Marvel contra-ataca a Distinta Concorrência | Judão

Com a ajuda dos Campeões e Doutor Estranho, a Casa das Ideias reassume a dianteira do mercado direto dos EUA após três meses seguidos de vitórias da DC

O ano de 2016 tem sido interessante para quem curte HQs americanas. Com a retomada do bom momento da DC, com o seu Rebirth, as vendas voltaram a subir como um todo. A editora do Superman assumiu a liderança do chamado mercado direto, aquele das comic shops, e fez com que a Marvel se movimentasse. Resultado: uma competição que está trazendo, sim, bons resultados para os leitores.

O último round dessa disputa foi agora em outubro. Com a previsível de queda das vendas do Rebirth após a primeira leva de “números 1” e com o próprio (novo) relançamento da Casa das Ideias, o Marvel NOW!, a editora do Homem-Aranha retomou a ponta. Foi por bem pouco: a Marvel ficou com 36,58% de todas as unidades vendidas, contra 34,76% da Distinta Concorrência. Quando falamos de dólares, a diferença é um pouco maior – 35,89% contra 30,70%, resultado de uma faixa de preços menor por parte da DC.

Os números são da Diamond, que tem o monopólio da distribuição nos EUA, e foram apurados pela ComiChron.

Obviamente existe um grande ASTERISCO pra salientar quando colocamos estes números: estamos falando de vendas da distribuidora para os lojistas, e não para o consumidor (afinal, é assim que o mercado direto dos EUA rola, como já explicamos no passado). De qualquer forma, são números que refletem a realidade desse mercado.

O grande MANDA-CHUVA da retomada da Marvel atende pelo nome de Campeões. A nova fase do grupo estreou em Champions #1, que vendeu nada menos que 328 mil exemplares. O bom resultado pode ser explicado pelo fato do grupo ter ficado décadas no limbo por conta de uma disputa em relação à marca – não à toa, o encadernado das HQs clássicas do time também foi o mais vendido do mês na categoria. Mas aposto um RIM que a temática do gibi também tem seu grande peso nessa equação.

Champions #1

Nessa nova revista, Hulk (Amadeus Cho), Ciclope (a versão jovem vista em All-New X-Men), Viv (a filha do Visão), Homem-Aranha (Miles Morales), Nova (Sam Alexander) e a Miss Marvel (Kamala Khan) estão numa pegada mais ativista, escrita pelo Mark Waid e desenhada pelo Humberto Ramos. “Eles estão fazendo uma declaração inclusiva que tem significado para todos os membros da geração deles: é hora de se juntar e levantar-se para consertar o mundo”, definiu Waid em julho, quando o título foi anunciado.

Basicamente, os heróis dessa equipe não se identificam com os leitores APENAS porque são parecidos com eles fisicamente e em suas histórias de vida, mas TAMBÉM porque lutam pelas mesmas coisas, por um mundo melhor. E o resultado das vendas, ao menos nesse número 1, mostrou que a estratégia deu certo.

Ah, sim: o resultado pode ter sido ainda maior. No mercado, dizem que a editora chegou a distribuir mais de 400 mil cópias de Champions #1, mas uma parte dos números não entrou nas contas da Diamond. De acordo com o ComiChron, isso pode ter acontecido por conta dos exemplares que foram enviados para outros mercados (como o britânico, que é importante), além de terem existido capas variantes para a Game Stop e outros pontos de distribuição que não passam pelo mercado direto.

Já o segundo título mais vendido pela Marvel no mês, com 149 mil exemplares, foi Doctor Strange and the Sorcerers Supreme #1, com o Doutor Estranho num segundo título solo enquanto a editora aproveita o hype do filme do personagem. Nesse caso, você pode justificar as boas vendas com o fato dos lojistas terem apostado no público dos cinemas e também porque a editora botou a publicação em sua própria CAIXA NERD, a Marvel Collectors Corps. E não, isso não é errado.

Big Trouble in Little China/Escape From New York #1Só é curioso pensar que nem os Campeões e nem o Doutor Estranho ocupam o posto de mais vendido no mês. Nem a DC está lá, aliás. Quem ficou neste lugar, em outubro, foi Big Trouble in Little China/Escape From New York #1, da Boom Studios. O grande crossover entre Os Aventureiros do Bairro Proibido e Fuga de Nova York chegou aos 421 mil exemplares – isso com a ajuda da Loot Crate, que enviou a publicação no box de outubro para seus cerca de 350.000 assinantes. Como eles compram as revistas via Diamond, o resultado apareceu aqui.

De qualquer forma, de acordo com a própria distribuidora, Champions #1 foi “o gibi mais vendido em outubro de 2016 em termos de dólares faturados”.

Pelos lados da DC, a estrela foi mais uma vez o Batman. Dark Knight III: The Master Race #6 ficou em quarto lugar, com 133 mil gibis, seguido por Batman #8 e Batman #9. O Homem-Morcego beliscou também o nono lugar com All-Star Batman #3. Honrando a presença da Image, The Walking Dead #159 ficou em décimo, com 91 mil revistas.

A grande frustração nisso tudo é Civil War II. Mesmo com uma boa história, o crossover não emplacou e a sexta edição vendeu ~apenas 118 mil exemplares, ocupando o sétimo posto. Em 2007, num mercado bem menor, Civil War #6 teve 259 mil, apenas para você ter uma ideia de comparação. Pena, a história atual merece ser lida por mais gente.

No geral, a Marvel se valeu de uma melhorada das publicações de Star Wars, além do crossover Death of X, para conseguir um resultado mais consistente no mês. Além disso, as editoras finalmente se aproximaram mais no volume de lançamentos: 89 novos gibis mensais para a Casa das Ideias, 88 para a Distinta Concorrência. Em setembro, esse jogo tinha ficado em 82 a 76.

Com tudo isso, o pessoal que trabalha com quadrinhos nos EUA não poderia sorrir mais. Considerando o Top 300, que é o grosso do mercado, outubro de 2016 teve um aumento de 11% nas vendas em relação ao mesmo mês de 2015. Quando comparado com outubro de 2011, os números cresceram 16%. Na série histórica, só não superaram outubro de 1996, mas aquele mês teve uma quarta-feira – que é o dia de lançamentos – a mais.

Em 2016, o mercado direto de quadrinhos dos EUA já movimentou US$ 485 milhões.

Quando olhamos pra TUDO que passa pelo mercado direto de HQs, incluindo todas as revistas mensais e encadernados, as comic shops e o Loot Crate movimentaram US$ 51,29 milhões em outubro, um crescimento de 68% em relação ao mesmo mês de 2006. No geral, todas as editoras, lojistas e distribuidora botaram US$ 485,97 milhões no bolso no ano, um aumento de 2% em relação ao mesmo período de 2015. Isso num ano que começou bem fraco, principalmente por causa da queda da DC.

Nesse ritmo, o mercado direto de gibis deve bater (ou, ao menos, chegar perto) da cifra dos US$ 600 milhões este ano. Parece pouco quando você olha para os bilhões que a Marvel Studios movimenta? Sim. Mas os gastos lá são bem maiores, também. ;)