Miley Cyrus: a personalidade que vem com a maturidade | Judão

Cantora cria ONG e dá um passo importantíssimo em sua própria carreira

Eu tinha pouca, ou nenhuma, paciência para a Miley Cyrus. Quando ela era Hannah Montana, quando era mais filha do ótimo astro country Billy Ray Cyrus do que uma estrela com brilho próprio, sei lá, meio que me passava batida. Mais uma das dezenas de estrelas Disney que pipocam dia-a-dia fazendo aquela música pop quadradinha, bem produzidinha até, mas inofensiva, nada demais e nem de menos, pra servir de suporte para um bando de seriados que não são feitos pra mim.

A porca me torceu o rabo quando a Hannah porraloucou e virou a Miley – aquela Miley vida loka, da língua de fora, do twerk. Não me incomodava ela ser porralouca, pra ser honesto. Nem a polêmica. Madonna tá aí pra isso, né? Me incomodava era a música. Que eu achava música pop ruim. E música pop ruim precisa, claro, ser disfarçada com todo o tipo de micagem no palco. Pra mim, era apenas um fenômeno pop passageiro e sem graça, uma aspirante a diva que não ia durar.

Na última semana, no entanto, algo na percepção que eu tinha da garota mudou. E, de uma estrela pop genérica, diante dos meus olhos, ela se tornou uma estrela pop com um tipo de coragem que só a maturidade traz.

Já tinha lido uma ou outra entrevista dela na qual a moçoila mostrou bastante personalidade – mas logo encoberta por tentativas de “limpar a barra”, de tentar manter ao seu lado aquele público mais jovem que a conheceu nos anos dentro da casa do Mickey Mouse e, por consequência, seus pais preocupados com “a moral e os bons costumes”.

A grande virada aconteceu esta semana – quando, ao divulgar o lance de sua ONG, a Happy Hippie Foundation, ela deu uma reveladora entrevista para a agência de notícias Associated Press, na qual diz que nem todas suas relações foram “heterossexuais”, um privilégio que nem todo mundo tem, infelizmente. “Estou em uma posição que sinto como se eu tivesse muito poder. Mas muitos jovens não se sentem assim e vivem sob a pressão dos pais”, afirma.

Ao questionar os rótulos que definem as questões de identidade de gênero, Miley foi ainda mais fundo ao afirmar que nunca quis ser um garoto, em uma outra entrevista, para a revista Out. Mas... “Eu na verdade não queria ser nada disso. Não relaciono o que as pessoas dizem definido se elas são um menino ou uma menina e foi isso que eu entendi com o tempo: eu não odiava ser uma garota, mas odiava o rótulo que me davam por isso”. Só por isso, cara, eu seria capaz de ir até ela, dar-lhe um abraço e pedir desculpas pelo tanto que sacaneei a menina nos últimos anos, chamando-a de “Madonna wannabe”.

Mas ainda viria mais.

A Happy Hippie Foundation, fundada pela garota, tem um objetivo bem claro: ajudar jovens em situação de vulnerabilidade social. Homossexuais e moradores de rua (lembra que ela mandou um deles receber o VMA por ela, ano passado?), por exemplo. E como primeira iniciativa para divulgar a fundação, Miley criou vídeos musicais batizados de “Backyard Sessions”. São registros de músicas emblemáticas sendo tocadas, bom, no quintal de uma casa (no caso, a dela, mesmo), sem muito glamour mas com uma baita atitude.

E não apenas a seleção musical, mas também a seleção dos parceiros de Miley para a empreitada, foi brilhante. O primeiro vídeo a coloca ao lado da poderosa e experiente Joan Jett, sinônimo do poderio feminino no rock, tocando Different, um hino anti-bullying que já começa assim: “Have you ever taken flack from the bullies on attack / Cause you’re different / They laugh and call you names / But that ain’t no badge of shame / Just cause you’re different”. Uma canção linda e com uma letra que, sério, me trouxe lágrimas aos olhos.

Aí, ela me convida a vocalista e o baterista da banda de punk rock Against Me! para executar True Trans Soul Rebel, clássico do grupo. Detalhe importante para quem não conhece: Laura Jane Grace, a frontwoman e guitarrista do Against Me!, nasceu Thomas James Gabel. Sim, Laura é transexual. Extremamente politizada e ativa na cena. E do tipo que não teve medo de manifestar sua condição publicamente – inspirada, inicialmente, justamente por uma conversa com uma de suas próprias fãs na mesma situação.

Para completar, Miley, Laura e Joan se juntam para tocar Androgynous, versão da cultuada banda de rock alternativo The Replacements. A canção, que fala sobre um casal andrógino, abre dizendo que “Here come Dick, he’s wearing a skirt / Here comes Jane, y’know she’s sporting a chain”.

Sério. Uau. Não acho que seja exagero afirmar que esta semana foi histórica para Miley Cyrus enquanto artista. Ela exibiu um traço que é primordial para que um músico seja, de fato, lembrado. Personalidade. Porque personalidade não é uma roupa multicolorida, fogos de artifício, voar por cima da plateia ou esticar a língua por aí. É quando um artista tem coragem de mostrar a sua opinião, por mais impopular que seja. É quando um artista toma uma posição. E resolve usar o seu status para ajudar quem precisa: o seu público. É quando ele devolve o amor em forma de amor.

Não que eu tenha passado a amar o tipo de música pop que a Miley faz. Só que minha percepção dela, enquanto artista, enquanto PESSOA, virou de um jeito que eu não esperava.

O JUDÃO, enquanto site, já era fã da menina. Perguntem pro Borbs. Mas faltava ainda me convencer. Agora, não falta mais nada.

MILEY <3.