Maravilha em 2D | Judão
2 de junho de 2017
ESPECIAL

Maravilha em 2D

Um passeio pela história da Mulher-Maravilha nas animações

Tudo começou com os quadrinhos, é claro, mas pra muita gente que, HOJE, consome loucamente o que chamamos de Cultura Pop, a familiaridade com o MYTHOS da Mulher-Maravilha veio da televisão. E, como não estou falando de quem acompanhou Lynda Carter, lá nos anos 70, é óbvio que estou falando dos DESENHOS. :D

Repensada dezenas de vezes por dezenas de artistas diferentes – e acumulando quase um mesmo tanto de vozes, personalidades e visuais distintos nessa brincadeira – Diana Prince é figura recorrente no universo 2D das animações desde antes da sua primeira contraparte LIVE ACTION tomar as telinhas com piruetas. Mais especificamente, desde 1972, no episódio It’s All Greek to Me do desenho The Brady Kids que, POR SUA VEZ, era um spin-off animado da série de TV A Família Sol-Lá-Si-Dó, no qual foi dublada pela atriz Jane Webb.

Nele, Diana é apresentada como assistente de administração do colégio onde estudam os filhotes da família Brady. Salvando o mundo nas horas vagas, ela embarca com as crianças numa viagem pelo TEMPO E ESPAÇO™, direto para a Grécia antiga (cortesia do pássaro mágico que acompanhava a turma do desenho, Marlon), na qual o grupo testemunha, em primeira mão, a gênese dos Jogos Olímpicos. O mote de tudo é responder o que é mais importante: exercitar seu corpo ou sua mente?, e a resposta acaba sendo a própria Mulher-Maravilha, representação do pico de AMBOS os quesitos. :D

Não foi uma introdução muito pomposa da princesa amazona às animações, é verdade, pintar como personagem secundaríssima num episódio aleatório dum spin-off animado. Mas foi o abridor de portas para uma era que, aí sim, marcaria tal qual ferro em brasa a memória de gerações a fio: Os Super-Amigos!

Presente em todas as incarnações do supergrupo, essa versão da Maravilhosa encheu as telinhas de 1973 a 1974, quando a série foi lançada AND cancelada, e de 1977 a 1986, depois que o desenho foi devidamente ressuscitado, que ainda contou com um novo cancelamento (1984) antes do fim definitivo, dois anos depois. Destemida, corajosa e, mais importante, sábia, ela era um pilar de liderança no desenho, com um charme todo especial graças ao seu memorável JATO INVISÍVEL, que popularizou um elemento cheio de LULz POTENTIAL da heroína.

Depois de uma aparição no episódio Superman and Wonder Woman versus the Sorceress of Time do desenho de 1988 do Superman – em que seu lado BRAVA GUERREIRA e os aspectos místicos da sua mitologia são o maior destaque – a contraparte bidimensional da personagem entraria num limbo de mais de 20 anos, sacramentado quando planos da Mattel para subsidiar e produzir a animação Wonder Woman and the Star Riders foram pro espaço.

Wonder Woman and the Star Riders

Idealizada em 1993 com o claro intuito de vender BRINQUEDÍNEOS, a série era tipo um CAPITÃO PLANETA com Diana, as obscuras heroínas Delfim (com poderes de água) e Gelo (duh :D) da DC Comics, e dois produtos duas personagens originais da marca norte-americana, Solara (com poderes de fogo) e Starlily (com poderes de terra). Não bastasse a premissa clichê, todas elas usariam unicórnios alados como transporte, vivendo épicas aventuras em cenários a la Contos de Fadas.

Deu ruim, claro, e foi tudo cancelado deixando apenas algumas artes conceituais, brinquedos-teste e um quadrinho que foi distribuído como brinde de cereal – e que deixa claro que a Mattel não entendia muito bem a Mulher-Maravilha, à época, pra construir toda essa premissa mercantilista escorada num conceito Girl Power BEM FAKE.

Pelo resto dos Anos 90, Diana foi colocada na prateleira por motivos criativos AND legais (já que seus direitos estavam atrelados a produções de séries live action e projetos que não saíram do papel), enquanto Batman e Superman brilharam com suas animações próprias e fundamentaram o que viria a ser conhecido como o Universo Animado da DC – uma sequência de programas direta ou indiretamente produzidos pelo genial Bruce Timm, sob o selo da Warner Bros. Animation, que dividiram um mesmo universo em constantes crossovers e episódios especiais.

Foi só depois do morcegudo ser esgotado enquanto recurso solo (e até do Super-Choque surpreender com um dos desenhos mais amados do início dos anos 2000), que a Warner se ligou que a saída para a renovação estava no coletivo. Assim, em 17 de Novembro de 2001, foi ao ar o episódio piloto de Liga da Justiça, que serviu não só para introduzir a equipe e a formação que tomaria as telinhas pelos próximos anos (com Mulher-Gavião e o John Stewart como Lanterna Verde), como para contar mais uma vez a origem da Maravilhosa. Ou AO MENOS, de seu uniforme. :D

Segurando minha memória afetiva, não vou gritar aqui que esta é a MELHOR VERSÃO ANIMADA DA PERSONAGEM EVER. Não vou. Vou só dizer que, inspirada grandemente na versão Pós-Crise da heroína, ela trabalhou com profundidade imensamente superior às versões anteriores (e, diria também, posteriores) da personagem, a introduzindo como uma princesa-guerreira vinda de uma sociedade extremamente avançada, diferente da nossa, que vai aos poucos conhecendo esse novo mundo e se apaixonando por ele, abrandando seu lado feroz em detrimento de um comportamento crescentemente conciliador e afetuoso para com a humanidade, tal qual a concepção ideal da personagem, EMBAIXADORA DA ONU E TAL, indica, mas sem nunca perder sua força e determinação características.

Tem também as constantes insinuações dum LANCE entre ela e o Batman, algo que eu sempre achei mil vezes mais rico e interessante do que qualquer coisa entre a Mulher-Maravilha e o Superman – conceito de “iguais” chato demais, tal qual muitas outras coisas que vimos nos Novos 52, convenhamos – e que subverte as convenções de gênero que colocam o homem como o responsável pelo APPROACH (já que é Diana quem chega chegando), enquanto ainda conferem uma doçura ao carrancudo CRUZADO DE CAPA. :D

Presente nas telinhas de 2001 a 2004 em Liga da Justiça e, depois, de 2004 a 2006 na megalomaníaca (mas muito divertida, também) Liga da Justiça Sem Limites, essa Mulher-Maravilha teve tempo de sobra pra marcar gente pra caramba que, agora, certamente vai lotar os cinemas pra ver Gal Gadot no papel. MAS DIVAGO!

De lá até 2015, a maravilhosa assumiu um aspecto mais coadjuvante de atuação nas telinhas, com participações especiais em Batman: Os Bravos e Destemidos, Liga da Justiça Jovem, os Curtas da DC Nation e até em gozações na série televisiva da revista Mad e South Park. Seu retorno efetivo foi em DC Super Hero Girls, AGORA SIM uma tentativa acertada da Warner, junto à Mattel, de unirem o ~vendável ao ~curtível. Mas sua principal reaparição foi, mais uma vez, numa série da Liga da Justiça.

Já com 52 episódios, Liga da Justiça Ação chegou às telinhas norte-americanas em Novembro de 2016, com um estilo novo de animação (de maior apelo teen e infantil), mas com os mesmos personagens que tanto amamos. É uma série divertidíssima que, embora não atinja a maturidade das produções do Universo Animado da DC, honra o legado desses desenhos com muita dignidade, enquanto se inspira em alguns pontos bem chave dos Novos 52 (incluindo aí o romance da Diana com Kal-El), o que, sabemos, gera o desdém de uma galera.

Só que não é só em séries que a princesa amazona vem dando o ar da graça com freqüência na última década. Filmes animados ainda são destino de muito investimento por parte do estúdio da Caixa D’Água, e a Mulher-Maravilha é figura freqüente neles desde 2008, com a magnífica homenagem à Era de Ouro dos quadrinhos chamada Liga da Justiça: A Nova Fronteira.

Adaptando a série limitada DC: A Nova Fronteira, a animação é uma superprodução de época que converge diferentes estilos de narrativa cinematográfica (o cinema épico, o noir, de comédia) para recontar a origem da Liga da Justiça, com uma das minhas ITERAÇÕES favoritas da princesa amazona. Dublada por ninguém menos que a eterna Xena, Lucy Lawless, essa versão é uma líder nata, inerentemente admirável, que tem sua grandeza representada na sua estatura superior até à do Superman. Fodaça!

Um ano depois, em Mulher-Maravilha (animação solo), o aspecto violento da heroína foi priorizado, numa trama de deuses de monstros que tomou emprestados muitos elementos das versões de nanquim mais recentes da personagem. Alternando papeis mais proeminentes com outros mais secundários, ela tem sido frequentemente ESCALADA desde então, pintando em mais aventuras da Liga (Justice League: Doom, Flashpoint, Liga da Justiça: Guerra, entre outras) e até na recente Justice League Dark, do John Constantine e amigos.

Fato é que, talvez mais até do que os quadrinhos (sem os quais, nada disso rolaria, façamos justiça), os desenhos animados merecem crédito por manter viva a esperança, a honra e o amor que a Mulher-Maravilha representa na cultura pop.

Principalmente aquela versão do Bruce Timm! <3