Mr. Mercedes engata a primeira e vamo que vamo | Judão

Episódio piloto da série baseada nos livros de Stephen King apresenta bem os personagens e coloca direitinho as peças no tabuleiro — resta saber o que vai fazer com elas agora…

Eu mal tinha começado a ler Mr. Mercedes, o livro, quando soube que iam fazer Mr. Mercedes, a série. Já tinha devorado, sei lá, uns quatro capítulos da obra de Stephen King e aí descobri que o ótimo Brendan Gleeson tinha sido escalado pro papel do protagonista, o policial aposentado Bill Hodges. Confesso que empolguei. E a cara dele “grudou” na minha imaginação a cada página que passava, toda vez que eu montava as cenas com o Bill na minha cabeça, tanto do primeiro livro quanto dos outros dois, Achados e Perdidos e Último Turno.

Aí, esta semana, finalmente fui assistir ao primeiro episódio da série. E me veio a confirmação de que, sim, os produtores acertaram NA MOSCA ao escolher Gleeson pro papel.

Basicamente, ele é A ALMA de Mr. Mercedes, como deveria ser. Carregando uma mistura de nobreza e tristeza, ele é um ex-oficial idoso e abatido, sem rumo para a própria vida depois que pendurou o distintivo. Ranzinza, divorciado e sem contato com a única filha, ele é amargurado e obcecado pela lembrança de um dos únicos crimes que nunca conseguiu desvendar. O mais interessante aqui é que, diferente do livro, não temos a figura do narrador pra contar o que tá rolando. Então Gleeson tem que te mostrar tudo isso no olhar, no jeito de andar, na forma como ele esmaga as muitas latas de cerveja espalhadas pela casa e como parece curtir, com um toque de tristeza, aquela mesma música daqueles LPs empoeirados.

Do outro lado, está o jovem psicopata Brady Hartsfield, o Mr. Mercedes do título. O cara que roubou um Mercedes e atropelou uma galera que estava esperando a madrugada toda na fila de uma feira de empregos, Estados Unidos pós-crise financeira de 2008 (a sequência de abertura, relembrando como o crime aconteceu, é absolutamente brutal e rivaliza com a descrição detalhada de King na versão impressa). Brady se esconde sob a aparência inocente de um garoto que conserta computadores e ainda complementa a renda com um segundo emprego, dirigindo um caminhão de sorvetes no subúrbio.

Mas aqui também o segredo está nos olhos de Harry Treadaway (Penny Dreadful), que entrou aos 45 do segundo tempo pra substituir o falecido Anton Yelchin mas parece ter encontrado o tom certo para mostrar que este é na verdade um serial killer genial, maquiavélico, que tem tudo planejado, que parece ter controle sobre cada detalhe. Ele ainda quer matar, mesmo dois anos depois. Tem tesão nisso. Mas precisa ser uma ocasião especial, única. Porque ele TAMBÉM tem uma questão não-resolvida com Bill Hodges. E por isso vai lá cutucar a onça com vara curta — ao invés de uma carta, como no livro, ele envia uma mensagem por e-mail com um vídeo provocativo, dizendo “você falhou”, sugerindo que Bill está sendo observado este tempo todo. Uma mensagem que se autodestrói e parece despertar algo que estava meio adormecido no peito do ex-policial.

Para tornar as coisas ainda mais visuais, o símbolo do smiley ganha muito mais força aqui, virando literalmente a assinatura do Mr. Mercedes, incluindo na bolinha de tênis largada propositalmente no quintal de Hodges, pra deixá-lo ainda mais paranoico. Esta foi uma ótima sacada dos roteiristas, assim como o papel que a música ganha, ajudando, de alguma forma, a construir Bill e Brady e estranhamente “conectando” os dois: enquanto a vitrola de Bill manda A Well Respected Man, dos Kinks, o rádio do carro de Brasy bomba Pet Sematary, dos Ramones. As duas letras querem dizer muito sobre estes dois lados da moeda.

Esta é uma história na qual você JÁ SABE quem é o assassino. E a grande graça está justamente aí, no relacionamento esquisito que se “desenvolve” entre os dois. Mr. Mercedes não é, como se poderia esperar usualmente de uma história de Stephen King, uma trama SOBRENATURAL ou de fantasia (prometo que a gente discute o terceiro livro da série em outra ocasião). Mr. Mercedes é essencialmente um suspense policial, se é que dá se chamar assim, com foco basicamente em personagens, no aspecto humano e na DICOTOMIA entre protagonista e antagonista. E o que o piloto faz é colocar todas as peças no tabuleiro, é apresentar cada núcleo com calma, com cuidado, sem correria, sem pressa.

Conhecemos o antigo parceiro de Bill, preocupado com a saúde do amigo e também com as perguntas que ele começa a fazer; o menino Jerome, que corta a grama do aposentado e se torna seu confidente e consultor para assuntos de tecnologia; e também somos apresentados à estranhíssima relação incestuosa de Brady com sua mãe, Deborah (ninguém menos do que Kelly Lynch), numa cena que, completa, dá um certo nojinho (e, bom, acho que era esta a intenção).

Ah, sim, também conhecemos um personagem importantíssimo aqui: a cidade. Que poderia ser QUALQUER pequena cidade americana, duramente afetada pela crise, que a gente vê pelas janelas dos carros, com gente espalhada pelas ruas sem muita esperança, procurando emprego, pedindo dinheiro, vendendo drogas ou pichando as paredes. É um retrato de falta de esperança que serve como ambientação perfeita para esta história.

Em resumo, até o momento, tudo parece feito de maneira inteligente e eficaz. Mas digamos que fica uma pequena pulga atrás da orelha sobre COMO as coisas vão se desenvolver. O melhor exemplo disso, vejam vocês, é a participação de Holland Taylor (a mãe do Charlie em Two and a Half Men) como a vizinha de Bill, Ida Silver, personagem que não existe no livro. Além de importante para a dinâmica com o policial aposentado, ela é basicamente a cristalização do humor na série. E funciona... no começo. Depois, a insistência na piada da vizinha intrometida que quer mandar nudes se torna meio forçada e até meio constrangedora. E, a longo prazo, se continuarem pesando a mão em elementos assim, isso pode ser um sério problema narrativo.

Porque Mr. Mercedes é uma história, antes de tudo, BEM tensa. Um jogo de caça e caçador, o gato correndo atrás do rato sem que a gente saiba muito bem quem é gato ou quem é rato. Tentar colocar um temperinho ligeiramente divertido pra suavizar o clima é até válido, vá lá. Mas se isso se tornar uma espécie de muleta e ganhar mais espaço na história do que devia, pode acabar tirando toda a força que a trama já mostra logo nos minutos iniciais, sem medo de chocar.

Se os produtores evitarem sucumbir à tentação de transformar o núcleo da vizinhança do Bill numa espécie de sitcom dentro de um seriado essencialmente policial, além de fazer do protagonista apenas o estereótipo bobo do “doce mal-humorado com bom coração”, vai ser um avanço e tanto. A conferir a partir do episódio 2.