Menos Racionais e mais Racional | Judão

Em seu primeiro disco solo, o líder da maior banda brasileira de rap fala de amor com uma pegada dançante de baile black dos anos 70, com muito soul, funk e R&B na vibe de caras como Jorge Ben Jor e Tim Maia

A gente fala em um cara como Mano Brown e, claro, já dá pra imaginar de imediato uma sonoridade mais áspera, mais dura, mais intensa, um discurso politizado e socialmente engajado. Inevitavelmente, imaginamos uma parada inspirada muito mais por nomes como Public Enemy ou N.W.A., por exemplo.

Pois esqueça totalmente os Racionais MCs neste momento. Boggie Naipe, seu primeiro disco solo, tem uma pegada que é nitidamente um baile black do final dos anos 70 e comecinho dos anos 80. As referências são Jorge Ben (antes do Jor), Tim Maia (em especial aquele da fase Racional), Cassiano e outros grandes mestres da música negra brasileira. É um Mano Brown, vejam vocês, bem menos sisudo e muito mais sorridente do que vemos na sua PERSONA de palco.

Ao longo de suas 22 faixas, Boggie Naipe se revela uma preciosa coleção de grooves dançantes e melodias suingadas, produzidas pelo cantor, compositor e produtor Lino Krizz, amigo de longa data de Brown. Além dele, participa um elenco estelar formado por nomes como Ellen Oléria (campeã do primeiro The Voice Brasil), Simoninha, Max de Castro e até o veteraníssimo Hyldon, criador do clássico Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda.

Tem espaço ainda para o norte-americano Leon Ware, da lendária Motown, que já produziu artistas como Michael Jackson, Quincy Jones, Maxwell e Marvin Gaye, que solta a voz de maneira suave e delicada na doce Felizes, que tem sua versão cantada também em inglês.

E o resultado desta mistura, linda e deliciosa, soa como um monte de boas canções recuperadas de fitas cassetes, umas grudadas nas outras, sem intervalo, no que claramente poderia ser uma versão tupiniquim de The Get Down.

Foram dois anos de trabalho em estúdio, sempre aproveitando uma brechinha na concorrida agenda dos Racionais. E estas lacunas, entre canções explosivas e polêmicas sobre caras como o Carlos Marighella, foram pra poder falar de amor.

Sim, este é um disco essencialmente romântico. Mas este coração, claro, é devidamente guiado pelo espírito das ruas. É amor da periferia, bem urbano, marginal, que não tem tanta inocência assim quanto na baladinha romântica das rádios.

A musa lírica de Brown é uma mina zika, como ele mesmo diz na letra de Mulher Elétrica. “Ela é Capão Redondo, ela é Xerém”, canta o frontman, naquele seu estilo mais papo reto, declamando e rimando como um típico bardo do caos, mas do tipo que parece um bocado apaixonado.

Por se tratar de um álbum de soul, funk e R&B, Boggie Naipe não é um disco de scratches, de picapes, de DJ dando show no primeiro plano. Aqui, apesar dos samples, o som do baixo vibrando forte é que serve como protagonista. Mas que tem uma guitarrinha deliciosa e cheia de veneno na sexy Flor do Gueto, ah, isso tem. Assim como tem lugar os barulhinhos eletrônicos da noturna Boa Noite São Paulo, que dá vontade de sair dançando, que tem aquela cara de madrugada no centro, com luzes e neons coloridos.

Não dá pra ignorar o Tim Maia correndo solto em pelo menos dois momentos da bolacha (é, eu sei, o termo é de tiozinho, mas aqui encaixa como uma luva), nas igualmente iluminadas La OndaDe Frente pro Mar. Aliás, esta última tem um clima praieiro tão gostoso que é quase reggae, numa celebração ao sol, literalmente diante do oceano. Assim como também é cheia de luz Louis Lane (sim, grafada assim mesmo), com uma vibração de começo de baile, chamando todo mundo pra pista, no qual Seu Jorge diz que quer ser o Superman daquela garota especial mas que não é muito uma donzela em perigo...

Destaque também para as duas versões diferentes de Amor Distante — a primeira, um rap, do tipo que dá pra esperar com competência absoluta do líder dos Racionais. Mas a segunda é um blues salpicado de vocais soul (ou seria um soul salpicado de uma guitarra blueseira?) de peito aberto e rasgado que dá gosto ver rolar no meio desta miscelânea toda.

Este não é apenas um álbum inesperado (e entenda isso como um IMENSO elogio) para o Mano Brown. É também o tipo de música que não tem sido muito comum por aqui, tornando Boggie Naipe igualmente inesperado para o mercado fonográfico BR como um todo. Uma escolha ousada, cheia de atitude, como as que Brown faz há anos à frente do Racionais.

Que continuem sobrando brechas na agenda de seu projeto principal para que esta não seja a primeira e única.