Morsas, podcasters e a última bizarrice de Kevin Smith | Judão

Só da cabeça do chapado Silent Bob poderia sair um filme de terror com uma sinopse tão esquisita, sacaneando ao mesmo tempo as webcelebridades e o Canadá

Não vamos perder tempo te explicando quem diabos é o Kevin Smith – você, leitor do JUDÃO, muito provavelmente deve saber quem é o sujeito. Seja por ter curtido as discussões sobre a Estrela da Morte no indie P&B O Balconista, por ter vontade de fazer a mesma pergunta para Stan Lee sobre a fisiologia do pau do Coisa como o Brodie fez em Barrados no Shopping, por ter adorado toda a controvérsia religiosa e blasfema de Dogma... ou por achar o cara um babaca, o que também é bastante comum.

Depois de O Império (do Besteirol) Contra-Ataca, o ápice da diversão em forma de piadas de peido, ele arriscou uma comédia romântica (Menina dos Olhos), uma comédia policial/de ação (Tiras em Apuros) e até uma questionável continuação, “mais madura”, para O Balconista. Todos com resultados bem medianos, que dividiram os seus fãs, aqueles mesmos que esperavam apenas uma metralhadora de piadas sobre quadrinhos e cultura pop que tanto marcaram a sua filmografia antes disso.

O que pode ser que você talvez NÃO saiba é que, ultimamente, Smith tem voltado sua atenção cinematográfica para os filmes de terror (ou quase isso).

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Seu longa anterior, Seita Mortal, é um thriller sobre um bando de adolescentes se ferrando na mão de fundamentalistas religiosos republicanos (daí o título inglês, Red State, em referência aos “estados vermelhos”, cor dos republicanos nos EUA). O resultado foi bastante irregular apesar da premissa e da alta expectativa, e o grande ponto positivo sem dúvida foi a atuação de Michael Parks (de quem você deve se lembrar como o ranger do Texas Earl McGraw, recorrente nos filmes da dupla Rodriguez/Tarantino como Kill Bill, Um Drink no Inferno e na dobradinha Grindhouse) interpretando o infame pastor Abin Cooper.

Pois bem, eis que em 2014, Smith mais uma vez embarcou no gênero e escreveu/dirigiu somente a comédia de humor negro MAIS RETARDADA E BIZARRA DO ANO PASSADO. Tusk – ainda sem previsão de lançamento no Brasil, quiçá em home video – é daqueles filmes completamente WTF, que moderniza a faceta do “cientista louco”, faz uma crítica social velada às webcelebridades que fazem tudo pela fama (nem que seja aquela piadinha com a desgraça alheia) e ainda dispara uma metralhadora giratória de jocosidades para sacanear o Canadá, um dos maiores passatempos americanos. E tudo com algumas pitadas de sangue escorrendo, claro.

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Cartazes de Tusk

A trama de Tusk nos apresenta aos amigos Wallace Bryton (Justin Long) e Teddy Craft (Haley Joel Osment – sim, o garoto “eu vejo pessoas mortas” de O Sexto Sentido já com seus 26 anos) que possuem um poooooooodcast chamado “Not-See Party” (fale rápido e em voz alta e você verá que a pronúncia é idêntica a “Nazi Party” – o que sempre faz com que eles sejam obrigados a soletrar o nome).

Bryton é um sujeito desprezível, egocêntrico, sem limites para brincadeiras de mau gosto, que trai a namorada numa boa e viaja em busca de histórias surreais para fazer troça em seu programa da Internet. Ao se disparar com um hit do YouTube chamado “Kill Bill Kid”, vídeo caseiro feito por um gordinho canadense que corta a própria perna ao tentar fazer movimentos ninjas com uma espada (claramente inspirado pelo famoso “Star Wars Kid”, também um moleque canadense), ele pega suas malas em direção ao Grande Norte Branco para entrevistar o pivete e ganhar audiência em cima do sensacionalismo.

Chegando no Canadá, eis que ele descobre que o garotinho cometera suicídio por conta da humilhação. Mas não dava pra perder a viagem e sair de lá sem uma boa história, não é mesmo? Eis que o podcaster descobre um bilhete no banheiro de um bar falando sobre um experiente marinheiro que decidira viver em terra firme e oferece dividir a casa com alguém em troca de poder compartilhar todas suas maravilhosas histórias de aventuras. Bingo.

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Michael Parks

Chegando lá, Bryton conhece Howard Howe, papel do mesmo Michael Parks (simplesmente BRILHANTE), que começa a contar suas peculiares histórias, como quando conheceu Ernest Hemingway em um barco durante o Dia D ou quando ficou à deriva em Ponder Rock após um naufrágio e foi salvo de um grande tubarão branco por uma morsa, a quem deu o nome de Sr. Tusk.

Bom, depois de uma série de galhofas ao melhor estilo Kevin Smith, referências à cultura pop e ao hóquei (esporte pelo qual Smith é apaixonado) e diálogos costumeiramente ferinos, a visita em busca da história perfeita se torna uma tragédia inesperada para Bryton. O desprezível sujeitinho tem sonífero colocado em seu chá e acorda na manhã seguinte com uma das pernas amputadas e na posição de refém de Howe, que se mostra um psicopata de marca maior com intenção de colocar em prática sua estranha obsessão: transformá-lo em uma MORSA!!!! Sim, você leu direito. Ele quer transformar o rapaz no mamífero marinho, para ser seu animalzinho de estimação e relembrar os bons tempos em que viveu com Sr.Tusk na pedra no meio do oceano.

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Justin Long, puro desespero

E se você acha que Tusk levaria a medalha de honra do posto de filme mais BIZARRO de 2014 apenas por sugerir essa ideia, eis que Howe, por meio de enxertos, amputações, vivissecção e cirurgias diversas, REALMENTE TRANSFORMA O PERSONAGEM DE JUSTIN LONG EM UMA PORRA DE UMA MORSA HUMANA! Com direito aos seus fêmures serem moldados no formato das grandes presas e costurados na boca. Sério, nada que você já tenha visto no cinema vai te preparar para ver o Bryton-Morsa. Uma mistura esquisita de choque/repulsa com riso me acometeu quando vi o resultado da experiência maligna da primeira vez. Para mim, é de se comparar com os devaneios psicóticos do cientista de A Centopeia Humana. Ver Howe treinando o Homem-Morsa para que ele se comporte exatamente como o animal é impagável!

Seu amigo de podcast, Craft, e sua namorada Ally (Genesis Rodriguez) partem para o Canadá em busca do camarada desaparecido, após ouvir uma mensagem deixada na caixa postal, e lá terão a ajuda de Guy Laponte, ex-inspetor da Surete du Quebec (polícia distrital), que há muito procura um certo serial killer (há!) por aquelas bandas, desde o desaparecimento de um jogador de hóquei local. Guy Laponte é sem dúvida a CEREJA DO BOLO de Tusk. Vivido por um ator TÓPE de Hollywood completamente caracterizado (você é capaz de descobrir quem é ao vê-lo em cena, sem recorrer ao Google?), a sua atuação como o caricato canadense, dono de um sotaque carregado, é daquelas marcantes na Sétima Arte. :D

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Olha quem está à esquerda: o menino que via gente morta

A arte imita a vida

Porém o mais interessante de tudo é a origem transmídia deste filme. A ideia surgiu exatamente de um episódio do poooooooodcast de Smith e seu parceiro Scott Mosier, o SModcast, no qual ambos discutiram um artigo encontrado no Gumtree (uma espécie de site britânico de classificados) sobre um sujeito que oferecia estada na sua casa livre de qualquer pagamento, uma vez que o inquilino concordasse em se vestir como uma morsa (???!!!!).

Tudo partiu dali – e Smith passou quase todo o episódio hipoteticamente construindo o enredo sobre esse causo. Se seu inglês estiver afiado, dá para escutar na íntegra aqui. Ao final do programa, Smith pediu ajuda aos universitários (leia-se “seguidores de seu Twitter”): se eles quisessem que aquela história se transformasse em um filme, deveriam twittar #WalrusYes; caso contrário, #WalrusNo. Adivinhe o resultado? :) Legal que todos aqueles followers que twittaram a hashtag positiva tiveram seus nicks agradecidos nos créditos finais do filme.

Só que a maluquice não para por aí. Acontece que o post na verdade não passou de uma brincadeira de Internet postada por um poeta e “zueiro profissional” de Brighton chamado Chris Parkinson, fã de Smith que esperava de alguma forma chegar até ele. E conseguiu. Além de sua “Pegadinha do Mallandro” ter virado episódio de podcast e um filme, o cara ainda foi contratado como produtor do longa. Então se quiser aparecer na próxima novela da Globo, deixe um anúncio maluco no Primeiramão e quem sabe o Aguinaldo Silva ou o Manoel Carlos não acabam te encontrando...

Tusk é engraçado, de um humor negro calibrado, perverso, estranho, inquietante, cruel, com uma reviravolta incrível, ocasionalmente gore e mostra Smith em sua melhor forma, esbanjando criatividade ao conseguir levar para as telas uma ideia das mais nonsense possíveis – e ainda fazê-la de acordo. Mas por conta do exagero constante e da batelada de autoreferências do universo de Smith, muito provavelmente ele só terá graça de fato para quem acompanha a carreira do dito cujo. Vejamos se é o seu caso. :)

Vale informar que Tusk é o primeiro filme de uma trilogia sobre o Canadá chamada True North Trilogy (apesar de ser nascido e criado em New Jersey, Smith estudou na Vancouver Film School). O segundo já está em andamento: Yoga Hosers, sobre uma dupla de meninas adolescentes (uma delas, vivida pela filha do próprio Smith) que trabalham como balconistas (ah, vá!), são alunas de ioga e terão que combater um mal ancestral que se abate sobre o país. Quer o melhor? Michael Parks está no elenco. Tomara que num papel tão bizarro e fascinante quanto os dois anteriores.