O homem que mudou (e salvou) a Marvel | Judão

Com Star Wars, James Galton, que morreu nesta segunda-feira (12), aos 92 anos, ajudou a moldar o que a Casa das Ideias é hoje

Já falamos diversas vezes aqui no JUDÃO sobre quando a Marvel pediu concordata nos anos 1990 – escapando da falência enquanto vendia os direitos de adaptação de seus principais heróis para os estúdios de cinema. Essa, porém, não foi a primeira vez que algo assim aconteceu.

No início dos anos 1970, Martin Goodman, fundador da Marvel, vendeu a empresa para o conglomerado Perfect Film & Chemical Corporation, que depois assumiria o nome de Cadence Industries. Ele continuou no comando da empresa até 1972, quando foi substituído por Stan Lee, que rapidamente desistiu do cargo de presidente por se tratar de muita burocracia e pouco trabalho intelectual, que era a dele.

Algum tempo depois, em 1975, um cara chamado James Galton, formado em negócios e que havia trabalhado anteriormente como editor de revistas e vice-presidente executivo de uma editora de livros, foi contratado para ser o presidente da Marvel após os donos encontrarem problemas contábeis na empresa. Eram tempos difíceis: a indústria de quadrinhos andava devagar, vendendo menos numa época que a TV crescia e o cinema voltava a recuperar terreno. Isso fora os desafios internos. “Primeiro, eu tive que parar o vazamento da empresa. Eles estavam perdendo dinheiro num ritmo de US$ 2 milhões por ano – o que era um desastre, um desastre total. Falta total de gestão”, disse o executivo em entrevista para a primeira edição da finada revista Comics Interview, de fevereiro de 1983. “As pessoas estavam fazendo coisas malucas. A primeira coisa que tive que fazer foi botar ordem na organização e parar o sangramento. Isso levou uns seis meses”.

“Eles estavam perdendo dinheiro num ritmo de US$ 2 milhões por ano – o que era um desastre, um desastre total”.

Para o jornalista Sean Howe, que escreveu o livro Marvel Comics – A História Secreta, se Galton não tivesse resolvido todos estes problemas financeiros em dois anos, toda a divisão seria fechada pela Cadence. Ainda bem que deu tudo certo. Ufa.

No papo em 1983, Galton também explicou mais sobre o que ele fazia dentro da companhia. “Basicamente, eu coordeno todas as publicações, vendas, licenciamento e trabalho de filmes que fazemos. Meu trabalho é encontrar oportunidades nas quais possamos usar nossas forças básicas, que são as publicações, e espalhá-las para outras mídias”.

A série do Homem-Aranha dos anos 1970 também foi uma das conquistas da época de Galton

Com o novo comando, a Casa das Ideias passou a ter também um novo foco: ampliar os contatos com Hollywood e licenciar o maior número possível de franquias e títulos que viessem de lá ou que, de alguma forma, fossem marcas com alguma fama fora dos quadrinhos. “Nós pegamos coisas como ROM, que era um brinquedo inanimado. Nós demos a ele uma personalidade. O brinquedo deles não existe mais, mas ROM ainda existe nas HQs da Marvel. O trabalho criativo que fizemos com G.I. Joe foi incrível”.

Jim, como era conhecido, tinha trabalhado no mercado de livros, e foi durante a presidência do cara que duas coisas importantes aconteceram – além, claro, de toda readequação interna para “estancar a sangria”. A primeira delas foi conseguir os direitos de publicação de Star Wars.

De acordo com o livro Como Star Wars Conquistou o Universo, do jornalista Chris Taylor, Charlie Lippincott, responsável pelo marketing do filme, foi atrás de Stan Lee, na época editor da Marvel Comics, e foi sumariamente ignorado. O executivo foi então atrás do subordinado direto de Lee, Roy Thomas, e conseguiu uma reunião.

De acordo com a versão de Lippincott, foi ele quem insistiu em ao menos cinco edições de uma revista de Star Wars, com duas delas saindo antes da estreia do filme – o que pavimentaria a estreia nos cinemas. Stan Lee concordou, mas com uma condição: ele pagaria royalties apenas quando o gibi ultrapassasse 100 mil exemplares por mês.

Mesmo que Galton não estivesse fisicamente presente na negociação, é certo que ele acompanhou tudo de perto. “Eu falo com o Stan Lee quatro ou cinco vezes por semana, às vezes três ou quatro vezes por dia”, contou Jim anos depois. Além disso, a política de boa vizinhança com os coleguinhas do Oeste teve peso positivo no acordo.

O resto é história: Star Wars, a HQ, foi um sucesso enorme de vendas. Para você ter uma ideia, as primeiras edições da publicação foram as primeiras revistas desde os anos 1960 a superar a casa de UM MILHÃO de exemplares. Jim Shooter, que substituiu Thomas no cargo de editor-chefe, depois definiria que “Star Wars salvou a Marvel”.

A revista, obviamente, acabou superando a ideia inicial de cinco edições – por muito. Foram, ao total, 107 até 1986, fora outras minisséries e especiais. A franquia cinematográfica continuou na Casa das Ideias até 1991, quando foi pra Dark Horse.

O segundo ponto que ajudou a Marvel naquela época foi o florescimento do mercado direto, aquele das comic shops. Isso foi a partir do final dos anos 1970, dando vantagens competitivas para a Casa das Ideias (e suas concorrentes), tudo porque não precisavam mais se preocupar com os custos de encalhes e recolhimentos neste mercado. Foi só nos anos 1980 que as comic shops realmente explodiriam, mas já era possível sentir seus benefícios antes disso.

Com Lee, Galton também lançou a Marvel Productions, que produziria diversas animações para a TV na década de 80. “Os esforços do Stan a essa altura são basicamente tentar nos colocar em grandes filmes e em séries live-action de TV, assim com o trabalhar no estúdio com nossos desenhos animados”, explicou o presidente na entrevista de 83. Como resultado, vieram sucessos como Homem-Aranha e Seus Incríveis Amigos, Caverna do Dragão (SIM) e Muppet Babies (SIM!).

Jim Shooter & Jim Dalton, no início dos anos 1980

No começo da década de 1990 empresa era muito diferente. Agora um grupo, chamado Marvel Entertainment Group., já era considerada uma “mini-Disney” em termos intelectuais. Com esse poder, abriu seu capital para investidores na bolsa de valores. Com 40% das suas ações vendidas, a empresa arrecadou US$ 40 milhões em 15 de Julho de 1991 – ou US$ 70 milhões em dinheiro de hoje. Pode parecer pouco para tempos de WhatsApps e LucasFilms, mas, naquela época, 75% dos IPOs geravam menos de U$50 milhões.

Estes negócios nunca sairiam sem Dalton, já que ele foi o responsável pela parte burocrática, do BUSINNES, o que Stan Lee não quis fazer. Foi ele quem deu a estabilidade para quem estes e tantos outros negócios pudessem acontecer.

O presidente deixou a Marvel ainda em 1991. A partir dali, com mais dinheiro do que juízo, a Casa das Ideias entrou numa espiral de más decisões e aquisições (incluindo uma distribuidora própria para o mercado direto e uma empresa de figurinhas), que à levou a já citada crise da segunda metade dos anos 1990.

Ainda bem que, novamente, as coisas se acertaram.