Moonglow segue aquele mais puro padrão de qualidade Avantasia. MAS... | JUDAO.com.br

Talvez o grande ponto do novo disco do hoje quase megalomaníaco projeto de Tobias Sammet é que, ao dialogar demais com o seu passado, ele dá um pequeno passo pra trás ao invés de andar pra frente…

Desde que o workaholic alemão que atende pela alcunha de Tobias Sammet inventou de reunir seus ídolos e melhores amigos todos cantando num único projeto musical, a prova de que tudo ficou muito maior do que ele e qualquer um sequer imaginou é que o FRISSON causado pelo anúncio de cada novo disco, cada convidado especial, hoje definitivamente supera qualquer informação a respeito de sua banda original, o Edguy. Aliás, chegamos num ponto em que, conversando com fãs do Avantasia, cheguei a ouvir que eles não faziam ideia do que era o Edguy. SÉRIO.

O que era a realização de um sonho se tornou a principal atividade de Tobias — e ele fez bem por merecer toda a atenção, criando um padrão de qualidade nítido que permeia cada disco que ele coloca no mercado. O recém-lançado Moonglow não foge à regra. O músico prometeu, em tom de brincadeira, que este seria um disco bem mais cheio de “penduricalhos”, mas nada parece sobrar na produção limpa e esmerada. O clima épico de sempre está ali, os muitos corais igualmente, sonoridades celtas lá e acolá, os exageros propositais de sempre tão aguardados num trabalho do gênero, tudo bem amarrado e resultando num disco lindíssimo.

Em termos de comparação, agora que o Avantasia tem uma discografia de respeito, Moonglow funciona melhor do que The Mystery of Time (2013), por exemplo, enquanto se coloca ombro a ombro com o antecessor, Ghostlights (2016). Quem odeia a trajetória de Tobias, talvez o principal responsável pelo ressurgimento do nosso querido metal espadinha, vai continuar tendo bons motivos para odiar. E quem é fã, ama tudo que o cara lança, vai continuar fanático, assim, numa boa. Tá tudo certo.

Mas sabe que talvez o meu único ponto de atenção com Moonglow, que é de fato um bom disco, seja justamente a parte mais METAL da coisa toda? Porque, de alguma forma, grande parte de sua sonoridade inicia um diálogo mais direto justamente com os dois primeiros discos do Avantasia, aquelas duas primeiras partes da chamada Metal Opera. E depois da quebra que foi o brilhante The Scarecrow (2008), seguir este caminho talvez possa ser o que eu chamaria de retrocesso criativo.

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Talvez o grande pulo na carreira de Tobias, além daquele momento em que o Avantasia deixou de ser lembrado apenas como aquele projeto paralelo que trouxe Michael Kiske, ex-Helloween, de volta ao metaaaaaaal, foram as diferentes guinadas sonoras de The Scarecrow. Ali, mais do que o power metal/metal melódico de grandes agudos e bateria de bumbo duplo que sabe fazer bem, o líder/compositor não teve medo de flertar com o pop, com o hard rock mais acessível, mais farofa, sem perder a grandiloquência e a megalomania de quem tava fazendo quase um musical da Broadway.

A partir daquele disco, irrepreensível, o Avantasia cresceu, se ampliou, abriu portas, alcançou ouvidos que estavam até então desacostumados ou mesmo um pouco cansados do lado mais formulaico do metal. Foi parar em outro nível. E isso é incrível. E esta característica, de verdade, é algo que o Tobias devia evitar perder, justamente para que o Avantasia não se torne mais um exemplar no meio de uma nova maré de melódicos que surgiram nos últimos anos... em grande parte, influenciados por ele mesmo. Não é como se isso acontecesse aqui. Moonglow ainda está MUITO acima da média dos álbuns do gênero. Mas opta por um flerte “perigoso”.

Este primeiro single, The Raven Child, com o parça Jorn Lande e a aguardada desde sempre participação especial de Hansi Kursch (Blind Guardian), é uma espécie de cria da faixa-título de The Scarecrow, por exemplo. É metal? Pra caralho. Mas tem um senso de esquisitice que lhe dá um tempero todo especial. É outra coisa.

Mas aí você ouve, sei lá, a guitarreira de Book of Shallows (aquela com a inesperada e bem-vinda participação de Mille Petrozza, do Kreator). Ou os tecladinhos marotos e quase oitentistas de Starlight, com Ronnie Atkins (Pretty Maids). Ou ainda o duelo com Geoff Tate (ex-Queensrÿche) em Alchemy. Todas ótimas canções, metalzão fino, de qualidade. Só que todas numa mesma pegada. Acelerada, porradeira, meio gritada. Legal pra bater cabeça. Só que será que o Avantasia não tem um tantinho mais a oferecer?

Um dos melhores exemplos talvez seja The Piper at The Gates of Dawn, curiosamente o nome do disco do Pink Floyd que tem uma canção chamada The Scarecrow (ora ora ora, Tobias, eu vi o que você fez aqui). Uma enorme e deliciosa extravagância metálica com nada menos do que SEIS vocalistas, daquelas feitas pra encerrar um show em alto nível, é uma ótima música, refrão fácil pra gritar de punhos erguidos. Mas também é uma ótima música que eu facilmente encaixaria em Hellfire Club, do Edguy do próprio Tobias, lá de 2004. Isso se a gente não for mencionar Requiem for a Dream, a única canção com a participação de Kiske e que claramente soa como uma daquelas faixas cavalgadas construídas na medida certa para lembrar a obra pregressa da Grande Abóbora. Sacou o ponto?

Não é “ai, que merda”. Não, mas não chega nem perto disso. É talvez mais uma sensação de que, em momentos assim, “podia ser um pouco mais”. Podia ser metal. Mas podia não ser SÓ metal.

Se tem algo em que Moonglow acerta brilhantemente, é preciso dizer, é na temática, que aqui se preocupa um tantinho menos com a questão CONCEITUAL da coisa. Preste atenção nas letras. Estamos longe de uma história fechada de fantasia medieval, como nos primeiros discos, ou mesmo de um conto macabro quase gótico, a la Fausto, como aconteceu na trilogia The Scarecrow, Angel of Babylon e The Wicked Symphony. Ainda que através de metáforas com um clima quase de sonho, de alucinação, dá pra sacar que este é um disco PESSOAL. É quase como um desabafo de Tobias, que agora não parece precisar criar um personagem para exorcizar seus demônios.

Tem várias histórias dentro de uma história só.

Dá pra sentir isso nitidamente nas duas baladas, a dobradinha com Candice Night que dá título ao álbum e a linda Invincible, talvez um dos momentos mais inspirados do disco, com trechos tocantes como “Sometimes you failed to feel / Pushed around, you’re losing ground”. Alguma coisa aconteceu na vida deste cara que, normalmente, não é do tipo que fala sobre a vida pessoal. E nem precisa. Que ele deixe sua música falar por si mesmo.

Não por acaso, o disco começa e termina com canções sem convidados especiais, só Tobias cantando apenas ele mesmo sobre um fantasma visto no luar e a sensação de se sentir sozinho no mundo e, ao final, sobre a eterna jornada de uma solitária interrogação — e então o retorno aos trilhos, ao caminhar pela vida, ainda com medo de lidar com o próprio coração.

Música de dragãozinho, hein? Sei... ;)

Moonglow está totalmente dentro do padrão de qualidade Avantasia de ser. Mas, de verdade, do lado de cá, fico esperando que este padrão se mantenha muito mais Scarecrow do que qualquer outra coisa — aquele que faz com que Tobias não tenha qualquer receio, por exemplo, de convidar Eric Martin, a voz do Mr.Big, para um delicioso cover de Maniac, aquela icônica canção do filme Flashdance. E não, não é uma faixa bônus ou nada do gênero. Está lá, como parte do disco, entre a lista oficial de faixas, chegando inclusive a irritar aqueles metaleiros mais tradicionais (true story, já ouvi isso de duas pessoas desde a última sexta, quando o disco saiu). Em resumo: sim, é ASSIM que eu gosto. ;)