Miranda: muito mais do que um jurado de TV | Judão

Estamos falando de um dos mais importantes produtores musicais do rock brasileiro — que era uma figuraça, que era gente boa até dizer chega. Mas que foi, sim, também responsável por ajudar a moldar a sonoridade de uma galera que ainda tá por aí, firme e forte

“Tudo o que você ler e ouvir sobre o Miranda nos próximos dias será verdade absoluta. Ele era onipresente. Amável. Realmente se importava. Dava o que tinha e nunca cobrava nada em troca. A vontade de espalhar carinho era uma necessidade que ele exercia pelo mais puro prazer.”

Reproduzimos aqui esse tweet do nosso amigo e jornalista Pablo Miyazawa porque, bom, é exatamente isso. O gaúcho Carlos Eduardo Miranda ou, simplesmente, Miranda, era, antes de qualquer coisa, um cara incrível. Gente boníssima, cheio de grandes histórias pra contar, um papo delicioso, um abraço apertado e sincero.

Tive a chance de entrevistá-lo umas duas ou três vezes e sempre foi uma festa, intercalando música e gibis, outra de suas paixões inabaláveis. “Miranda era uma força da natureza”, resumiu bem seu outro amigo pessoal, André Forastieri, em coluna emocionante pra Folha. Pensar nele desta forma é inevitável — assim como também acaba sendo pensar no cara como o jurado bonachão de programas de televisão como Ídolos, Astros e Qual é o Seu Talento?, todos do SBT. Pois foi colocar a cara na TV aberta, este veículo que ainda é tão forte e relevante no Brasil, que fez o Miranda se tornar conhecido do público em geral.

Mas chega a ser injusto pensar nele apenas e tão somente como uma PERSONALIDADE DA MÍDIA e esquecer do quanto este cara fez pelo cenário musical brasileiro, em especial pelo rock dos anos 90, aquele que ainda vacilava, bambeava, tentava encontrar seu caminho como legítimos seguidores do DNA do rock BR oitentista, mas em busca de sua identidade própria, única. Era o ROQUE brazuca tentando voltar a ser popular de novo, tocar nas rádios, como fora uma década antes. Miranda tava ali, cheio de referências, ele também um músico em bandas como Taranatiriça, Atahualpa Y Us Panquis e Urubu Rei, pra ajudar isso a acontecer.

Quando George Martin se foi, a gente escreveu aqui no JUDAO.com.br um texto que abria com a explicação do papel de um produtor. E ela vinha do próprio Miranda: “Produtor musical é como o diretor de um filme. O compositor é o roteirista, a banda é o elenco e o arranjador é o cenógrafo”.

Mais claro, impossível.

Miranda nas páginas de Strange Tales #1, de 2011, cortesia de Rafael Grampá, outro dos seus milhões de amigos

Um verdadeiro fanático por música, garimpeiro de sons sujos e largados, depois de atuar como repórter da revista Bizz, um de opiniões polêmicas e divertidas, Miranda resolveu se meter a produzir. Com a missão de escrever uma matéria de capa com os Titãs, em 1993, ele aproveitou a chance e mostrou pros caras alguns nomes da nova geração que despontavam por aí e eles nem faziam ideia. “Estava viajando pelo Brasil vendo tudo o que estava acontecendo. Eu ficava enchendo o saco de todo mundo com as minhas demos do Planet Hemp, Raimundos, Charlie Brown, Skank, tudo”, contou ele pro site Ligado à Música. Os músicos se empolgaram pra caralho. E o Miranda sacou que ali tinha jogo. Porque ele já tinha alguma experiência como produtor, ainda que apenas de seu tempo mais cabeludo, do metaaaaal.

Então, com o apoio dos Titãs e também da Warner Music, fundou um selo chamado Banguela Records, cujo foco era incentivar a cena independente, revelar e dar espaço pra novas bandas. Sendo bem franco e honesto, o Banguela ERA o próprio Miranda. Ponto. Foi aquele momento que ajudou a lançar pro mundo a tal turma de 1994, a tirar dos palcos dos botecos e meter no palco do Faustão bandas de diferentes partes do país como Raimundos, Skank, O Rappa, Mundo Livre S/A, Planet Hemp. Foram só dois anos de existência, mas o Banguela foi atrás de rock que falava com rap, com funk, com baião, com maracatu. E fez acontecer pra caralho, conforme dá pra ver no documentário Sem Dentes, sobre a importância do Banguela pra música nacional.

Foi das mãos do Miranda que saiu, por exemplo, Samba Esquema Noise (1994), discaço dos pernambucanos do Mundo Livre S/A, um dos pilares do nosso manguebeat. O produtor passou três meses enfurnado num estúdio depois que pegou o resultado em mãos. Chegou a mudar o andamento de algumas músicas, acrescentou até umas faixas de instrumentos gravados pelos amigos da Nação Zumbi. No fim, os caras amaram, mas quase não reconheceram o próprio som. “Quando a banda ouviu, alguns não sabiam como tocar as músicas”, explicou Miranda pra IstoÉ Gente. “Éramos totalmente ignorantes quanto à técnica de gravação”, conta Fred 04, líder do Mundo Livre. “Confiamos em Miranda e ele realmente mudou muito algumas músicas”.

E deu certo. Demais. Carlos Eduardo Miranda era um BAITA produtor musical.

Também foi dele o trabalho de produzir o primeiro disco dos Raimundos, aqueles moleques de Brasília querendo fazer um rock pesado, hardcore com um jeito nordestino de ser, com palavrão, sacanagem, guitarra e zabumba. “O Raimundos foi um disco em uma foto preto e branco, no primeiro disco. Cheguei ali e registrei exatamente como eles eram crus, deixei a areia toda, a porrada toda, a sujeira toda e pau”, contou Miranda, que se apaixonou pelo som dos moleques desde que a demo caiu na sua mão, fazendo com que eles fossem os primeiros contratados do Banguela. “Não havia espaço para uma banda que tocasse punk rock e fizesse música com palavrão. Tinha tudo para dar errado”, lembra Digão, em entrevista pra Superinteressante.

“Na verdade foi uma porra louquice do caralho que foi a coincidência de ter o Raimundos fazendo aquilo em Brasília, juntar o forró com o hardcore; o Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre, galera do mangue lá em Pernambuco, misturando hip hop com maracatu, um monte de coisas”, analisou ele. “Era um momento. Mas isso não é o mais marcante da época. Eu acho que o mais marcante da época era acreditar e fazer, ir atrás do que fosse, e conseguir conversar melhor com o país. Acho que isso é mais importante de tudo”.

Miranda na época da Banguela Records

“O grande Carlos Eduardo Miranda foi uma figura seminal na nossa história. Foi ele quem chamou a atenção da imprensa do eixo Rio-SP sobre um quarteto que vinha de Minas Gerais e misturava reggae, pop, ska”, afirmaram os caras do Skank em post no Facebook. “Foi a chave que abriu a porta pro que viria depois. Ele teria ainda grande contribuição ao longo da nossa carreira, especialmente no disco Maquinarama“. O mesmo tom foi usado pelos caras d’O Rappa, no Instagram. “Carlos Eduardo Miranda era antes de tudo um amante da arte. Jornalista, músico, produtor e mais do que tudo, um grande agitador cultural com uma grande importância na nossa carreira e de tantas outras bandas da nossa geração”.

Além do Banguela, Miranda também cuidou da Excelente Discos, selo que lançou os Virgulóides (aqueles do “bagulho no bumba”), e do Trama Virtual, plataforma de bandas independentes que arriscou, no meio daquele furacão de Napster e o Metallica botando banca e processo na galera, experimentar um negócio maluco que era vender MP3 por aqui, sem Apple, sem ninguém. Tudo na raça. Atualmente, ele era responsável pelo selo Stereomono, parte da iniciativa da Skol Music. Além disso, também atuou como diretor musical do disco de estreia de Gaby Amarantos, Treme, que explodiu em 2012 com os hits Ex Mai Love e Xirley.

Vai em paz, velhinho, que é como tu chamava todo mundo. Porque aqui a gente sempre vai lembrar de tu com um sorriso na cara. E um bom som pra ouvir em alto volume nos fones de ouvido.