Moriarty: "afinal, o que realmente aconteceu nas Cataratas de Reichenbach?" | Judão

Batemos um papo com Anthony Horowitz, autor do livro que desvenda segredos do nêmesis de Sherlock Holmes

Para ser realmente considerado GRANDE, um herói precisa ter um antagonista interessante. O que seria do Batman se o Coringa não existisse na sua vida? Talvez apenas um milionário excêntrico vestindo uma roupa de morcego... E o Demolidor sem o Rei do Crime? O mesmo também vale para a literatura clássica. Por mais que Sherlock Holmes seja quase sempre absolutamente genial, ele só revela seu brilhantismo de fato quando se vê diante de seu grande ALGOZ intelectual, o Professor Moriarty.

Talvez um dos maiores vilões do mundo dos livros, o chamado Napoleão do Crime – surgido pela primeira vez no conto O Problema Final, de Arthur Conan Doyle, publicado originalmente em 1893 e integrante da coletânea As Memórias de Sherlock Holmes – é um homem frio e calculista, um manipulador que controla tudo das sombras, protegendo outros criminosos em troca de sua obediência.

E é um tantinho desta existência imersa em segredos que o escritor inglês Anthony Horowitz resolveu explorar em Moriarty, o livro, recém-lançado no Brasil pela Editora Record.

Em 2011, Horowitz foi o primeiro escritor em muitos anos escolhido pessoalmente pelos responsáveis pelo espólio de Conan Doyle para escrever um livro estrelado pelo SAGAZ detetive. E lá veio A Casa de Seda, uma história nos padrões clássicos de Holmes, com Watson e aquela galera toda que os leitores bem conhecem. E, claro, com o Professor Moriarty envolvido na jogada toda.

Mas, nesta segunda obra, ele optou por um caminho diferente. Afinal, esta é uma história de Sherlock Holmes que não é nem de longe LITERALMENTE uma história de Sherlock Holmes.

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“Eu não queria escrever outra trama padrão de investigação”, explica Horowitz, em entrevista exclusiva para o JUDÃO. “Esta é uma história mais sombria e obscura, com uma surpresa desagradável escondida lá no fundo. Ela explora o mundo deste grande inimigo de Holmes e responde à questão – afinal, o que realmente aconteceu nas Cataratas de Reichenbach?”.

Os fãs de Sherlock Holmes sabem bem o que esta expressão significa: o palco da grande batalha final entre o mais famoso morador da Baker Street e seu arqui-inimigo, do qual aparentemente os dois despencam para a morte. Pelo título do livro, somos levados a crer que pelo menos Moriarty está vivo, não?

O autor, no entanto, explica que a trama é ligeiramente mais complicada do que isso. “Vamos tentar evitar spoilers aqui”, diverte-se ele. Afinal, como diria o próprio Holmes, “uma vez que você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que seja, deve ser a verdade”.

No livro, o detetive inglês Athelney Jones, da Scotland Yard, encontra o que seria o corpo de Moriarty – mas com um bilhete, que sugere a existência de um novo e perigoso criminoso em Londres. A ele se junta o americano Frederick Chase, da agência Pinkerton, que chega à Europa justamente seguindo as pistas para encontrar um tal Clarence Devereux, bandido dos EUA que agora tenta se estabelecer em Londres. Será que dá pra somar dois mais dois? “Moriarty, no fim das contas, é apenas parte da história”, explica.

Mas seria Jones tão bom a ponto de ser considerado um digno sucessor do legado de Holmes? “Olha, acho que isso você vai ter que decidir depois de ler o livro”, desconversa o escritor. “Eu acho que é bem divertido ver como Jones e seu parceiro americano começam a se tornar uma dupla tipo Holmes e Watson. Em certo ponto da história, eles até falam sobre começar um escritório juntos... bem ali na esquina da Baker Street”.

Horowitz faz questão ainda de deixar claro que Athelney Jones não é exatamente um desconhecido dos fãs, já que ele pegou “o personagem emprestado” do livro O Signo dos Quatro (1890), a segunda aventura de Holmes escrita por Conan Doyle. Quem lê as obras estreladas por Sherlock Holmes conhece bem o tipo: um investigador qualquer que acaba humilhado pela cérebro privilegiado de Holmes na resolução de um caso. Só que Athelney não fica se sentindo mal – pelo contrário, ele se torna um obcecado por Sherlock Holmes.

“Jones é um grande fã de Sherlock Holmes e passou a vida toda estudando o seu método de trabalho. Ele leu cada tratado que Holmes escreveu e usa seus métodos dedutivos. Como Holmes, ele pode dizer tudo sobre você com um olhar. Ele desvenda códigos, ele analisa cinzas de cigarros. Mas ele é tão bom quanto Holmes? Esta é a questão da qual sua vida literalmente depende”.

O escritor evita arriscar uma comparação de sua obra com as mais recentes adaptações do detetive, embora diga que adora tanto o Sherlock de Benedict Cumberbatch para a BBC quanto a porradeira versão de Robert Downey Jr. nos filmes de Guy Ritchie. Mas... “Eu, sinceramente, não acho que Moriarty esteja próximo da narrativa de nenhum dos dois. É outra coisa bem diferente”, afirma.

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A lendária cena da luta entre Holmes e Moriarty

Anthony Horowitz é uma espécie de especialista em grandes ícones da cultura pop, aliás. Já escreveu alguns episódios da série de TV inspirada em outro grande detetive, Agatha Christie’s Poirot, do canal britânico ITV. Também são dele duas franquias literárias com foco no chamado público “jovem adulto” – as histórias do jovem espião Alex Rider (que até virou um filme horrendo em 2006) e o flerte com o ocultismo batizado de O Poder dos Cinco (The Gatekeepers). Recentemente, ele chegou até a ser convocado pelos herdeiros de Ian Fleming para escrever o romance Trigger Mortis, ainda inédito no Brasil, a mais recente incursão literária de Bond, James Bond.

Mas sua grande paixão ainda é mesmo Sherlock Holmes. “Fico muito honrado de ter a autorização formal daqueles que representam o legado de Doyle”, diz. “Embora eu os tenha conhecido depois de escrever os livros – na verdade, nós nem sequer nos falamos enquanto eu estava escrevendo”, revela.

Sua preparação foi basicamente ler todo o cânone oficial mais uma vez (“Pela décima vez, provavelmente”), o que inclui quatro romances e mais seis livros com contos variados. Além disso, ele também se dedicou a ler obras sobre a Londres da era vitoriana e diversas biografias de Doyle (“minha favorita é The Man Who Created Sherlock Holmes: The Life and Times of Sir Arthur Conan Doyle, de Andrew Lycett”). Mas Horowitz deixa claro que é um apaixonado pela literatura do século 19, o que “fez com que eu me sentisse muito confortável descrevendo este período”.

O autor reforça ainda que queria que suas histórias fossem o mais próximas do espírito de Doyle quanto fosse possível, mas sem perder sua identidade própria. E já deixa a porta mais do que aberta para um terceiro livro, que escreveria com o maior prazer. “Sei que existem diversos escritores por aí apaixonados por Holmes e tenho certeza que eles escolherão alguém logo. Mas eu amaria poder voltar a este universo e certamente voltaria para outra história no apartamento 221B da Baker Street”.