Conheça Arthur Brown, o Deus do Fogo dos Infernos | Judão

Convidado especial de Alice Cooper em sua apresentação no Palco Sunset, o músico britânico de performances estranhíssimas e inspiradíssimas é uma espécie de precursor do shock rock que fez a fama do próprio Cooper

A gente já falou sobre isso um bocado de vezes, mas não custa reforçar: enquanto o Palco Mundo do Rock in Rio é um caminhão de apostas garantidas de Medina e sua turma para que os ingressos continuem sendo vendidos a rodo, é no Palco Sunset, sob curadoria do músico e compositor carioca Zé Ricardo, que a magia realmente acontece. Alguns dos momentos mais brilhantes das últimas edições do festival aconteceram ali, seja nas parcerias inusitadas (Sepultura + Zé Ramalho, por exemplo), seja na homenagem a grandes nomes que não são necessariamente lembrados pelo mainstream (como o brilhante hitmaker Nile Rodgers, na última semana).

Nesta quinta-feira, 21, o mestre do shock rock Alice Cooper volta sozinho ao evento (ele tocou no RiR em 2013 com os amigos do Hollywood Vampires) pra fechar a programação do Palco Sunset – e já seria um show imperdível, na turnê do seu recente e ótimo disco Paranormal, com toda a produção, efeitos especiais e teatralidade que lhe são característicos. Mas a apresentação terá uma cereja do bolo, com a participação especial de ninguém menos do que Arthur Brown.

É, a gente entende que o nome pode não ser exatamente reconhecível para todo mundo mas, acredite: tamos falando de um cara que é tão importante para o rock cheio de maquiagens borradas e performances teatrais quanto o próprio Cooper. Se bobear, até um pouco mais. Dá até pra dizer, sem muito medo de exagerar, que caras como David Bowie, Kiss, Marilyn Manson e King Diamond não existiriam se Brown não inventasse de pintar a cara de um jeito meio tribal e colocasse fogo na própria cabeça enquanto desfilava um rock psicodélico e espacial.

Brown é considerado inclusive influência direta de Cooper, embora o cantor americano desconverse. “Conheço ele desde os anos 1960 e fizemos um negócio em Londres há cinco anos, num show de Halloween”, contou titia Alice, em entrevista ao Estadão. “Começamos em 1964, 1965, ao mesmo tempo. Nunca tínhamos ouvido falar dele. Ele estava na Inglaterra, nós nos EUA. A gente fazia a coisa teatral sem saber que ele existia. Então, não foi bem uma influência”.

Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas... em 1968, quando Vincent Furnier assumiu o nome que era da banda e criou a persona de palco do vilão assassino que o público amaria odiar, Arthur Brown já tinha lançado seu primeiro disco, The Crazy World of Arthur Brown, que tem o mesmo nome da banda com a qual estourou para o mercado fonográfico. Antes disso, o inglês estudou filosofia, direito, aperfeiçoou suas técnicas teatrais em Paris e acabou tocando em duas bandas de R&B/soul. Foi justamente quando um deles, The Foundations, assinou com uma gravadora é que Brown largou a porra toda pra formar o seu mundo maluco por conta própria.

Ao lado de Vincent Crane (piano/teclado), Drachen Theaker (bateria) e Nick Greenwood (baixo), Brown começou a se tornar conhecido por suas performances alucinadas – a mais famosa delas, a sua assinatura e que lhe renderia o apelido de God of Hellfire, é aquela na qual o sujeito bota fogo no seu capacete de metal enquanto chacoalha ao som de seu maior sucesso, a canção Fire.

“Quando eu tava escrevendo o primeiro disco, compus canções sobre um personagem em uma jornada interior — alguém que viajou pelo mundo, viu um pesadelo e se virou para si mesmo”, tenta explicar Brown, para a Noisey. “Ele acaba encontrando várias entidades na sua busca pela essência do fogo. Uma jornada por sua mente, representada por opostos como o Deus do Fogo Infernal e o Deus do Fogo Puro. O público do rock não tava acostumado com este tipo de imagem. Então, comecei a usar aquelas roupas para delinear melhor os personagens, o capacete, os robes, as máscaras, levando à iluminação experimental para criar o clima e a ambientação”. Junte à esta mistura uns poemas e monólogos malucos que ele fazia entre as músicas, sobre assuntos perturbadores, e você tinha uma audiência que de tão empolgado/horrorizada acabava invadindo o palco pra interromper o show.

Danças tribais, teatro japonês e James Brown: as influências de Arthur Brown

Sua inspiração teria vindo de uma série de fontes, das danças tribais africanas ao circo, passando pelo teatro japonês e por músicos conhecidos por seu domínio do palco ao mesmo tempo incendiário e espiritual como James Brown.

Com um vocal operístico e gritos agudos que claramente influenciaram cantores de heavy metal como Bruce Dickinson (que já declarou ser seu fã e “ajudou” o ídolo na época do disco solo Chemical Wedding), Brown chegou até a tirar a roupa em pleno palco enquanto cantava. O show peladão no Palermo Pop 70 Festival, na Itália, só com a maquiagem na cara e todo o resto balançando, fez com que ele fosse preso e deportado.

As loucuras de Arthur foram o tempero necessário para que ele fechasse contrato com a Track Records, sendo produzido por ninguém menos do que Pete Townshend (guitarrista do The Who) e pelo empresário do Who, Kit Lambert. Embora Arthur Brown nunca tenha sido exatamente um sucesso comercial, quando Fire saiu em formato single, chegou a vender cerca de 1 milhão de cópias, garantindo disco de ouro e fazendo os executivos se empolgarem pra valer com aquele sujeito esquisito.

Em 1969, Crane e Palmer abandonaram a banda para formar o Atomic Rooster, decretando o fim definitivo do Crazy World of Arthur Brown. Só que, obviamente, o cantor não pararia por ali. Depois de projetos como Strangelands, Puddletown Express e Rustic Hinge, no início dos anos 70 ele lançaria o Kingdom Come. Cada um de seus álbuns era estrelado por um personagem diferente, com temas complexos como a humanidade vivendo em um zoológico e controlada por forças cósmicas, religiosas e comerciais. Em comum entre eles, claro, a intenção de fazer uma experiência sensorial e multimídia, com uma porrada de fantasias dramáticas. A piração toda foi muito popular no circuito universitário, mas parecia difícil de entender em palcos comuns, como o de Glastonbury, no qual tocaram sem muito destaque.

Depois, o sujeito se meteu numa carreira-solo pra lá de eclética, alternando participações como ator (ele é o Priest no filme baseado na rock opera Tommy), narrador (é ele que lê os poemas de William Blake no Chemical Wedding de Dickinson), músico acústico (abrindo pro Robert Plant) e até estabelecendo uma série de parcerias com os caras do Hawkwind, como vocalista convidado e um pouco mais.

Isso sem falar dos momentos de sua vida em que foi pintor, carpinteiro e até conselheiro psicológico, criando inclusive uma canção para cada paciente a respeito de seus problemas emocionais.

A dobradinha com Cooper vai rolar não apenas no Rock in Rio, mas também em Curitiba (23) e em São Paulo (26). Mas o guitarrista da banda de Alice Cooper, Ryan Roxie, já contou em entrevista ao Whiplash como deve ser pelo menos uma das parcerias deles no palco, ao tocar Fire, é claro. “Estou empolgado pela parte teatral que vai rolar. Imagine Arthur Brown pegando fogo e Alice Cooper tendo a sua cabeça cortada pela guilhotina. Será caótico!”.

Não esperamos nada menos do que isso. ;)