Cloak & Dagger: não é exatamente pra você. Mas é bom independente disso. | Judão

Nova série da Marvel foca no público adolescente, mas a qualidade faz atingir muito mais gente

Quando você tem mais de 25, 30 anos de idade, e alguém te diz que aquele filme, livro, gibi, série é uma parada bem “adolescente” ou, como os marketeiros gostam, “teen”, em geral seu cérebro registra isso como um palavrão, né? Então. Pura bobagem.

A mais nova série Marvel da TV americana, Cloak & Dagger, a adaptação do canal Freeform pros personagens Manto e Adaga, que estreou no final da semana passada em uma apresentação dupla de 2h de duração, é a mais pura Casa das Ideias teen, adolescente até dizer chega, de um jeito que a gente não viu em nenhum momento nesse universo até agora. O que isso quer dizer, exatamente? Que, tal qual um desenho animado feito pra crianças, Cloak & Dagger é Marvel costurada na medida certa pra um público mais jovem. Isso tá escancarado no formato, na linguagem, na construção dos personagens, nos conflitos entre eles.

Mas, também tal qual um desenho animado feito pra crianças, você que tem mais de 25, 30 anos já é adulto o suficiente pra entender claramente que uma parada não é feita pensando no seu umbigo e, ainda assim, se divertir com ela. Pois é.

Cloak & Dagger é, como a gente já esperava, inspiradíssima na versão dos personagens do Universo Ultimate. Tandy Bowen (Adaga) e Tyrone Johnson (Manto) têm algo por volta de seus 16, 17 anos, e que, ao contrário da origem primordial de 1982, não ganharam seus poderes ao serem cobaias de uma droga sintética, mas sim em um acidente causado pelos gênios sem escrúpulos da Roxxon.

A diferença aqui é que o incidente, deflagrado pela explosão de uma plataforma petrolífera em Nova Orleans, pegou a dupla ainda na infância: Tandy, dentro do carro com o pai (por acaso, pesquisador da Roxxon); e Tyrone, fugindo da polícia que perseguia ele e o irmão depois de um mal-entendido envolvendo o toca-fitas de um carro. As mãos das duas crianças se tocam e, de alguma forma, seus destinos estavam entrelaçados pra sempre.

Anos mais tarde, já adolescentes, eles se encontram justamente quando suas vidas não poderiam estar mais diferentes e distantes. E um novo toque faz seus poderes enfim despertarem, virando tudo do avesso e fazendo os dois encararem os fantasmas de seus respectivos passados.

O mais legal é que, apesar de tratar sutilmente do tema do racismo/preconceito graças ao tom de pele do futuro Manto, a série evita os estereótipos babacas. É Tandy que vive uma vida complicada nas ruas, sem grana, aplicando pequenos e grandes golpes, envolta com as drogas e uma mãe viciada que mora no subúrbio. Já Tyrone é o filho de uma família que, depois da perda do filho mais velho, se recuperou e dá a ele tudo do bom e do melhor, incluindo uma escola cristã tradicional e uma vaga no time estudantil de basquete local.

Tandy, que viveu a maior parte da vida sem esperança depois da morte do pai, nas sombras de uma cidade por baixo da cidade, enfim encontra a luz em suas mãos, na forma de adagas luminosas. E Tyrone, que sempre pareceu ter uma vida perfeita garantida por uma mãe que exige que ele seja perfeito para que não perca outra de suas crias, logo tem que começar a lidar com suas próprias trevas pessoais e uma inesperada habilidade de teletransporte quando envolto em uma combinação de capa/capuz — levando-o a uma pessoa que ele imaginou que estava morta e a um desejo de vingança que cresce mais do que o garoto imaginava.

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Uma escolha inteligente dos produtores foi ampliar um efeito colateral que as sombras do Manto têm nos quadrinhos, causando visões apavorantes dos principais pesadelos pra quem é envolto por elas (menos a Adaga, é claro) e dar habilidades novas, relacionadas ao toque, pra ambos. Ele encosta nas pessoas e consegue ver justamente seus medos mais profundos — enquanto ela, justamente ela, a princesa caída, vê os sonhos e o lado bom, mais iluminado, de qualquer um. Uma troca com boas possibilidades narrativas e que constrói um clima diferente do tom “vigilantes urbanos” das versões adultas dos dois heróis.

Aliás, o segredo aqui é que, diferente de uma Riverdale ou Pretty Little Liars da vida, no entanto, este retrato de Manto & Adaga não está envolto numa atmosfera sombria e tampouco cínica. Apesar das histórias trágicas da dupla, o tom é muito mais suave, delicado, otimista até, quase “fofo”. Não demora e você se pega apaixonado pelos personagens, não apenas querendo saber mais mas também genuinamente disposto a se ENVOLVER no mundinho deles. Teen ou não, quando uma série consegue atingir este nível de empatia, não tem como negar que alguma coisa ela tá fazendo certo.

Arrisco dizer que o grande segredo está justamente no casal principal, Olivia Holt e Aubrey Joseph, que são carismáticos, que convencem em suas respectivas jornadas individuais (em especial Olivia, que tem em si uma impressionante fúria contida no olhar) e que, nas poucas vezes em que se encontram neste início de temporada, ainda descobrindo um ao outro, já mostram uma química maravilhosa.

Cloak & Dagger não é AINDA uma série de super-heróis. Mas, de verdade, depois de ver estes dois episódios, eu até preferia que não fosse mesmo. Tá bom, eu sei que muito provavelmente vai aparecer um grande vilão da temporada, e que ele muito provavelmente vai estar ligado às experiências da Roxxon, que a dupla provavelmente vai querer desvendar junta.

Mas eu abriria mão disso. Não tô querendo ver loucas cenas de ação, porradaria, perseguição e efeitos especiais deslumbrantes da Tandy se perdendo dentro do manto do Tyrone. Isso tudo é legal, é gibi pra cacete, yeah. Mas é efeito colateral. Tô muito mais interessado nos laços que vão se criar entre um menino e uma menina descobrindo a si mesmos e um ao outro, que vão se apoiar e crescer juntos.

Muito mais do que Manto e Adaga, Cloak & Dagger acertaria se continuasse focada em Tandy e Tyrone. Porque é isso, no fim, que faz uma boa história de super-heróis.