Martin Scorsese reacendeu um debate interessante sobre o real papel da crítica cinematográfica atual | JUDAO.com.br

Se qualquer coisa é definida por uma nota, não há mais diferença entre Lawrence da Arábia e um tutorial exibido numa cafeteira

Durante seu discurso de aceitação ao inédito Prêmio Robert Osborne, entregue pelo TCM Classic Film Festival (assista aqui), Martin Scorsese afirmou que sites como Rotten Tomatoes têm uma grande participação na “desvalorização do cinema em si”, porque eles resumem a arte do cinema em uma palavra: “conteúdo”. Segundo ele, esses sites reforçam a ideia de que todo filme está lá pra ser julgado e descartado instantaneamente, sem dar a chance de o público ver, pensar e tomar uma decisão por si mesmo sobre o que viu.

Para o diretor, tudo se resume a palavra “conteúdo”, e isso representa o maior problema da indústria cinematográfica, porque diferentes tipos de mídia são aglomerados em uma mesma categoria. Então, todo e qualquer audiovisual, desde filmes, episódios de seriados, trailers, vídeos corporativos, comerciais e até filmes clássicos, são classificados como a mesma coisa. “[Os espectadores] podem desligar um filme e irem direto para o próximo conteúdo. Se não há senso de valor ligado a um determinado filme, é claro, ele poderá ser mostrado em pedaços e apenas esquecido.”

Você tem um filme, um episódio de TV, um novo trailer, um tutorial numa cafeteira, um comercial de Super Bowl, Lawrence da Arábia, é tudo a mesma coisa

Em Outubro de 2017, o diretor escreveu um texto para uma coluna especial do THR, em que ele critica essa influência das classificações simples dos sites agregadores de críticas. Nesse texto, Scorsese também questiona o papel da própria indústria na criação desse “monstro”, já que as bilheterias se tornaram discussões frequentes em Hollywood, na mídia e entre o público.

O diretor não está errado em dizer que existe um julgamento brutal que fez com que as estreias semanais se tornassem quase um esporte sangrento. Essa brutalidade da corrida pela bilheteria alimentou a mídia, e isso se tornou comum nas resenhas de filmes e se espalhou para o público — e esse mesmo público deu a esses sites o poder de serem juízes do que todos deveriam ver. Por falta de tempo, grana e disposição, a crítica se tornou uma espécie de bússola para quem quer descobrir se um filme vale o seu precioso tempo. O problema não está apenas na reação do público a esses sites, mas em como a crítica abraça esse papel de justiceiro da arte.

A crítica se tornou uma espécie de entidade sem rosto, que está constantemente com um machado em mãos, pronta para destruir filmes inteiros, como um personagem que caberia facilmente em Deuses Americanos, do Neil Gaiman.

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O problema não está na crítica – até porque esse é o meu próprio trabalho -, mas em resumir o ato de criticar um filme em um mero número, sem margem para explicações e aprofundamentos. Porque essas notas nada mais são do que um resumo de muitas palavras que os críticos usaram para explicar o motivo de um filme ser bom ou não, o que nem é assim tão simples. Nenhum crítico sério simplesmente dá dez ou um zero sem explicar o motivo para isso.

A popularização da internet, das mídias sociais e desse tipo de site agregador colocaram o crítico na linha de fogo e dão a impressão que qualquer um pode ser profissional. Não é bem assim. Crítica profissional – de qualquer coisa – requer muito estudo, mas hoje todo esse esforço se resume à simples notas.

Mas é importante lembrar que a própria indústria se beneficia dos números positivos desses mesmos sites, mantendo Hollywood, mídia e público em um círculo vicioso. Que bom que temos alguém como Martin Scorsese para questionar esse vício.