Mad Cool 2017: uma crônica de rock e tragédia | Judão

O JUDÃO esteve num dos festivais europeus que mais ganham espaço por lá e conta a experiência AGRIDOCE de curtir música com uma tragédia no meio

MADRID ~ No verão espanhol, quase nunca chove. Mas aquelas nuvens ameaçadoras sobre Madrid, durante os três dias do festival Mad Cool, davam a impressão de que o público ia sair molhado em algum momento. No primeiro dia, desabou uma tempestade na descida do metrô até o festival, mas foi só pra assustar, já que não caiu uma gota no restante do tempo.

O festival começou DAQUELE jeito com 10 Euros o copo + litro de cerveja ou KALIMOTXO — caro, mas bom, e tudo pago em dinheiro, diretamente, sem filas pra comprar fichas.

Eram quatro palcos gigantes, o que resulta numa grande oferta bandas e pouco SOLAPAMENTO. Assisti a George Ezra (bonito, mas é isso), The Lumineers e o sol se abrindo, e Foals, a banda que eu mais queria ver naquele dia e que fez um show do caralho, por mais que pouca gente ali conhecesse, e Foo Fighters que fez exatamente o que se espera do Foo Fighters. ;)

Depois de uns bocadillos de tortilla de patatas, assistimos a Catfish & The Bottlemen junto com os ingleses — no verão na Espanha os maiores festivais geralmente levam as bandas que estão no topo das paradas rock, indie e eletrônica, e como na Inglaterra chove e é frio, vão pra Espanha em manadas que é barato e quentinho — e encerramos com o eletro de Boys Noize.

A volta pra casa foi bem tranquila, sem filas e muita espera. Mas ninguém tava preparado pro que ia rolar no segundo dia.

Foo Fighters (Tamara Rozas / YourWay Magazine)

Chegamos e ficamos impressionadíssimos com o alcance vocal da cantora de Aurora & The Betrayers – se não conhecem, é uma banda espanhola que vale muuuuuuito a pena. Logo depois, o Rancid encheu o plateia de rodas de pogos com fãs de todas as idades. Aí, foi a vez do Alt-J, uma das bandas mais interessantes do festival pela proposta diferenciada, que encheu La Caja Mágica, o espaço onde rolava o Mad Cool, que então finalmente pareceu começar a ficar sem espaço. Pois então foi entre este show e o do Green Day que aconteceu a tragédia.

Um acrobata foi contratado pra fazer um espetáculo a 30 metros de altura do lado do palco principal. No meio da atuação, o artista teve que trocar de corda e alguma coisa aconteceu, caindo e evidente e infelizmente não sobrevivendo à queda. O público viu tudo enquanto ele caía e foi uma cena horrível, daquelas imagens difíceis de tirar da cabeça. O festival, que a meu ver deveria ter sido cancelado em respeito ao incidente (pelo menos o restante do que estava programado pra este dia), continuou sem mudança alguma. Os organizadores disseram que tudo se manteve “por uma questão de segurança”. Mas nem um minuto de silêncio pelo outrora desconhecido Pedro Aunión?

Sem saber de nada, o Green Day fez o seu show normalmente, se manifestando mais tarde via Twitter (“acabamos de deixar o palco e soubemos de notícias terríveis”). De qualquer maneira, com uma performance cheia de energia e hits bombásticos, eles conseguiram a tarefa de deixar todo mundo contente. Eu, por outro lado, preferi sair no meio do show pra conferir, no Palco Matusalem, o Cage The Elephant, banda que vi no Lollapalooza em São Paulo e mexeu comigo. Cheguei a sentir como se estivesse vendo uma espécie de Nirvana, com o perdão do exagero, mas só pra vocês entenderem como eles mexeram comigo. Em Madrid, mais uma vez, os caras não decepcionaram e deixaram um gostinho de quero mais.

No terceiro e último dia, o sol até apareceu, e com ele os sindicatos na entrada do festival, pedindo o cancelamento por conta da morte do acrobata. Um verdadeiro encontro de sensações, vontade de justiça e respeito pela morte e ao mesmo tempo aquele tesão de curtir o encerramento do Mad Cool, justamente aquele que tinha as bandas das quais eu mais gostava. Imagino que este pensamento DÚBIO passou pela cabeça de todo mundo, algo que mesmo em meio às performances musicais me fez pensar bastante em como o ser humano põe os interesse por cima da moral e do respeito.

Fuel Fandango (Tamara Rozas / YourWay Magazine)

Bom, de qualquer forma, focando aqui no lado musical, esse dia começou com Depedro, uma banda do cantor do La Lavacazul, que eu acho uma das mais subestimadas da Espanha, junto com músicos do grupo americano Calexico. Perfeito para um começo da tarde, seguido da dupla local Fuel Fandango, que não deixa ninguém com os pés parados. Mas no caso destes últimos, só assistimos um pouco e fomos dar uma olhada no show do Wilco, que é uma banda que adoro e respeito. Maaaaaaaaaas, eles fizeram estranhamente um show sem energia, apresentando as músicas com um andamento mais devagar, aplicando um pouco mais de força só nos solos de guitarra. Pena.

Depois chegou a hora do Manic Street Preachers, uma banda que tristemente na Espanha não fez muito sucesso mas que tem uns shows com muita energia e força, tudo embalado pela voz de James Dean Bradfield, um frontman que dá vontade de viver.

E aí chegou aquela banda que eu mais tava com vontade de ver de novo, Kings of Leon. Arrebentaram, tudo soou perfeito, tocaram com vontade, com carinho e com savoir faire. Resumindo: um showzaço. E eles ainda deixaram o ambiente bem quente e a galera muito animada pra quando o Foster The People assumiu os trabalhos. Fizeram todo mundo dançar, deixando as almas na medida certa pro show de Moderat, banda alemã que não conhecia e adorei: música eletrônica elegante, que deixou todo mundo pedindo bis. Depois disso, a galera ficou por lá já meio bêbada, entre um palco e outro, assistindo aos últimos DJs da noite. Tava se aproximando, enfim, a hora de ir pra casa descansar da maratona.

Moderat (Tamara Rozas / YourWay Magazine)

No frigir dos ovos, tivemos um festival com vários altos e baixos, o que é normal e perfeitamente aceitável já que está é apenas a segunda edição. Esperemos que aprendam com os próprios erros no ano seguinte e mantenham os acertos – como, por exemplo, os preços um pouco mais altos pensados justamente pra atrair um público mais velho, acima dos 25. É bom existir esta possibilidade, já que em vários outros festivais que rolam na Espanha, as idades médias costumam ficar entre 16 e 20 anos, fazendo com que tudo, das atrações à estrutura, soe demais como “festival-para-adolescentes”.

Mas é preciso estar atento ao fim de festa um pouco curto para o que a galera está acostumada no país, terminando os shows umas 4h30, quando na maioria dos festivais as atividades se encerram lá pelas 7 da manhã. Teve um pouco de descontrole na entrada, uma área de alimentação super completa mas lotada demais nos horários de pico...

Algumas pequenas falhas, mas que não comprometem um festival gigante, que com sorte vai crescer rápido e forte nos próximos verões.

Com ou sem chuva.