Metallica é foda. | Judão

Um texto em três atos sobre como Metallica é a maior banda do mundo

Metallica é gigante. Vem pro Brasil todo ano, o show é sempre igual, mas ainda assim é uma parada necessária, essencial, que todo mundo PRECISA testemunhar na vida pra fechar a checklist do balde com honra.

Mas com a turnê de divulgação de seu primeiro álbum de inéditas desde 2008, Hardwired... to Self-Destruct, bom... As coisas mudaram um pouco.

Quem esteve no palco principal do Lollapalooza 2017 no sábado, primeiro dia de evento, não só já pode riscar com um sorriso esse item (e isso inclui este que vos fala, FELIZ PRA CARALHO, aliás), como pôde conferir essas e outras novidades. Com o seu típico carisma, talento, atitude e, mais importante, PESO, a banda veio e mostrou a que com uma puta duma apresentação, com direito a repetidas declarações de amor vindas de Hetfield ao público brasileiro, pirotecnia de primeira e, veja só, um solo de baixo legal pra cacete assinado por Robert Trujillo.

Uma experiência DO CARALHO! Tanto que, decidi narrá-la em três atos. ;)

Ato 1: Em que uma ideia frustrada abre portas para um bom lugar no show

Festival é aquela coisa, né? Você sempre vai planejar fazer algo que, por A ou B, não vai rolar. No meu caso, isso era ir do show da Rancid, por volta das 19h30, até a Sala de Imprensa e carregar meu celular, conferir The XX no palco Onix por volta das 20h e chegar ao palco Skol às 21h para Metallica. Show. O problema, eu fui ficar sabendo às 20h07, é que o Palco Onix fica a 20 minutos de distância da sala de imprensa AND do Palco Skol.

Miou.

Como todo o gramado no nível do palco à espera de Hetfield & Friends estava TOMADO (e olha que, segundo o mestre Thiago Cardim, teve gente falando que o festival ia esvaziar na hora do Metallica, RISOS), fiz como Obi-Wan Kenobi e busquei um ~high ground. Achei que a beira dum morrinho, na lateral direita do palco, seria um ponto ótimo pra assistir ao show e fazer umas fotos. Acertei! Pensei que seria confortável. E errei miseravelmente.

Eu não só tinha 50 minutos para ficar ali, sentado, segurando meu peso com uma perna para não desbarrancar e minha mochila com a outra pra que eu não TIVESSE de desbarrancar indo atrás dela, como a banda ainda atrasou mais dez minutos, totalizando uma hora de esforço dos meus membros inferiores e da minha bunda que, no chão de terra irregular, começava um processo de enquadradificação.

A banda (ou sua equipe) com certeza sentiu que o público tava ficando meio impaciente com o atraso, porque na metade dos 10 minutos a mais de espera, “It’s a Long Way to The Top”, do AC/DC, começou a tocar meio aleatoriamente nas caixas de som do palco. E funcionou. A galera deu uma acalmada. Bendito Angus Young!

Enfim, a essa altura eu já tava arregando de dor nos GLÚTEOS quando o som da banda australiana parou. Nos telões, surgiu, em flashes, a capa de Hardwired... E o Metallica tomou a parada, fazendo geral pirar e eu esquecer um pouco a falta de conforto de onde eu estava.

Ato 2: Em que chego à conclusão que Metallica é a maior banda do mundo

A frase que eu mais gosto na resenha do Cardim de Hardwired... to Self-Destruct é, com a mais absoluta das certezas, “o Metallica é uma banda mainstream pra caralho”. Primeiro, porque é uma puta verdade enorme da vida. Segundo, porque tem gente que ainda nega.

Só que no Lolla isso fica muito claro. É óbvio que o público do festival não é necessariamente o público-alvo do Metallica, e isso reflete numa certa lentidão da galera em se manifestar em massa, cantar de cabo a rabo as músicas menos famosas dos caras e tal. Mas é incrível ver como todo mundo fica em pé, bate cabeça e, principalmente, puxa o celular loucamente pra registrar alguma coisa daquelas lendas do rock. Todo mundo MESMO.

Como fiquei fora do MEIÃO, não tava no pico de concentração da galera que é fã de carteirinha do Metallica — o que foi ótimo. Ao meu lado tinha um casal de adolescentes com um amigo que não paravam de falar de Mr. Catra e outras zoeiras; atrás de mim, uma família com criança pequena e, do meu OUTRO lado, um trio de meninas com no máximo 15 anos. Todo mundo de olhos arregalados e coração aberto pro som pesado dos norte-americanos. Legal demais, velho!

“Eu não me importo de onde vocês vieram, ou quem vocês vieram ver, vocês agora são parte da família Metallica”. A frase poderia ser de Dominic Toretto, mas o final ajuda a sacar que foi de James Hetfield. Ele, Hammett, Trujillo e Ulrich lançaram mão de suas melhores cartadas para laçar o coração de todos ali presentes, fossem eles hipsters, lacradores, headbangers, punks ou sei lá mais o que. Com um setlist que SABIAMENTE intercalou músicas do novo álbum (comprovando sua qualidade) com os clássicos da banda, os malucos souberam lidar bem demais com as expectativas da galera e revisitar seu legado.

“Estamos todos velhos”, brincou James antes de mais um GALANTEIO. “35 anos e ainda é um sonho. E vocês são parte dele”, completou. Ui! <3

Pra melhorar, Hammett teve espaço pra mandar um solo daqueles de DERRETER O ROSTO, como diria Jack Black. E, como já antecipei, Trujillo mostrou que não só tem estilo pra porra com aquelas trancinhas que o fazem parecer um intimidador apache do ROQUE, como tem talento demais: mandou um solão com direito a batuque — a parte mais legal do esforço individual do cara.

Pra ninguém reclamar do atraso, os caras ainda preparam um bis fodástico, encerrando, mais uma vez sabiamente, o show com Enter Sandman (de longe, a música mais fácil de ser conhecida pela massa de não-fãs que estaria no festival) — e levando todo mundo a loucura.

Amo Enter Sandman de paixão porque a tirei quando fazia aula de bateria, nos tempos de escola. Ouví-la ao vivo foi uma experiência CATÁRTICA que me transportou para momentos muito felizes da vida. Incrível.

Quando o show acabou, a dor da minha bunda já tinha irradiado pelo cóccix ao começo da coluna e um simples movimento fazia com que tudo doesse mais. Minha perna direita, travada pra segurar minha mala, amarrada nela, eu nem sentia mais. Mas meu coração, olha, tava tão cheio de alegria que compensava. :D

Não é questão de qualidade, longevidade ou coisas mais quantificáveis. É um sentimento, um ESCOPO das coisas. Metallica é a maior banda do mundo, bicho!

Ato 3: Em que enfrento a realidade do festival e, todo cagado por sentar no barranco, ando quilômetros até o trem

Cabou o show, bora pra casa. Mas, claro, depois de dar uma volta gigantesca por dentro do autódromo até a saída de determinado portão, seguir pela rua por mais dois quilômetros puxando uma perna com câimbra e com a bunda quadrada , enquanto gente te empurra, esbarra em você com grosseria e, em alguns casos, desmaia no meio da rua (ou começa a gritar por algum motivo bizarro).

Não existe show que não tenha seus perrengues e se você, como eu, foi adepto do transporte público, olha, isso só tende a agravar. Na maior pegada The Walking Dead, um UNIVERSO de pessoas seguiu até a estação Autódromo da CPTM, onde uma divisão estranha rolou entre quem tinha bilhete e não tinha — e depois entre quem passaria com bilhete e quem passaria com cartão, que resultou num processo de mais ou menos uma hora pro embarque que, normalmente, levaria 20, 25 minutos.

Faz parte.

No vagão, geral meio zumbizada, uns com fome, outros com sono. Uma galera num canto falava sobre música eletrônica e pegação. Outra, sobre o som alternativo dos caras do XX (maldito longínquo Palco Ônix). Mas a grande maioria falava, de uma forma ou de outra, que Metallica é foda.

Que fechem-se as cortinas. ;)