de horror apreciável, no máximo, como guilty pleasure. Exemplo: os caras sobem ao palco com o kit completo do “mamãe, sou do rock”, incluindo cartola, kilt, barbinha de Serj Tankian e um telão que intercala cenas de Platoon, Taxi Driver, minas de biquini e animais selvagens, enquanto repete incessantemente o nome da banda e da música que ela tá tocando no momento.

Não vou negar, chega a ficar divertido de tão bizarro. Mas não acaba por aí.

Única banda, até o momento, a tocar no Lolla AND Rock in Rio deste ano, a Doctor Pheabes não tem vergonha de admitir que conseguiu essa bocona num esquema bastante João Dória de negociação: dois de seus integrantes são co-proprietários do plano de saúde que patrocina o evento. Faz sentido, então, que os caras estejam em todas nos últimos tempos, abrindo shows de turnês para Guns N’Roses, Black Sabbath e Rolling Stones, além de dando as caras no Monsters of Rock 2013 e, again, Lolla, em 2015.

Agora, se tem um #CloseCerto que a banda dá, ele se chama Dani, Graça e Bete. Trata-se do trio de minas negras que compõem o backing vocal do grupo e, olha, além de um puta carisma, conferem o ponto mais alto em matéria de talento e personalidade pro show dos caras.

Falando em ponto alto, como se Doctor Pheabes não fosse poser o suficiente, os caras ainda sinalizaram, no meio do show, pro rei da ~poseragem, o Charada Brasileiro, SUPLA, que assistia a tudo da plateia. O filho do mito Eduardo Suplicy tocará ao lado da banda no Rock in Rio, e não pensou duas vezes ao ser chamado para assistí-los na lateral do palco: enfrentou uma galera doida por selfies e foi até lá. Deu até um grito durante uma música. O LULz não para.​

Um pouco por ser a única banda tocando às 12h05, um pouco porque, bom, é um guilty pleasure tão ALEATÓRIO que chega a virar democrático, o público contava com uma galera indie, mais colorida e descolada, em meio à massa de camisetas pretas que já se posicionavam, sejamos sinceros, para guardar um bom lugar pro fechamento de mozão Metallica. E, acredite, na hora de bater cabeça, geral bateu.

Mas Doctor Pheabes é que nem fast food: da hora por um tempinho e em certa quantidade, mas depois de muito, a falta duns ingredientes realmente bons, dum tempero único e diferenciado, e de NUTRIENTES REAIS, te deixa claro que, bom... Não é exatamente comida. :D

Agora, Jaloo...

Saindo de americanismos Macho Man pruma brasilidade queer, migrei pro Palco Axe doido pra conhecer um pouco mais sobre “o único artista que toca funk antes das OITÔ da noite”, como ele mesmo gritou. Misturando ritmos, brasileiros ou não, dos mais diversos — além do pancadão, axé, samba, MPB e o bom e velho ROCK — o cara foi a injeção de originalidade e talento que eu precisava pra, bom, ter mais SUSTANÇA nesse primeiro dia, né?

De verde e branco e cercado por dançarinas que seguiam o esquema, o palco já dava o tom mais alegre, leve e COLORIDO da parada. Na plateia, além duma flamulante bandeira LGBT, as pessoas davam mais cor — fosse na pele, nas roupas ou nos cabelos. O que não quer dizer que era impossível achar uns rockers rebolando o bumbum por aí.

Levantando mãos para o céu e corpos do chão, Jaloo agitou a galera, mas reclamou do tempo curto de apresentação. “Festival é corrido, gente”, disse, emendando um merchan dum próximo show. Pulou na galera duas vezes, foi levado de volta ao palco, apresentou a banda e ainda posou com uma bandeira do Pará, seu estado natal.

Se teve uma coisa boa que Doctor Pheabes me fez, além de enxergar logo de cara a crescente ECLETICIDADE musical do Lolla, foi fazer Jaloo soar ainda melhor do que já é. E já bom pra caralho, viu? :D