Mark Waid recorre a financiamento coletivo pra se defender de processo do Comicsgate | JUDAO.com.br

Um dos ~líderes do “movimento” acusa o autor de difamação e também de interferir diretamente no cancelamento de um dos seus gibis…

Mark Waid é um escritor de quadrinhos responsável por momentos memoráveis tanto na Marvel quanto na DC, indo desde passagens memoráveis pelos títulos mensais do Flash, do Quarteto Fantástico, do Capitão América e do Demolidor, até uma ótima reinterpretação da origem do Superman com O Legado das Estrelas e, claro, a icônica série Reino do Amanhã, junto com o ilustrador Alex Ross.

O mesmo Mark Waid que se vê forçado, do alto dos seus 56 anos, a recorrer a uma campanha de financiamento coletivo para ajudar a cobrir os custos legais de um processo ao qual ele está sendo submetido. Uma ação judicial vinda diretamente de um certo Richard C. Meyer, um aspirante a escritor de gibis que mantém o canal Diversity And Comics no YouTube. É, ele mesmo, um dos ~líderes do Comicsgate.

Esta ótima matéria do Nebulla explica detalhadamente do que se trata o Comicsgate e a gente recomenda fortemente a leitura. Mas o próprio Waid faz uma descrição bastante apurada do que se trata: “um implacável movimento de assédio on-line que eu e muitos profissionais de quadrinhos sentimos que tem atacado injusta e ofensivamente mulheres, pessoas não brancas e criadores LGBTQ+ que trabalham em nosso setor para fazer com que se sintam desconfortáveis”.

Na página da campanha, o roteirista afirma ainda acreditar que o processo é, na verdade, um esforço coordenado para silenciar as vozes que se levantam contra o racismo e a intolerância neste mercado. “Mesmo que eu esteja confiante que estas acusações contra mim não têm qualquer crédito, processos são coisas que tomam muito tempo e dinheiro. Mesmo assim, eu nunca recuei diante de bullies, especialmente aqueles que denigrem meus amigos, colegas de trabalho e os valores que a nossa comunidade defende. Por mais que eu não seja um homem rico, vocês têm minha palavra de que vou enfrentar esta batalha não importa qual o custo pessoal que tenha. Mas vou precisar da sua ajuda”.

Até o momento, diversos nomes do mercado como Jamal Igle, Chris Ryall, Kevin Mellon, Eric Palicki, David Macho, Jordan Plosky, Erica Schultz, Dan Slott, Joe Henderson, Dean Haspiel e Jim McLauchlin já deram sua contribuição.

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Mas quais seriam, exatamente, as acusações de Meyer contra Waid? Bom, na verdade são duas. A primeira delas é por difamação, afirmando que Waid teria dado a entender que o tal fulano é “racista”, “assediador de minorias” e “diretamente ligado à supremacistas brancos”. Olha só, não por nada, mas neste ponto digamos que prefiro seguir a estratégia do Waid e deixar que os tweets e os vídeos do sujeito falem por eles mesmos. Mas, da nossa parte, não vamos dar link pra nada disso aqui. Boa sorte caso tenha estômago de mergulhar nesta lama.

A oooooooutra alegação de Meyer é que Waid teria interferido diretamente no acordo que ele tinha com a editora Antarctic Comics para publicar e distribuir seu gibi independente Jawbreakers, que ele mesmo escreveu e conta com arte de Jon Malin, cores de Brett Smith e capas de outro notório comicsgater, o desenhista Ethan Van Sciver. O camarada afirma que o roteirista teria usado seu prestígio no mercado para “ameaçar” a editora, colocando Meyer numa espécie de “lista negra” da indústria americana de HQs mainstream.

Meyer já tinha tentado sair do papel de fã para o de quadrinista em 2012, quando financiou com sucesso a graphic novel No Enemy, But Peace, um projeto pequeno que conta a história real do sargento Marco Martinez, ex-integrante de gangues que se tornou um soldado condecorado. Mas ele ainda queria ver se conseguia realizar o sonho de fazer seu próprio gibi de super-heróis. Foi aí que criou Jawbreakers, a história de um grupo de ex-heróis que se reúnem numa pegada meio militar para salvar o mundo em segredo.

Da primeira vez, ele não conseguiu colocar a parada no papel, até porque a iniciativa era bem mais ambiciosa do que meramente uma biografia. Mas então ele lançou o canal no YouTube, começou a chamar atenção, virou uma estrela entre os cancervadores e, ao trazer Malin e Van Sciver pro projeto, ambos saídos sem muita elegância respectivamente da Marvel e da DC por conta das tretas que arrumaram lá dentro, também trouxe as bases de fãs dos caras no bolso. Jawbreakers então se garantiu, com mais de US$250 Mil arrecadados.

Claro, não vamos discutir aqui o fato de que tinha muita gente apoiando mais de uma vez para ter múltiplas cópias do gibi e que Meyer ficava o tempo todo fazendo campanhas com seus seguidores para competir com OUTRAS iniciativas de HQs em financiamento coletivo, como BLACK (sobre um mundo no qual só os negros têm superpoderes) e Leaving Megalopolis, gibi estrelado por heróis homicidas e escrito por Gail Simone. Sacou o padrão aqui?

De qualquer maneira: objetivo alcançado, eles negociaram com a editora especializada em quadrinhos independentes Antarctic Press, aquela que lançou originalmente Estranhos no Paraíso e que acabou se tornando conhecida por publicar diversos tipos de gibis com forte carga política...mas de ambos os lados. Tanto é que, ao mesmo tempo, eles chegaram a lançar publicações contra e a favor do presidente Donald Trump. A última coisa que se pode dizer a respeito da Antarctic é que se trata de uma editora com algum direcionamento político.

O caso é que uma série de lojas / revendedores começaram a dar sinais de que não tinham lá muito intenção de receber aquele gibi – em especial depois de um vídeo (obviamente, deletado na sequência) no qual Meyer entra no modo full pistola e dispara para todos os lados. Chama Waid, Dan Slott e Brian Michael Bendis de pedófilos, diz que Devin Grayson só chegou onde chegou fazendo o teste do sofá e afirma que as editoras da Marvel envolvidas naquela foto do milk-shake só tiveram tanta “atenção” porque deram mole para um bando de “coroas que não conseguem falar com nenhuma mulher”.

Claro que a repercussão no mercado foi PÉSSIMA. E só piorou quando ele teve acesso a um grupo fechado do Facebook que reunia uma série de representantes de lojas, no qual discutiam se iam querer receber o gibi ou não. Meyer postou prints em suas próprias redes e, OBVIAMENTE, uma horda de seus seguidores começaram não apenas a atacar as redes das lojas mas também os perfis pessoais dos caras, seus contatos, coisa e tal. Um modus operandi que a gente bem conhece tanto lá quanto cá.

Os caras do Bleeding Cool foram conversar com Ben Dunn, fundador da Antarctic, depois que o anúncio da publicação foi feito na página da editora e começou a gerar um monte de comentários negativos. “Mas é claro que me preocupo com o nosso relacionamento com as lojas. E respeito os direitos deles de pedirem ou não os títulos que melhor se encaixam com os consumidores deles”. Só que quando o BC mostrou a ele alguns dos comentários de Meyer sobre criadores, Dunn ficou bastante surpreso e disse que pensaria seriamente a respeito...

E foi aí que Waid entrou na conversa. “Eu dei uma ligada pra Antarctic e vou dar a eles o benefício da dúvida sobre eles realmente não saberem quem são as pessoas com as quais tão negociando”, afirmou o autor, em um post na sua conta pessoal do Facebook. Pouco tempo depois, a editora publicou um comunicado oficial no qual deixava claro que depois de “cuidadosa consideração”, não, não ia mais publicar a tal Jawbreakers. “Acreditamos firmemente nos direitos dos criadores e em dar a eles a chance de serem julgados por seus méritos”, afirmaram. “Não foi uma decisão fácil, já que achamos que deve existir uma separação entre arte e artista. Mas esta separação virou uma linha borrada nesta decisão”.

Cês devem imaginar aí como o Meyer ficou puto da vida, né? Ele anunciou a criação um selo, Splatto Comics, para lançar o gibi por conta própria – com distribuição via Simon & Schuster, aquela mesma editora que ia mas depois não publicou o livro de Milo Yiannopoulos, o ídolo dos neo-nazistas nos EUA. ¯\_(ツ)_/¯

Mas obviamente que Meyer não perderia a oportunidade de dizer que Waid foi lá e pressionou/intimidou a Antarctic, inclusive usando o nome da Marvel no que seriam ações judiciais, coisa e tal. Ambas as editoras negaram e os próprios caras do Bleeding Cool acionaram seus contatos dentro da Casa das Ideias pra saber se tinha acontecido mesmo alguma coisa, se o editor-chefe C.B. Cebulski foi mesmo lá dar uma bronca em Waid e pedir para ele deletar todas as suas redes sociais...

E, como era de se esperar, nada disso de fato aconteceu.

“Quando eu ouvi que tanto fãs quanto criadores estavam detonando a Antarctic Press por fazer negócios com Meyer, eu liguei pra eles”, explicou Waid para o BC. “Eles pareceram caras legais e algo não batia. Fiquei surpreso de saber que eles tavam se envolvendo com alguém cuja ideia de marketing era pedir aos fãs que reunissem uma lista de lojas que decidiram não comprar seu gibi e circular por aí esta seleção incluindo os nomes completos de empregados e seus telefones, para que pudessem ser mais facilmente encontrados. Nem toda loja compra todos os gibis. Elas escolhem o que querem, com base no que seus consumidores querem, no histórico da editora e em seus sentimentos pessoais sobre aquilo – incluindo, às vezes, tomar a decisão de querer ou não investir em criadores que publicamente se referem às mulheres dos quadrinhos como ‘baldes de porra’ ou à criadores transgênero como ‘homens de peruca’. (...) Não tô aqui pra falar por ele, mas o editor ficou cabreiro de saber que as lojas que garantem o sustento dele tavam sendo ameaçadas”.

“Fique ao meu lado”, finaliza Waid em seu pedido de financiamento. “Se você acredita que o gênero ou a orientação sexual de alguém não devem ter influência na carreira que eles buscam, doe. Envie essa mensagem. Isso não é apenas sobre mim; é sobre ficarmos juntos diante do bullying. Todos os dias que não recuamos contra o assédio on-line, isso só se torna mais desagradável e mais poderoso. Esta é uma luta importante. Obrigado pelo apoio”.