#RaiseYourHorns: a campanha de Lzzy Hale pra ajudar a quebrar os estigmas de saúde mental | Judão

Inspirada pela perda da amiga Jill Janus, cantora do Huntress, ela pede que a galera use a hashtag pra falar abertamente sobre o problema e que enfim se quebre um estigma

Ronnie James Dio não criou os chifrinhos feitos com os dedos, mas foi o principal responsável por popularizá-los como símbolo do metaaaaaal. Dee Snider, do Twisted Sister, apareceu dizendo que o símbolo tava sendo erroneamente usado por qualquer um e pediu pra trazê-lo de volta pro ROQUE pesado, que é onde “ele sempre teve que estar“. E aí teve o Gene Simmons, baixista e vocalista falastrão do Kiss, que resolveu registrar uma variação dos chifrinhos como apenas sua, deixou uma galera revoltada e acabou desistindo de tentar ganhar MAIS DINHEIRO com outro potencial produto licenciado.

Mas então chegou a Lzzy Hale, vocalista da banda Halestorm, que veio falando sério e trouxe um significado diferente para o símbolo, que vai muito além de apenas erguer as mãos durante um show pra dizer que tá curtindo aquele som ao lado dos seus pares cabeludos. É algo ainda mais profundo, importante, vital: é admitir que se tem um problema. E ao mesmo tempo, descobrir que não tá sozinho nesta luta.

Tudo começou na última quinta-feira, dia 14, com a trágica notícia de que Jill Janus, vocalista da banda californiana de heavy metal Huntress, tirou a própria vida aos 43 anos. No Facebook, os integrantes remanescentes postaram um comunicado oficial no qual expressam seu pesar e dizem que, há anos, Janus falava publicamente sobre os demônios que enfrentava, na esperança de ajudar outros a reconhecerem e superarem seus próprios problemas mentais. “Fora suas vitórias no mundo musical, Jill era uma batalhadora pela causa das pessoas que sofriam de doenças mentais. Era uma pessoa bonita e apaixonada por sua família, pela proteção aos animais e pela medicina natural. Sentiremos mais falta dela do que ela jamais imaginaria”.

Lzzy fez uma tocante declaração em seu Instagram a respeito da amiga, com quem já tinha dividido o palco em outras ocasiões e a quem chamou de “irmã de grito”, em referência à agressividade do estilo musical de ambas. “Onde quer que você esteja, que encontre a paz que não conseguiu achar por aqui”.

Ela falou também sobre saúde mental, um tema diretamente ligado à vida de Jill, que dizia abertamente sobre como travava uma constante batalha contra o transtorno bipolar, esquizofrenia e depressão. “Eu gostaria, inclusive, de pedir um momento para reforçar mais uma vez o quão importante é falar sobre saúde mental — e lembrar a todos que estão aí fora batalhando seus próprios demônios que vocês não estão sozinhos”, afirmou a frontwoman. “Eu tenho que navegar meu próprio labirinto sombrio e me dediquei à música e a escrever para atravessá-lo. Procurem seu caminho, algo que os faça felizes. Não importa se as pessoas acham que não é o certo. Temos que parar de viver sob as expectativas da sociedade, que fazem nos sentirmos não dignos de amor, beleza ou sucesso. Temos que parar de nos comparar com os outros, de procurar ser ‘normais’. E temos que falar sobre nosso bem estar mental”, completa.

E se você não sabe como pedir ajuda, tudo bem, porque aqueles que têm um ombro amigo vão deixar você se recostar nele. Estamos todos nesta vida juntos e, se você tem a habilidade de estender a mão ou abrir o ouvido, FAÇA ISSO. Temos uma responsabilidade uns com os outros. Tudo que fazemos e tocamos afeta a todos. Estamos todos conectados

De acordo com um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos, alguém no mundo interrompe a própria vida — por ano, são 800 mil suicídios em todo o mundo, contra 470 mil mortes por outras causas. E as taxas continuam avançando, principalmente entre os jovens e em países pobres/em desenvolvimento.

Em entrevista ao Correio Braziliense, o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, diretor e superintendente técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), lembra que a forma de abordagem sobre doenças mentais ainda é bastante preconceituosa. “As pessoas não querem aceitar que a doença mental existe. Mas é preciso deixar claro que suicídio é uma emergência médica. Quase 100% das pessoas que tentaram ou se suicidaram têm um quadro psiquiátrico. E são doenças mentais tratáveis. É o preconceito que estrangula a prevenção”, explica.

Na mesma matéria, a professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Sílvia Raquel S. de Morais, complementa dizendo que muitos pensam erroneamente que é melhor evitar falar do assunto, quando, na verdade, promover espaços para discussões e desmistificação de problemas mentais é algo muito importante e necessário. “Tendo em vista os modos de vida contemporâneos quase sempre centrados na solidão, nas distrações digitais, no individualismo e na competitividade exacerbada”.

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Mais tarde, Lzzy voltaria ao Instagram para um novo post, agora lançando uma importante campanha relacionada ao assunto. “Quero que todo mundo que alguma vez na vida lutou com problemas mentais que tire uma foto com os chifrinhos, use a tag #RaiseYourHorns e compartilhe. Quanto mais pessoas forem corajosas o suficiente para se abrir sobre isso, mais veremos que não estamos sozinhos em nossas batalhas. Na verdade, somos a maioria! Vamos tentar quebrar o estigma da saúde mental”.

Lzzy Hale fazendo sua parte pelo #RaiseYourHorns

Muita gente aderiu – a começar por músicos famosos como David Draiman, vocal do Disturbed (“Temos pessoas demais sucumbindo a estes demônios nos dias de hoje“), e Ace Van Johnson, guitarrista do Faster Pussycat (“Todos os dias da minha vida, caras“). Mas a quantidade de pessoas comuns, fãs de metal ou não, que se identificaram com a proposta e abriram o coração, é impressionante e os depoimentos são de encher os olhos de lágrimas. Basta seguir as publicações mais recentes da hashtag pra ver os resultados.

“Fazer música, escrever e criar são as únicas coisas que me fazem passar por isso. Juntos, vamos destruir estes demônios e revidar”, diz a @_DarkLilithMoon. “Eu sofro de depressão e ansiedade, assim como sei que muitos de minha comunidade também. Espero que todos vocês saibam que são amados e apreciados. Espalhem o amor”, afirma @SimpleSeze Já a @WyldeFandom é ainda mais direta: “Eu ainda estou aqui. Eu não sou minha ansiedade e minha depressão”, diz, deixando claro que não quer ser definida sobre suas questões de saúde mental. E por aí vai.

São pessoas de verdade. Que não são apenas numeralha, estatísticas. Que existem, que têm suas vidas, que estão ao nosso redor e que a gente nem imagina que estão travando estas batalhas, um dia depois do outro.

Justamente por isso este movimento é incrível — ainda mais se levarmos em consideração que, ao caso de Jill, se juntam outros como os de Avicii, Kate Spade e Anthony Bourdain. E assim como Lzzy, recentemente temos visto muitos outros integrantes da classe artística vindo à público, abrindo as cortinas por trás do suposto glamour e da fama, para falar sobre o assunto e incentivando que mais e mais pessoas adotem a mesma postura e peçam ajuda. Basta lembrar do que já publicamos aqui sobre o Ryan Reynolds e o David Harbour.

Tomara que não pare. E mais e mais gente possa falar a respeito. E mais e mais gente possa OUVIR a respeito. E mais e mais pessoas possam se dar as mãos pra entender que, como Hale afirmou, esta está longe de ser uma minoria. E todos precisamos de ajuda.