Lordes dos Sith expõe as muitas camadas de Darth Vader | Judão

Livro de Paul S. Kemp, que faz parte do canône oficial de Star Wars, mostra lados pouco conhecidos do grande vilão da saga, assim como de sua relação com o Imperador

É engraçado que muita gente ainda se espanta quando eu digo que, ao lado do Homem-Aranha, o Darth Vader é um dos meus heróis da infância. Justamente ele, o sujeito que se convencionou chamar de “um dos maiores vilões da história do cinema”. Tá bom, é verdade que Vader é mesmo um vilão, capaz de cortar fora a mão do próprio filho enquanto rouba a cena e entra para a história da cultura pop com aquela frase em O Império Contra-Ataca. Mas que, em O Retorno de Jedi, mostra que tem seus próprios interesses e se redime ao salvar a vida de Luke, enfrentando seu mestre.

A verdade é que sempre enxerguei em Vader um antagonista multifacetado. Definitivamente, não estamos falando de um malvadão cujo objetivo é conquistar cada vez mais poder (político, principalmente) e tentar dominar o universo. Este cargo fica para o decrépito Imperador. O que move Darth Vader é algo muito diferente, e a gente vai descobrindo exatamente o que via Universo Expandido – já que a nova trilogia não cumpriu lá muito bem a sua função de prólogo a respeito de Anakin Skywalker, sejamos realistas.

Se em Rogue One vemos, ainda que brevemente, um Darth Vader explorando o seu poder de guerreiro e revelando um lado ainda mais impiedoso, o livro Lordes dos Sith, do escritor Paul S. Kemp (conhecido principalmente por seu trampo nos livros de Forgotten Realms), ajuda a dissecar ainda mais o homem que sobrevive sob a capa e a armadura. Parte do novo cânone literário de Star Wars pós-reorganização dentro dos portões da Disney, a obra se passa logo depois que o Império se estabeleceu na Galáxia, quando a Rebelião ainda não existia como oposição declarada. São os primeiros anos da “parceria” entre Vader e Palpatine – anos em que eles têm que enfrentar a resistência num planeta conhecido como Ryloth, um dos territórios da Orla Exterior.

Coordenado pelos habitantes locais, integrantes de uma raça conhecida como Twi’lek, surge o movimento chamado Ryloth Livre. Eles já começaram a se organizar na época da República, quando se consideravam esquecidos pelo Senado (ah, você achava que tudo eram flores antes de Palpatine chegar ao poder?) e vítimas da corrupção de seu representante, Orn Free Taa. E para sufocar esta INSURGÊNCIA, nada melhor do que mostrar força e levar pessoalmente o próprio Imperador Palpatine e seu cão de guarda, o poderoso Darth Vader, cuja fama de façanhas além da compreensão já se espalha pelos quatro cantos. Eles jamais esperariam, no entanto, ser alvo de uma gigantesca armadilha, que faz os dois serem caçados em plena selva.

O livro oferece uma série de personagens interessantes, em especial os líderes revolucionários Cham Syndulla (conhecido dos fãs mais atentos por ter dado as caras em The Clone Wars e também por ser o pai de Hera em Rebels) e Isval. A relação entre os dois é bem interessante e significativa: ele, um planejador calmo e calculista, sempre pensando em uma rota de fuga; ela, uma ex-escrava que se tornou guerreira forte e impulsiva, querendo sempre entrar de cabeça na batalha pra fazer justiça. Junte aos dois o coronel imperial Belkor Dray, um traidor ambicioso capaz de ajudar o movimento Ryloth Livre apenas para subir na cadeia de comando, e temos aí um núcleo que já daria uma leitura consideravelmente divertida.

Mas é inegável que a grande graça de Lordes dos Sith está mesmo em Darth Vader. Aliás, mais especificamente, na relação entre ele e Palpatine. O Imperador está o tempo todo testando o pupilo, em seu eterno receio de que a tradição Sith do aprendiz matar o mestre para tomar o seu lugar se repita novamente, mais cedo do que imagina. Os diálogos entre eles são sempre tensos, a um passo de colocá-los diante de um duelo de fato. Em certo momento parece MUITO que vai rolar um quebra, mas a hierarquia fala mais alto.

Palpatine parece estar sempre a um passo do que Vader pensa, provocando e instigando o patriarca dos Skywalker a se meter nas maiores roubadas, apenas pra ver como ele se sai tentando resolver o conflito. E chega, em diversas ocasiões, a criar situações nas quais Vader se lembra claramente de seus dias como Anakin, seja como um moleque vivendo como escravo nos desertos de Tatooine, seja como o parceiro de Obi-Wan Kenobi em dezenas de aventuras no caminho para se tornar um mestre Jedi.

Ah, sim, o passado. Taí uma outra diferença importante entre eles. Palpatine é essencialmente cruel. Um monstro que gargalha quando tem a oportunidade de acender o sabre de luz e cortar cabeças. Quando se mete numa matança no meio do ninho de uma raça de insetos gigantes, parece se sentir em casa, espalhando raios pra lá e pra cá e berrando de satisfação ao fritar o próximo inimigo. Derramar sangue é com ele mesmo. O que ele quer é ter a chance de dominar, esmagar e mostrar a que veio.

Não é o caso de Vader. Ele não usa a Força focado na sede pela destruição: o combustível para que ele se conecte ao seu poder especial é o ódio. A raiva que sente não de seus inimigos, mas de si mesmo. É este fogo que queima por dentro, por baixo da expressão impassível de seu capacete, que alimenta o seu dia a dia.

“A armadura impediu que ele sentisse a dor da pontada – mas, ainda que a sentisse, ela nunca seria maior do que a dor que ele sente o tempo todo dentro de si mesmo”, narra Kemp, durante a descrição de uma batalha. Faz um puta sentido. Vader passa a história se remoendo, em certos momentos até perde a concentração quando lembra da luta contra Kenobi em Mustafar; quando se recorda que já esteve perto de Ryloth junto com Ahsoka; e claro, quando Padmé volta a assombrar suas recordações. E o Imperador está lá, para cutucar, para deixar as feridas ainda mais abertas, expondo as cicatrizes e deixando claro que ele só conseguirá atingir seu potencial máximo se deixar o passado devidamente enterrado. Porque amor é fraqueza.

“Eu odeio tudo que vocês representam”, diz uma das vítimas de Vader, diante da visão de seu sabre de luz. “Eu matei, mas todas as vezes em que matei, foi por amor”, completa. Antes de cortar sua cabeça, ele responde: “Eu entendo exatamente o que você quer dizer”. Uau.

Sobre a tal da Força, aliás, Lordes dos Sith oferece uma visão mais intensa de como ela pode ser usada. Mais do que apenas uma espécie de telecinese usada para que as pessoas sejam erguidas do chão ou se tornem vítimas do clássico expediente do sufocamento, Vader usa a Força para dar saltos espetaculares, para correr muito mais rápido. Ele chega a derrubar uma nave do céu. E ainda é capaz de utilizar o poder cinético para criar explosões e rajadas de energia. Quando ele e o Palpatine fazem uso da Força ao mesmo tempo, são capazes de uma devastação sem igual. Seria muito legal ver mais disso sendo usado daqui pra frente, para reforçar o quanto este diacho deste poder é surpreendente, sobre-humano, fora do comum.

Ler um livro como este torna a experiência de ver a trilogia clássica ainda mais legal. Quando a gente vê o Vader em ação nos episódios IV, V e VI e tem toda esta carga de informação adicional, ele se torna ao mesmo tempo mais perigoso, odioso e frágil. Darth Vader ganha novas camadas, fica mais profundo. Se torna ainda mais vilão e, ao mesmo tempo, cada vez menos vilão.

Um dos meus heróis de infância não é necessariamente um herói. Mas, afinal de contas, nem a gente é tão herói assim quanto imagina, não é mesmo?