Jason Momoa e diretor pulam fora e o filme do Corvo volta pro Limbo | JUDAO.com.br

A nova versão do personagem para os cinemas, que não pretendia ser um remake do filme com Brandon Lee mas sim uma adaptação mais fiel dos quadrinhos originais, pode até perder a sua distribuidora global no meio do caminho.

“Queremos ter plena fidelidade com a história. Adoro o filme com Brandon [Lee], mas ali está apenas 40% da história original. O restante é liberdade poética”. Quem me disse isso pessoalmente foi o próprio James O’Barr, criador dos quadrinhos originais d’O Corvo, que na sua visita ao Brasil estava empolgadaço com a produção e 100% envolvido com ela. O grande lance: isso foi em 2014. Quando o diretor era o espanhol Francisco Javier Gutiérrez e Eric Draven seria vivido por Luke Evans (O Hobbit).

Mas, tadinho do O’Barr, porque de lá pra cá, o filme sofreu uma série tão grande de mudanças, tantas idas e vindas quanto as que já tinha sofrido ANTES da nossa conversa. E o quadrinista, neste exato momento, deve estar bem puto da vida em sua casinha no Texas, já que tudo FINALMENTE parecia estar funcionando, pré-produção à toda, produção oficialmente se iniciando daqui cinco semanas...

E aí o protagonista da vez, Jason Momoa, anuncia que tá vazando. Aliás, segundo o Deadline, não só ele, mas também o diretor Corin Hardy (A Maldição da Floresta). Estamos de volta à estaca zero, portanto?

“Eu esperei OITO anos pra interpretar este papel dos sonhos”, afirmou Momoa em post no Instagram, no qual se desculpa com os fãs enquanto compartilha uma interessante foto de uma arte conceitual feita para o filme. “Eu amo o Corin Hardy e a Sony, mas infelizmente talvez tenha que esperar mais OITO anos. Não é a nossa equipe. Mas eu juro que vou. James O’Barr, desculpe por desapontá-lo. (...) Este filme precisa encontrar sua liberdade. E para os fãs, desculpem. Eu não posso fazer nada além do que este filme realmente merece e isso é amor. Estarei pronto quando estiver tudo certo”.

O “tudo certo” ao qual Momoa se refere, muito provavelmente, a falta de um acordo final entre a Sony, que anunciou em setembro do ano passado, com toda a pompa e circunstância, que seria a responsável pela distribuição global do filme, e a tal Davis Films — produtora de Samuel Hadida que detém atualmente os direitos da adaptação. Mesmo com a data de 11 de outubro de 2019 sendo cravada como a estreia da bagaça nos cinemas, informações de bastidores dão conta de que o acordo entre ambas as partes nunca chegou a ser fechado DE FATO e até a Sony estaria seriamente pensando em pular fora. A Davis adquiriu os direitos da vindoura franquia quando a anterior dona da parada, a Relativity Media, anunciou sua falência.

Quando essa treta aconteceu, aliás, Corin Hardy, que já tava contratado pra comandar o filme, pulou fora do barco por conta própria. Mas a Davis foi lá e trouxe o sujeito de volta, com a promessa de Momoa assinar para o papel principal. Pelo menos esta parte, de alguma forma, eles cumpriram. ;)

Hardy, aliás, também recorreu ao Instagram pra se despedir oficialmente do projeto, dizendo que sabia que ia ser complicado por se tratar de um filme tão amado em sua primeira versão. “Eu passei por cima de tudo nos últimos anos, tentando criar algo que pudesse honrar o Corvo, desde a graphic novel de James O’Barr, passando pelo filme de Alex Proyas e com todo o respeito ao Brandon Lee, querendo fazer algo ousado e novo, que eu, como fã obsessivo, me orgulharia”, afirmou ele. “Com Jason Momoa e meu time incrível de artistas, chegamos BEM perto. Mas algumas vezes, quando você ama algo tanto, tem que tomar decisões difíceis. E ontem, decidir sair deste projeto dos sonhos tão sombrio e emocional, foi a decisão mais difícil de todas”.

Vale lembrar que o tal Hadida, da Davis, é conhecido no mercado cinematográfico de Hollywood por ser o cara que, quando a adaptação de Resident Evil pros cinemas tava lutando pra acontecer de verdade mas enfrentava sérios riscos de ir pro buraco, foi lá falar com a Constantin Film e oferecer um acordo de 50/50. Botou grana porque acreditava e, bom, no fim aconteceu mesmo. Também foi a Davis que se juntou com a Konami pra transformar um filme de Silent Hill em realidade. Maaaas... também foi a Davis que, em 2011, comprou os direitos pra levar a série de livros de vampiros A Morada da Noite (House of Night) aos cinemas. Só que, por mais que os direitos sejam deles até 2020, nem um mísero pedaço de película foi produzido. O resultado foi uma base de fãs fazendo até petição pros caras largarem mão dos direitos e até uma treta pessoal com as autoras dos livros, P.C. Cast e sua filha Kristin.

A saga do novo filme do Corvo remonta lá aos anos 90, quando Rob Zombie chegou a escrever um roteiro e ia dirigir The Crow: 2037, sobre o personagem muitos anos no futuro. Mas a ideia se perdeu no limbo e o Corvo enquanto projeto só voltou a respirar no ano de 2008, quando Stephen Norrington (Blade) tava cravado como diretor — mas aí saiu, dando lugar a Juan Carlos Fresnadillo (Extermínio 2) em 2011, com Bradley Cooper à frente do elenco. Cooper saiu, Mark Wahlberg tava nos planos até que Fresnadillo, vejam vocês, também pulou fora. Por volta de 2012 é que Gutierrez sentou na cadeira de diretor, pro deleite do O’Barr — e, antes de Evans ser o escolhido, nomes como Tom Hiddleston e Alexander Skarsgard chegam a ser ventilados/negociados.

Foi nesta época que mais pareceu que o corvo ia voar, aliás. Mas Gutierrez saiu, Hardy foi contratado em 2014, Evans TAMBÉM saiu e deu lugar a Jack Huston, que tinha feito Ben-Hur. Aí rolou toda a história da falência da Relativity, com a saída e retorno de Hardy, acompanhado de Jason Momoa. E inclusive com um novo nome: The Crow Reborn.

Embora contasse com o apoio do próprio O’Barr, que só esteve presente na produção do primeiro filme e tava feliz igual pinto no lixo por saber que o roteiro pretendia seguir as raízes de sua obra originalmente publicada em 1989 pela Caliber Press (o jovem Eric Draven é atacado por uma gangue, vê a amada ser brutalizada e largada pra morrer ao seu lado, apenas para ser ressuscitado por um corvo místico e ganhar poderes sobrenaturais + uma chance de vingança), esta nova versão tem pelo menos um DETRATOR de renome: Alex Proyas, diretor do filme de 1994.

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“Foi um privilégio conhecer um cara como Brandon Lee, um ator talentoso com um grande senso de humor e um futuro brilhante pela frente. E também foi um privilégio poder chamá-lo de amigo”, afirmou Proyas, em postagem na sua página do Facebook, no final do ano passado, quando parecia que o filme com Momoa REALMENTE ia rolar. “Nosso relacionamento de ator/diretor foi mais do que uma mera claboração. Nós criamos juntos um filme que tocou muita gente”.

O cineasta afirma que nunca quis um crédito de “a film by” por O Corvo porque sempre enxergou aquele como um filme do Brandon. “Ele trouxe toda a sua paixão para este filme, que se tornou seu legado. É um filme do qual ele teria se orgulhado. Eu terminei o filme para ele. (...) Justamente por isso, não seria um filme que valeria a pena um remake se não fosse por Brandon Lee. Sem ele, talvez vocês nunca tivessem conhecido este pequeno gibi underground. Ainda acredito que é um destes casos em que Hollywood deveria permitir que fosse um testamento ao imenso talento e sacrifício definitivo deste homem”. Proyas finaliza dizendo que, sim, sabe que rolaram continuações e uma série de TV, mas refazer esta história, com o personagem original, alguém por quem Brandon deu a vida, parece “simplesmente errado”.

O argumento de Proyas até que é justo — e é fato que, da mesma forma que aconteceu nos gibis, nos quais O’Barr contou as histórias de vingança de outros personagens além de Draven (incluindo Michael Korby, Mark Leung, Jamie Osterberg, Vincent, Leandre, Salvador, Joshua, Iris Shaw, Carrie e Elorah), as continuações de qualidade questionável traziam outros heróis.

Em O Corvo: A Cidade dos Anjos (1996), Vincent Pérez é Ashe Corven; em O Corvo: Salvação (2000), Eric Mabius vive Alex Corvis; e em O Corvo – Vingança Maldita (2005), Edward Furlong interpreta Jimmy Cuervo. Em comum entre os três, só mesmo os sobrenomes com sacadinhas ridículas.

Mas naquela PAVOROSA série de TV de uma temporada só, The Crow: Stairway to Heaven, de 1998, Mark Dacascos é o mesmo Draven de Brandon Lee. O mesmo Draven, aliás, que foi inspirado na vida do próprio O’Barr depois que perdeu a noiva num acidente de trânsito graças a um motorista bêbado.

No fim Brandon Lee era Eric Draven — que também era James O’Barr. Até aparecer o próximo protagonista desta história e ele efetivamente começar a filmar, a gente decide o que fazer aqui, né? ;)