Mentes Sombrias: apenas maaaais uma narrativa para o público adolescente | JUDAO.com.br

Foco no público adolescente não é desculpa para história inconsistente

Desde o inegável êxito da franquia Crepúsculo, todos os principais estúdios tentam encontrar sua própria adaptação Young Adult de sucesso. A mais nova produção à chegar aos cinemas é Mentes Sombrias, primeiro livro da série homônima escrito pela norte-americana Alexandra Bracken – que também escreveu Episode IV A New Hope: The Princess, the Scoundrel, and the Farmboy.

A trama se passa em um futuro não especificado em que crianças e adolescentes começam a morrer inesperadamente e os poucos que sobrevivem começam a desenvolver misteriosas habilidades perigosas. Como uma forma de contê-los, o governo declara que todos que apresentarem mudanças devem ser detidos em campos de contenção. Nossa heroína é Ruby (Amandla Stenberg), uma garota de dezesseis anos que passou um bom tempo da adolescência em um desses campos, após cometer um inesperado erro. Escondendo sua capacidade telepática poderosa, Ruby consegue escapar do acampamento e encontrar um grupo de adolescentes fugitivos que estão em busca de um refúgio seguro. Mas não demora muito para o grupo descobrir que não basta correr, a resistência é a única forma real de poder coletivo.

Reconhecidamente, a ficção científica é a melhor ferramenta para criadores de histórias explorarem as complexidades da nossa realidade atual através de DEVANEIOS e especulações. Nesse gênero, são recriadas as difíceis questões atuais em um ambiente diferente do nosso espaço e tempo, então não é surpresa que diversas histórias pensadas para o público adolescente utilizem a ficção científica para falar sobre família, aceitação, medo e amadurecimento.

Abraçando seu gênero, Mentes Sombrias faz constantes referências à governos totalitaristas e à política norte-americana atual e existe um óbvio sentimento antigoverno nas ações dos personagens, mostrando que alguma coisa interessante poderia ter saído dali. Com debates fervorosos sobre a forma como os imigrantes estão sendo tratados nos EUA, Mentes Sombrias se torna extremamente atual, mas a falta de um desenvolvimento mais profundo sobre essa sociedade tornam o filme algo vazio.

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A sensação é que informações importantes sobre essa história foram perdidas no processo de adaptação ou até mesmo na sala de edição. Um exemplo disso é a personagem de
Mandy Moore, uma representante da Liga, grupo que tenta salvar crianças dos campos de contenção. Mesmo sendo salva por essa personagem, Ruby não confia na Liga e passamos boa parte da história com apenas a falta de confiança da protagonista nessa organização. Pela falta de informação e com Moore passando apenas uns 10 minutos em cena, parece que a subtrama sobre a importância da Liga e Moore foi cortada, tornando incoerente a falta de confiança da protagonista em alguém que a ajudou.

O mesmo vale para Bradley Whitford como um presidente com apenas duas falas durante o filme todo e para Gwendoline Christie, uma lendária caçadora de recompensas que tem apenas duas cenas e foi facilmente derrotada...

Com o tema central sendo explorado de forma tão genérica e confusa, as interações entre Ruby e Liam (Harris Dickinson), um dos membros do seu pequeno grupo fugitivo, se tornam o foco do filme. No decorrer da história, a história de amor entre a dupla ganha bastante espaço e a noção geral sobre adolescentes lutando contra adultos que os manipulam se perde bastante.

A diretora Jennifer Yuh Nelson – que faz sua estréia em produções live-action – não conseguiu ultrapassar essa barreira narrativa criada pelo roteirista Chad Hodge. Mentes Sombrias tem uma genérica fotografia e parece que a história inteira se passa em um mesmo ambiente, já que não existe um design de produção consistente para introduzir o espectador nesse universo distópico.

No fim, Mentes Sombrias não abraça completamente a história que inicia, tornando um enredo que soava poderoso apenas maaaais uma narrativa para o público adolescente. ¯\_(ツ)_/¯