A monstruosa coleção de Kirk Hammett | Judão

Guitarrista do Metallica se tornou absolutamente compulsivo por filmes de terror clássicos, em especial aqueles da Universal, e acabou até criando uma outra persona para o seu “eu” colecionador

Nascido na cidade de São Francisco e criado no bairro de Mission District, o pequeno filhote da Dona Teofila e do Seu Dennis torceu o braço quando tinha lá seus cinco anos de idade, numa briga com a irmã. Aí, devidamente tratado e medicado, ele precisava ficar quieto para evitar que o quadro piorasse e fez a única coisa possível: foi pra frente da TV. Mas, naquele dia, a programação não era de um monte de desenhos aparentemente inocentes, sim a mistura de ficção científica com horror batizada de O Terror Veio de Espaço, produção de 1962 sobre plantas carnívoras alienígenas que tentam dominar o planeta Terra.

Bingo. O moleque estava, assim, conquistado pelo bizarro e fascinante mundinho dos filmes de terror. Mas ele só se tornaria um colecionador a partir do ano seguinte, quando sentou ao lado do pai para ver o clássico absoluto Frankenstein, de 1931, com Boris Karloff no papel principal. A partir daquele dia, vidrado nos bonecos do monstrão que seu irmão tinha, o terror virou sua obsessão e qualquer trocado que ele tinha era revertido na compra de revistas especializadas que encontrava aos montes nas bancas, lá pelos idos de 1960 e uns quebrados.

“Tinha muita coisa ali que eu não entendi muito bem”, explica Kirk Lee, agora um respeitável senhor prestes a completar 55 anos, em entrevista para a revista Collectors Weekly. “Da direção de James Whale e do visual preto e branco, surrealista e impressionista do filme à maravilhosa maquiagem de Jack Pierce e à incrível performance de Boris Karloff, para não mencionar o enredo em si. Mas me pegou. A partir daí, comecei a comprar revistas de monstros, quadrinhos de terror e kits de montagem”.

A verdade é que os filmes de terror se tornaram uma imensa válvula de escape contra os problemas que o cercavam – incluindo a timidez, o bullying e mesmo a relação distante que tinha com seu pai. “Eu sempre me senti um intruso, deslocado. Era muito quieto e observador, tinha dificuldade de me encaixar. Por vezes, eu achava que EU era o monstro. Muito do que via acontecendo com eles na tela, eu relacionava com a minha própria vida”.

Pelos corredores da escola católica onde estudava, lá ia ele imaginando que todo mundo era zumbi ou cientista maluco. Na sala de aula, ao invés de ler os livros, o moleque tava com a cara enfiada nos gibis de terror. E os 25 centavos que ganhava todos os dias dos pais pra combrar leite e uma rosquinha ele guardava pra depois da escola, comprando revistas como a Creepy e a Eerie, empacotadas como “revistas comuns” para driblar as limitações do código que baixava sobre os quadrinhos na época.

Aos finais de semana, ele sempre fugia para as matinês triplas dos cinemas da região. “Aquele era um lugar seguro pra mim, não tinha ninguém ali querendo me bater ou roubar meu dinheiro do lanche. Eu ia pelo menos duas vezes por semana”. Outro lugar ao qual comparecia religiosamente era a lendária San Francisco Comic Book Company, na 23rd Street, inaugurada em 1968 e a primeira loja especializada em quadrinhos do país. Foi lá que conheceu o dono da loja e um de seus mentores nerds, Gary Arlington, figura-chave para o crescimentos dos quadrinhos alternativos entre as décadas de 60 e 70, incluindo os primeiros volumes de Mr.Natural, do Robert Crumb. “Eu passava um tempão na loja, lendo, comprando, absorvendo um monte de experiências diferentes. Eu deixava o Gary e os funcionários dele malucos enquanto tentava ampliar minha coleção”.

De lá pra cá, sua coleção cresceu consideravelmente, mas na adolescência o terror acabou dividindo espaço com outra paixão: a música. Na verdade, depois que Kirk descobriu os discos de Jimi Hendrix, Led Zeppelin e UFO do irmão, passou até a vender as revistas de horror pra comprar mais LPs de rock. Aos 15 adquiriu a primeira guitarra e, graças a um emprego no Burger King, bancou o primeiríssimo amplificador. Logo depois, entre sons de Thin Lizzy, Cream e Pink Floyd, ele formaria uma banda pesada chamada Exodus, parte fundamental do surgimento do tal do thrash metal na região. Dali, seria um pulo até ser convocado para substituir um tal Dave Mustaine como guitarrista numa pequena mas promissora banda chamada Metallica. E Kirk Stuart Lee se tornaria para sempre apenas Kirk Hammett.

Eu sempre me senti um intruso, deslocado. Era muito quieto e observador, tinha dificuldade de me encaixar. Por vezes, eu achava que EU era o monstro. Muito do que via acontecendo com eles na tela, eu relacionava com a minha própria vida

“Qualquer um que toca ou ouve heavy metal entende os filmes de horror, porque estamos falando dos mesmos padrões de luz e sombra”, explica ele, no livro Too Much Horror Business, uma parceria de mais de 220 páginas com o escritor Steffan Chirazi para detalhar a sua coleção em mais de 300 fotos exclusivas e com uma série de entrevistas sobre sua infância, sobre como o terror mudou (e ainda muda) a sua vida e sobre a relação da música de sua banda com os filmes apavorantes que tanto ama.

Criado na São Francisco dos anos 60, ele estava cercado pelo auge do movimento hippie, flores, maconha, pés descalços e psicodelia. Mas acabou que, mesmo com tudo aquilo rolando inclusive dentro de casa, ele jamais se deixou envolver e acabou indo para o lado mais sombrio da parada. “Não sou um fã dos Beatles, por exemplo. Por quê? Porque é muito alegre e contente quase todo o tempo. Mesmo quando eles tentam ser agressivos, ainda tem todas aquelas cores”.

Depois que Ride the Lightning, o disco de 1984, foi lançado, os integrantes do Metallica passaram a receber cheques bimestralmente com sua porcentagem das vendas dos discos. E foi aí que Kirk resolveu que já dava pra recomeçar a sua coleção. “Não era muito dinheiro, mas já dava pra voltar a comprar bonecos e HQs. Comecei a frequentar feiras de antiguidades e, na turnê do Master of Puppets, eu sempre procurava os mercadinhos locais. Não parei mais, desde 1984”. A banda aumentou, os cheques aumentaram, as turnês também... E agora que o Metallica é uma das mais importantes e rentáveis bandas de rock do planeta, dá pra imaginar que Kirk gasta um tantinho a mais de dinheiro com seu hobby, né? ;)

A coleção do músico agrora inclui figurinos originais dos filmes Zumbi, A Legião dos Mortos (1932) e O Gato Preto (1934); uma série de brinquedos raros relacionados ao tema (incluindo o verdejante Great Garloo com sua tanga de oncinha e os Tricky Walkers, monstrengos de corda que andam sozinhos... ou quase isso); a máscara do Dr.Tongue, o zumbi visto na abertura de Dia dos Mortos (1985); manequins em tamanho real de Bela Lugosi e Boris Karloff com os figurinos dos filmes; as duas cabeças de Armand Tesla enquanto era destruído pelo sol em A Volta do Vampiro (1943); e até pinturas originais de Basil Gogos (responsável pela série de ilustrações Famous Monsters) e Frank Frazetta.

Os objetos de maior valor em sua coleção e que o fazem pirar mais no momento são mesmo os pôsteres originais das décadas de 20 e 30 – na mesma pegada daqueles que hoje ilustram suas populares guitarras customizadas. Ele tem até que fazer as negociações para a compra por meio de um amigo, também colecionador, para evitar que lhe cobrem a chamada “taxa de celebridade”, um valor adicional no preço de venda quando se descobre que um famoso é o comprador da peça. “A rede de colecionadores de pôsteres de cinema é uma coisa insana”, explica Kirk. “São os caras mais malucos com os quais tenho que lidar. Cheguei a ver cara na segunda ou terceira hipoteca da casa só porque precisam daquele pôster em especial. Tem caras tão rudes na negociação que acho que seriam capazes de vender a própria mãe. Finalmente encontrei um grupo de sujeitos tão birutas quanto eu”.

Um dos seus pôsteres mais raros é justamente o de Nosferatu, de 1922, aquela icônica adaptação não-autorizada da obra de Bram Stoker. O motivo? A viúva de Stoker processou todos os envolvidos e, depois de vencer na Justiça, ordenou que todos os materiais promocionais fossem simplesmente destruídos. Mas, uma cópia que tinha sido enviada para a Espanha antes da decisão judicial, acabou sobrevivendo. “Os gráficos são incríveis, o estilo, o design. São mesmo objetos de arte para mim”, explica ele, em entrevista para a Vice. “Tem uma elegância ali que parece não fazer sentido, porque eles estão anunciando filmes de terror”.

Descrevendo a si mesmo como obsessivo-compulsivo no que diz respeito a estes itens, ele faz questão de deixar claro, no entanto, que é bastante seletivo no que compra. “Esta coisa de ter que ser um completista, de ter múltiplas versões de diferentes itens, não é a minha praia”.

Qualquer um que toca ou ouve heavy metal entende os filmes de horror, porque estamos falando dos mesmos padrões de luz e sombra

Apesar do Metallica ainda ser a sua prioridade de vida, digamos que a coleção de memorabilia de terror levou Kirk a terrenos nunca DANTES navegados. Depois de lançar o livro, empolgado com a recepção que a obra teve, o guitarrista levou parte de sua coleção para ficar exposta na chamada Kirk’s Crypt, espaço reservado no festival musical Orion Music + More, que o Metallica organizou em Detroit, em 2013.

Ver a quantidade de malucos que passou por ali mexeu com o nerd que existia dentro de Kirk Hammett, que enfim decidiu: por que diabos eu não faço a minha própria comic con pessoal para horrormaníacos? Eis que, em 2014, nasceria o Kirk Von Hammett’s Fear FestEvil – batizado, inclusive, com o codinome que ele criou para si mesmo quando o assunto não é música, mas sim vampiros e lobisomens sedentos de sangue. A primeira edição rolou no Regency Ballroom, em sua cidade natal, enquanto a segunda, em 2015, aconteceu no Rockbar Theater, em San Jose. A convenção reúne, além de exposições, uma série de palestras e shows de bandas como Exodus, Death Angel, Orchid, Agnostic Front, Blues Pills, Meshuggah e Carcass. Passaram por lá amigos músicos como Slash e Scott Ian (Anthrax), outros dois fãs declarados de filmes de terror, e também convidados da ESTIRPE de Sara Karloff (filha do seu Boris), Bela G. Lugosi (filho de Bela Lugosi), o maquiador Greg Nicotero (responsável pelos zumbis de Romero e The Walking Dead), o ator Tom Savini (que deu as caras em um monte de filmes do Romero), a atriz Heather Langenkamp (que foi a Nancy em A Hora do Pesadelo) e até Kane Hodder (um dos intérpretes do maníaco Jason Vorhees).

Além de ter lançado um canal no YouTube dedicado especialmente ao seu lado Kirk Von Hammett, o músico está querendo seguir os passos de outros colegas famosos e, quem sabe, se arriscar ele mesmo no cinema. Ano passado, num papo com a Alternative Press, Kirk revelou até que quer fazer um filme, “enquanto ainda tem alguém disposto a pagar por eles”. Afinal, “a única coisa que aprendi até agora sobre fazer filmes é que é sempre melhor se alguém paga por eles. Me dê 30 milhões e eu faço um puta filme foda”.

Por enquanto, Hammett está cuidando de escrever seu próprio roteiro (de terror, claro), desenvolvimento de uma ideia que ele teve há algum tempo. “Acho que a história é bem boa e estou trabalhando junto com um roteirista profissional. Não é garantia de algo vai mesmo sair daí, que vou fazer o filme ou que mesmo o roteiro vai ficar pronto. Mas quero tentar, para quebrar o gelo”.