Mais uma vez, Zack Snyder prova que não entendeu nada dos personagens da DC | JUDAO.com.br

Tanto tempo depois, não apenas o cineasta mostra que não superou BvS e nem Liga da Justiça, mas também não sacou a essência dos heróis que retratou, aquela que existe acima de todo o barulho das explosões e ranger de dentes

Quando a gente anunciou aqui que o Zack Snyder estava oficialmente saindo do exílio autoimposto e voltaria ao universo dos zumbis com Army of the Dead, pro Netflix, eis a frase que usamos para abrir o texto: “a notícia é promissora apenas porque Snyder + mortos-vivos, porém... será que ENFIM ele vai superar os filmes da DC?”. Olha, até o momento, a resposta aí parece que é “não”, viu?

Toda semana, às vezes até quase que praticamente todo dia, o homem que outrora foi o arquiteto do Universo DC nos cinemas ia lá no seu perfil da rede social Vero e postava uma foto e/ou vídeo e/ou informação nova sobre os bastidores ou então sobre seus planos que acabaram não indo pra frente em Batman vs Superman ou Liga da Justiça.

Pois bem: no último final de semana, entre os dias 22 e 24 de março, Snyder esteve no centro de uma iniciativa MUITO legal. Ele foi protagonista de um evento chamado Director’s Cut, realizado na Art Center College of Design, em Pasadena, na Califórnia, local onde estudou quando era mais jovem. A ideia foi exibir as edições de diretor de Madrugada dos Mortos, Watchmen e Batman vs Superman, seguidas de uma sessão de perguntas e respostas com ele e outros realizadores responsáveis pelos filmes, de maneira a angariar recursos para construir um novo auditório para a sua antiga escola de artes. Muito bacana, né? <3

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Nos papos que se seguiram, ele, por exemplo, defendeu o infame Momento MARTHA de BvS, começando pela explicação de que foi o co-roteirista Chris Terrio que primeiro sacou o mesmo nome das mães de ambos os personagens. “Jogamos eles numa luta, mas como fazemos eles pararem de lutar? Precisávamos fazer o Batman entender a humanidade do Superman, ele não é apenas uma criatura, é um homem — é um alienígena, mas de certa forma, é alguém mais humano do que ele, alguém que abraçou as coisas boas da raça humana”. O conceito é uma coisa, mas o jeito que aquilo foi elaborado é outra completamente diferente, né?

Além disso, ele contou que, em certo ponto, chegou a ser considerado que Martha Wayne e Martha Kent fossem a mesma pessoa: a esposa de Thomas Wayne teria sido baleada no Beco do Crime, não morreu, entrou no programa de proteção às testemunhas, deixou Bruce sozinho na vida com o Alfred, foi morar em Smallville, conheceu um fazendeiro chamado Jonathan... MINHA GENTE. Ainda bem. Melhor que a gente tenha ficado só com MARTHA! mesmo que já tá bom (?) demais.

Snyder ainda revelou que, na verdade, a tal sequência do pesadelo do Batman em BvS com um Superman autoritário, num futuro estranho e apocalíptico, tinha mesmo relação direta com o Darkseid (como se o símbolo do Ômega e a presença dos parademônios não fossem pista o suficiente) para o filme da Liga. “Tudo seria eventualmente explicado — e aconteceria num futuro distante, no qual Darkseid tomou a Terra e o Superman sucumbiu à Equação Anti-Vida”. O motivo? O governante de Apokolips teria matado Lois Lane. Alguns integrantes da Liga sobreviveram e estavam lutando contra a dominação... e, bom, se isso te lembra um tanto a trama de Injustice, talvez não seja assim tão coincidência. Aí o Cyborg teria então mandado o Flash para o passado, para tentar evitar que tudo isso acontecesse e enfim.

De acordo com Snyder, a Warner tava de acordo com a ideia, mas algo mudou aí no meio do caminho e o filme da Liga se tornou algo diferente. O cineasta se afastou por um motivo justíssimo, a morte de sua filha, e aí o estúdio trouxe Joss Whedon pra conversa, teoricamente mexendo/refilmando cerca de 15 a 20% da versão que Snyder tinha deixado para tornar o tom mais leve e dar uma diminuída na duração. E aí, claaaaaro, alguém gritou no evento “RELEASE THE SNYDER CUT!”. Aplausos, risadas e Snyder mandando “tô vendo, subversão. É legal”.

Um tal @CarlosdaPro que esteve presente no Q&A postou uma foto cumprimentando Snyder na qual dizia que teve a chance de falar sobre a tal Snyder Cut e que o cineasta, sim, teria confirmado a sua existência. Logo depois, ele acrescenta na thread um vídeo de outra pessoa que esteve presente e que “confirmaria a veracidade” da parada e, portanto, só caberia à WB lançar. Mas aí um outro fã, @Coryxvx, mandou um tweet relatando uma conversa com o cineasta também no evento e que faz muito sentido de acordo com o que se sabe do processo de produção cinematográfica: existiram diferentes cortes ao longo do trabalho de edição, como acontece em QUALQUER FILME, mas que ele precisaria finalizar algum, que fosse o último pré-Whedon, pra que aquilo pudesse ser de fato lançado. OU SEJA... não, não tem uma SNYDER CUT lá, linda, reluzente, a solução para todos os problemas do mundo e que promete acabar com a fome no planeta, prontinha, esperando pra ser colocada em Blu-ray.

Dito isso, bem, o diretor resolveu falar umas coisinhas sobre o Batman. E foi AÍ que ele não apenas cagou, como esfregou na cara e quis dar dois beijinhos cariocas em todo mundo que estava ali ouvindo o sujeito falar.

O papo nem surgiu, na real, durante o Q&A de BvS, mas sim na sessão de Watchmen. Ele tava falando sobre como o filme deveria ser entendido, que influência teria em seu trabalho, sobre o retrato “moderno” dos heróis... E aí foi buscar como referência o Batman. No caso, o Batman de seu filme, o Ben Affleck de BvS.

“Alguém diz pra mim: o Batman matou um cara. E eu fico tipo: porra, verdade? Vocês precisam acordar”. Aí ele completa: “quando você perde a virgindade para com este filme e vem pra mim dizendo coisas como ‘meu super-herói não faria algo assim’, eu digo ‘tá falando sério?’. Eu já passei desta fase. É legal ter uma visão do tipo ‘meus heróis são inocentes, eles não mentem pra América, eles não representam o dinheiro de suas corporações, meus heróis não cometem atrocidades’. Isso é legal. Mas você tá vivendo na porra de um mundo de sonhos”.

AH MANO.

A reação no mercado de quadrinhos foi absolutamente imediata. Em seu Twitter, Gerry Conway, que é o criador do Justiceiro e alguém que defende que Frank Castle deveria “indicar o colapso da autoridade moral“, mandou a frase que imediatamente passou pela minha cabeça quando comecei a ler sobre o assunto: “fico feliz que Snyder não esteja mais fazendo filmes do DCEU”.

Já a roteirista Gail Simone complementou, também no Twitter, dizendo que, se o Batman sai durante a noite com a intenção de matar pessoas, isso muda nitidamente a essência de quem é o personagem. “Uma coisa é a prevenção de crimes, salvar inocentes. A outra são execuções sem julgamento. Eu não me importo que isso pareça inocente para algumas pessoas, mas esta é uma diferença fundamental”.

Resumidamente, portanto, é importante deixar claro que o Batman NÃO É o Justiceiro. Neste texto aqui, a gente explica que ele já usou armas de fogo e inclusive já matou, digamos que em situações bastante específicas. Mas é importante reforçar que, como combatente do crime, matar por matar, como uma solução comum, simplesmente o faria igual àqueles vilões que ele combate.

Basicamente, Bruce Wayne é, dentre os principais personagens da DC, aquele que caminha na linha mais fina entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Ele é um homem amargurado e perturbado, que enfrenta criminosos mentalmente instáveis numa das cidades mais violentas do planeta e está sempre a um pequeno passo de explodir, de tornar-se mais um louco entre os loucos — Grant Morrison explora isso brilhantemente em Asilo Arkham, assim como o próprio Alan Moore em A Piada Mortal, na dicotomia entre ele e o Coringa. Mas o grande ponto do Morcegão é justamente a luta de Bruce Wayne para resistir. No fim das contas, ele não é um anti-herói, como Frank Castle, mas sim alguém que vive uma batalha contra si mesmo cada vez que veste este uniforme espalhafatoso.

Em Batman #12, publicado recentemente como parte do Rebirth da DC, o roteirista Tom King faz um trabalho brilhante se aprofundando ainda mais na psiquê do Morcego. É ali que Bruce revela, numa carta pra Selina Kyle cheia de questionamentos sobre as pessoas que ela matou, que quando era garoto, 10 anos de idade, antes de decidir se dedicar a uma missão, ele tomou a lâmina de barbear do pai em mãos e pensou em se matar. “As orelhas. O cinto. A gárgula. Não é engraçado. É a escolha de um garoto. A escolha de morrer. I am Batman. I am suicide“.

Repetindo o que falamos no texto sobre este gibi, a missão do Batman não é apenas sobre vingança. Não é só por causa dos tiros e das mortes no Beco do Crime. É mais do que isso. É sobre todos aqueles que, como Bruce, desistem da vida. A cada noite, Bruce Wayne também desiste da própria vida. Ele morre. E dá lugar ao Batman, um ser que não teme a morte e vinga todos aqueles que estão de joelhos. “Os mortos sabem que a morte é uma escolha. E eles não fazem essa escolha por ninguém”, diz Bruce. Por isso que o Batman não mata. A vida é de cada um de nós para escolher o que fazer dela.

O Batman como o conhecemos hoje, como construção contemporânea que vai muito além daquele sujeito vestido de capa e orelhas pontudas que Bob Kane criou em 1939, é exatamente ISSO. E não apenas porrada, porrada, porrada. Filme é filme, gibi é gibi, a adaptação para os cinemas tem todas as liberdades possíveis e defenderemos isso até o fim dos tempos. Mas quando você muda completamente o espírito do personagem e faz um Batman que não é o Batman, talvez fosse o caso de criar um personagem novo ao invés de usar algum que já existe, não? Vide a Mulher-Gato da Halle Berry.

A defesa de Snyder e de alguns de seus seguidores repousa nas costas, claro, d’O Cavaleiro das Trevas, a seminal minissérie de Frank Miller. Mas, vamos lá, tudo na vida é CONTEXTO, tá? O ano era 1986 e aquele era o retrato de uma Gotham City futurista, numa realidade distópica com um Bruce Wayne acabado, sofrido, sem esperanças, que assumiu um lado policialesco, quase MILICIANO, que justamente abraçou a sua faceta mais sombria. É quase como um “o que aconteceria se o Batman se tornasse o Morcego e deixasse o Homem de lado?”.

Esquecendo um tantinho a discussão acadêmica frequente sobre uma pegada mais reaça que sempre permeou a obra de Miller, o fato é que este Batman da mini é o reflexo de um mundo no qual ele não pode mais contar, por exemplo, com a luz ao seu lado na forma do Superman e mesmo da Mulher-Maravilha, que sempre lhe trouxeram este tipo de equilíbrio. Isso não é, nem de longe, a ESSÊNCIA do Batman, mas sim propositalmente uma distorção do herói.

Aí a gente entra na coisa do “ah, vocês tão vivendo num mundo de faz de contas”. Pelo contrário, Snyder.

É claro que a cultura pop naturalmente reflete o que está ao nosso redor. Ninguém aqui é cego a ponto de só querer que o universo seja formado por unicórnios e arco-íris. Mas o ponto é que super-heróis sempre foram arquétipos sobre o melhor do ser humano. Sobre poderes e responsabilidades. Sobre fazer o bem, sobre espalhar uma mensagem de paz para aqueles que precisam, as minorias, os fracos, os necessitados. Sobre mostrar que todos nós podemos e devemos fazer a nossa parte, que devemos ser heróis também, mesmo nos momentos de pior adversidade.

Na Segunda Guerra Mundial, mundo igualmente na merda, com os nazistas fazendo tudo o que fizeram, o Capitão América não se tornou uma pessoa triste, taciturna, perdendo de vez as esperanças, “putz, vejam só o que nos tornamos, vou pegar minha metralhadora e matar todo mundo, foda-se”. Ele não se igualou aos nazis. Ele se levantou diante deles e se tornou um símbolo de esperança. De que podíamos ser melhores. Continua a sua luta. Mas de um jeito que se espera dos heróis enquanto arquétipos.

No mundo cheio de trevas em que vivemos, que nós, sim, sabemos que tá UMA MERDA, a última coisa da qual precisamos é que todos os heróis se tornem frios, cruéis, sanguinários, que façam justiça com as próprias mãos, olho por olho, dente por dente. A gente já tem isso DEMAIS na vida real. Precisamos de símbolos de esperança, que nos guiem rumo a um futuro melhor, que nos permitam acreditar que ainda existe luz em meio às trevas.

Mas... é isso. Como disse Conway: ufa. Ainda bem, né? ;)