Mãe! não é o filme que você está esperando, mas ainda é um PUTA filme | Judão

Esqueça o terror visto nos trailers a abrace um drama repleto de simbolismos e metáforas; CINEMA do bom :D

Aconteceu novamente. Aquele clássico GOLPE DO MARKETING — que te faz ter esperança na vindoura bomba de Nicolas Cage ou que fez um Colina Escarlate da vida atrair o público absolutamente errado –, fez mais uma vítima em 2017. Mãe!, novo filme do MINDFUCKER profissional de carteirinha Darren Aronofsky, é um puta filme (do verbo CINEMA), mas com certeza não é o terror que seus trailers e demais peças promocionais fazem parecer.

Aliás, não tá nem, exatamente, para um thriller.

Mãe! tá muito mais pra um drama familiar, que funciona como um tipo de fábula, recheada de metáforas e simbolismos. O filme se desenrola de forma vagarosa, bem slow burner e, por vezes, até chata. Mas seu desfecho, MUITO denso AND intenso, é daqueles que ficam contigo por dias, semanas, meses ou até uma vida toda. Se essa é a sua praia, claro. :D

A historia é simples: numa casa de campo aparentemente isolada de qualquer sombra de civilização, Ele (Javier Bardem) vive com sua esposa, Mãe (Jennifer Lawrence). Um famoso escritor, Ele está numa luta contra um bloqueio criativo em busca de seu mais novo poema, enquanto Mãe dedica todo seu tempo à restauração da residência onde vivem, um tipo de avatar para sua relação.

Um dia, um inesperado visitante (Ed Harris) surge à porta da casa, passando a hospedar-se no local. Não demora para que a mulher do homem (Michele Pfeiffer) também venha morar ali, o que passa a incomodar Mãe. Logo, uma série de eventos passa a claramente ameaçar o refúgio que ela e seu marido dividiam.

Se isso parece vago pra você, ótimo. Enquanto conta essa historia aparentemente simples, Aronofsky aborda questões ecológicas, teológicas, filosóficas, constrói uma forte crítica ao machismo e à misoginia tão presentes na humanidade e ainda oferece um ensaio sobre criatividade. E isso é só o que EU consegui INFERIR do longa.

Aronofsky aborda questões ecológicas, teológicas e filosóficas, além de construir uma forte crítica ao machismo e à misoginia

Mãe! é uma verdadeira obra de arte, daquelas que deixam de ser do autor instantaneamente, assim que veem a luz do sol. Cada espectador terá a sua interpretação – e o barato será, por gerações, poder discutir cada uma delas.

Indiscutível, ENTRETANTO, é a qualidade técnica do filme. Das atuações de Lawrence, Bardem, Pfeiffer e Harris, até às dos inesperados atores que fecham o elenco, não há um problema sequer a ser apontado. A fotografia é linda e, filmado em 16mm, com uma baciada de close ups e efeitos especiais milimetricamente calculados (embora ocasionalmente cartunescos), Mãe! não é fascinante só tematicamente, como também visualmente.

Mãe! é um filme extremamente pessoal, afinal é o projeto que Aronofsky levou a carreira toda para fazer, do jeito que sempre quis fazer. Até por isso, não é difícil encontrar ecos de projetos mais recentes do cara, em especial Cisne Negro e Noé. Logicamente, não é um filme pra todo mundo, mas daqueles que precisam encontrar disposição no público para serem digeridos e curtidos propriamente. Ainda assim, é um trampo foda de um AUTEUR, que explora toda a linguagem do cinema para contar o que quer (e até mais do que isso).