Marvel's Spider-Man é o lado mais nerd de Peter Parker nos últimos anos | Judão

Nova série animada do herói, que estreou neste final de semana, mistura elementos do novo aracnídeo dos cinemas com itens vindos direto dos gibis mais recentes

Se você acha que a vida do Homem-Aranha nas telonas é uma zona, com três atores diferentes e nada menos do que SEIS filmes nos últimos 15 anos, saiba que recentemente as coisas mudaram bem rápido pra Peter Parker também na telinha. Depois daquela icônica série dos anos 90 e a ANOMALIA conhecida como Unlimited no finalzinho do SÉCULO PASSADO, tivemos nada menos do que três versões completamente diferentes do Teioso em animação a partir dos anos 2000.

Começou com a The New Animated Series, em 2003, modernosa, com uma trama conectada à do primeiro filme de Sam Raimi, que era mais adolescente, foco em relacionamentos, aquela história. Daí veio The Spectacular Spider-Man, em 2008, animação tradicional com um traço bem inusitado e que, com forte inspiração na versão ultimate de Brian Michael Bendis, focava no lado mais humano da coisa, era muito mais Peter Parker do que Homem-Aranha — como deve ser, aliás. Não por acaso, tamos falando da melhor versão do personagem fora das HQs EVER (inclua os filmes nesta conta também).

E então a Sony entregaria os direitos de animação de volta pra Casa das Ideias (num esquema COMPLETAMENTE diferente do que aconteceu nos cinemas, não confunda) e, em 2012, surgiria a infame Ultimate Spider-Man. Totalmente integrada ao restante do Universo Marvel, com participações frequentes de outros heróis e vilões da editora (Nova, Punho de Ferro, Luke Cage e Tigresa Branca eram coadjuvantes regulares), trazia um aracnídeo trabalhando pra SHIELD e com um humor bem piada de peido da galera do fundão da classe, quebrando a quarta parede o tempo todo na melhor vibe Deadpool.

Neste final de semana estreou Marvel’s Spider-Man, a QUARTA encarnação do Homem-Aranha em formato desenho animado nos últimos 15 anos. E aqui, inteligentemente, eles evitaram a tentação de seguir pelo caminho fácil de qualquer uma das outras versões e investiram num lado de Peter Parker que tem sido negligenciado em suas adaptações mas no qual o roteirista Dan Slott (não por acaso, consultor criativo da nova série animada) tem trabalhado muito bem nos gibis: o cientista.

Peter não é Tony Stark ou Reed Richards mas, diabos, é sim um jovem gênio científico.

O Peter Parker deste novo desenho foi picado pela aranha radioativa tem duas semanas. E, obviamente e não por acaso, tudo ao seu redor carrega um tanto de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, seja no uniforme inicial meio casaco véio de moletom, seja na Tia May bem mais jovem, seja até na escolha do Abutre como o primeiro supervilão que o moleque enfrenta (que tem um grito supersônico meio Canário Negro). Mas aí vem as diferenças, aprofundando algo que o filme só arranha: sim, ele passa a usar uma nova roupa mais tecnológica, cheia de acessórios que quase ninguém vê. Só que é o próprio Peter que desenvolve a parada. Como? Nos laboratórios da Horizon High, a escola para treinar jovens supertalentos científicos coordenada pelo ídolo de Peter, que entra aqui pra substituir o Homem de Ferro, o diretor Max Modell. Isso tudo é inspiração direta no laboratório criado por Slott nas HQs mais atuais e no qual um Peter mais velho, com seus 30 e poucos anos, acaba indo trabalhar, abandonando de vez o ramo da fotografia para seguir a ciência, sua verdadeira paixão. Daí pras Indústrias Parker pós fase Superior é um pulo.

Este Peter de Marvel’s Spider-Man é um garoto com problemas de interação social, que adora usar termos científicos pra descrever as coisas (irritando um pouco o eterno amigo Harry Osborn) e que, do alto de um caminhão pilotado por criminosos, calcula em milésimos de segundo a física de uma cena para evitar que o veículo atropele os pedestres de Nova York. O seu lançador de teias tem um contador digital que mede a temperatura do fluido, pra entender como a substância se comporta em contato com o ar. E até o clássico mantra, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” vira uma fórmula científica, uma brincadeira do Tio Ben que Peter fotografou, virou seu fundo de tela no celular e também um patch grudado na mochila, como lembrança eterna da lição que ele jamais pode esquecer.

É esta sua faceta genial e apaixonada que garante ao garoto do Queens a última vaga na disputada Horizon High, deixando o Colégio Midtown pra trás por mais que saiba que ele e a Tia May não têm lá muita grana pra pagar os custos de tão conceituada instituição. Mesmo assim, e aí surge o Peter que a gente bem conhece, ele enfia as caras em alguns bicos pra poder bancar a mensalidade, dividindo aulas e projetos com nomes que a gente bem conhece, como Gwen Stacy, Miles Morales e até Anya Corazon (a Garota-Aranha, sobre a qual já falamos aqui). Além do reflexo crucial da diversidade (AINDA BEM), alguém duvida do que vai acontecer com estes três mais pra frente? ;)

Os dois primeiros episódios já mostram que, apesar das conexões com o Universo Marvel (do reator de vibranium no qual eles trabalham até às menções óbvias ao trabalho científico de Tony Stark), Marvel’s Spider-Man prefere seguir talvez como uma “continuação” de Spectacular do que fazer qualquer referência ao Ultimate. AINDA BEM, aliás. O humor é mais sutil, mais infantil até, assim como o visual, que é mais limpo, menos filme de ação.

Embora esses traços deixem a desejar quando a gente está falando, por exemplo, das emoções impressas nas expressões visuais, funciona muito bem nas cenas de aventura, nas lutas e, claro, em toda a movimentação do Aranha, que fica mais ágil e moderna. Em certos momentos, aliás, os ângulos de câmera e a dinâmica do corpo do Homem-Aranha lembram claramente as técnicas da animação japonesa. Mas sem forçar a barra, sem parecer algo deslocado e feito apenas por fazer. Tá tudo no lugar certinho.

Uma cena chuvosa na Grande Maçã, aliás, quando Peter e Harry saem de sua lanchonete favorita, o Cup O’ Joe (Wink Wink), faz um uso interessante de cores mais pastel, dando uma impressão nítida de que, por algum momento, fomos parar em um desenho europeu. Sério. Lindo demais.

Como arco potencial para os próximos episódios, está claríssimo que vai ser explorada a rivalidade entre Modell e seu antagonista intelectual, um invejoso professor de Midtown High chamado Spencer Smythe — os leitores mais atentos devem se lembrar dele como o cientista maluco que criou os robôs batizados de Esmaga-Aranha e também como o pai do babaca Alistair Smythe (aqui, colega de escola de Harry, Peter e cia). Seus planos a longo prazo começam a ficar claros conforme ele rouba c e r t o s a r t e f a t o s. Da mesma forma que, depois de uma sabotagem, Harry acaba afastado da Horizon High e seu pai, aquele que atende pelo nome de Norman Osborn, inventa de criar uma NOVA ESCOLA de ciências só pra ele. Rivalidade em dobro à vista.

No fim, Marvel’s Spider-Man cumpre rigorosamente o seu papel, que é o de pegar a molecada empolgada com o Peter Parker da nova produção cinematográfica e dar a eles um pouco mais daquele clima, daquele tipo de aventura, solta, descontraída. É manter a “Aranha-Mania” em alta. E é a animação cumprindo um papel que a intrincada e complexa cronologia dos gibis não anda mais conseguindo.