Mulher-Maravilha: como uma deusa | Judão

Durante a fase Os Novos 52, a super-heroína ganhou uma nova origem – que serviu de grande inspiração para o primeiro filme da personagem. Mas aí as coisas mudaram um pouquinho…

Retcons, reboots e novas origens são parte inerente dos quadrinhos. Com a Mulher-Maravilha não é diferente, tendo ela recebido uma nova origem na Era de Prata AND na Era de Bronze, com a reinterpretação mais polêmica vindo recentemente — e que serviu justamente de grande inspiração para o filme da personagem.

Tudo começou no final de 2011, quando a DC promoveu um grande reboot de sua cronologia dentro da fase que foi chamada de Os Novos 52. Pra escrever o novo gibi foi chamado o roteirista Brian Azzarello (de 100 Balas), que trabalhava ao lado do artista Cliff Chiang (Human Target) — e a heroína ganhou até um novo uniforme, que trocava o dourado pelo prateado e QUASE teve uma calça, tudo criado por Jim Lee. Ali começava o desafio: como incorporar algo que fosse novo para os velhos leitores e que, ao mesmo tempo, atraísse uma nova geração, um dos grandes focos do reboot?

A partir de Wonder Woman #1 – o QUARTO volume de uma HQ da personagem – Azzarello e Chiang começaram a desenvolver toda uma nova mitologia para Diana. Aos poucos, descobrimos que as Amazonas PROCRIAVAM ao usarem (e matarem) marinheiros que passavam perto da Ilha de Themyscira, onde elas vivem. No entanto, Diana seria perfeita porque não teria nascido de nenhum homem, mas trazida à vida a partir do barro por ninguém menos que Zeus após um pedido da rainha Hipólita. Mas era tudo mentira: o deus teve um AFFAIR com a rainha, que ficou grávida e, dessa forma, Diana herdou grandes poderes do pai AND um enorme ciúme de Hera, que, você sabe, é a esposa de Zeus.

Só que Diana não é filha única: Hipólita ficou grávida de gêmeos, sendo que o segundo era um menino chamado Jason – algo que a garota também nunca ficou sabendo.

Acreditando primeiramente que foi criada a partir do barro, Diana nunca se deu bem com as outras amazonas – ela nem acreditava que era uma verdadeira filha da rainha. Assim, ela acabou conhecendo um misterioso homem, chamado Guerra, que passou a treiná-la desde pequena – sem saber, aquele era seu meio-irmão Ares. De certa forma, um relacionamento estranho surgiu ali: por ser o Deus da Guerra, Ares tem um alinhamento maligno, mas ao mesmo tempo se torna uma figura paternal para a amazona.

Nessa nova fase, a Mulher-Maravilha passa a lidar basicamente com vilões com origens mitológicas, incluindo os próprios deuses como Hades e Afrodite. Ela também inicialmente não voa, recebendo essa capacidade de ninguém menos que Hermes. A grande transformação, no entanto, é quando Diana se vê obrigada a matar Ares, se tornando ela própria a Deusa da Guerra.

E essa foi a verdade sobre a Mulher-Maravilha por cinco anos. Mas estamos falando do mundo dos gibis de super-heróis, no qual nenhuma verdade precisa necessariamente ser absoluta durante muito tempo.

SPOILER! Após a morte do Superman dos Novos 52, com o qual Diana teve um ROMANCE, a heroína ficou deprimida e começou a recordar diferentes memórias sobre a própria vida. Ela foi em busca de respostas, até descobrir que tudo de que se lembrava era mentira. Sim, o que rolou em Os Novos 52 foi jogado FORA.

A Mulher-Maravilha do Rebirth

Na nova fase, publicada a partir do relançamento chamado Rebirth (ou Renascimento, no Brasil), o gibi da personagem passou a ser quinzenal – com uma edição ambientada no presente, enquanto a outra é um grande “Ano Um” da heroína, revelando a sua VERDADEIRA origem. Em parte, a iniciativa veio para acabar com as críticas à versão anterior, que teria deixado a personagem mais BÉLICA.

Como a coisa ficou agora? Um avião com seis homens caiu em Themyscira. Todos morreram, menos um: Steve Trevor. Junto com eles, as amazonas encontram armas de fogo e ficam preocupadas com o avanço de Ares no mundo dos homens. Assim, Hipólita cria um torneio para escolher quem levará Steve para a sua terra natal e ajudará a combater a influência do Deus da Guerra. Diana participa desse torneio – de cara limpa, sem se esconder – e o último teste é justamente desviar balas da arma de fogo com os braceletes.

Diana não só supera o teste, como é escolhida como a campeã das amazonas para enfrentar o mundo dos homens.

Só que tem um detalhe: Diana não tem qualquer poder e nem fala inglês. Quando ela chega nos EUA, com o seu jato invisível, ela é imediatamente presa porque ninguém entende o que está acontecendo. É aí que ela é visitada por animais, que representam os deuses olímpicos: pavão (Hera), pombo (Afrodite), cervo (Artemis), coruja (Atena), rato (Hefesto), tartaruga (Hermes) e a águia (Zeus). Deles, ela recebe os poderes da força, velocidade, resistência, empatia (!) e voo. Lembra até um pouco do que, em IDOS clássicos, rolou com o Shazam, que recebia um poder diferente de cada um dos deuses cujas iniciais formavam a palavra mágica que ele ENTOAVA.

Aparentemente, isso tiraria o interessante caráter de SEMIDEUSA de Diana, já que em teoria ela não seria mais filha de Zeus, embora por outro lado restabeleça uma relação mais harmônica com boa parte dos deuses do Olimpo.

Ainda assim, como você pode perceber, muito pouco disso tudo foi utilizado na versão dos cinemas – até porque este enredo foi sendo estabelecido justamente enquanto o longa-metragem já estava em plena produção. O longa de Patty Jenkins acabou bebendo diretamente da fonte dos Novos 52 para construir a heroína no DCEU, o que pode acabar tornando o processo bastante confuso para alguém que, eventualmente, depois de assistir ao filme, resolva procurar um gibi da personagem.

Tá bom, a gente sabe que as complicadas cronologias de décadas e décadas com dezenas de idas e vindas não tornam as HQs de heróis da Marvel e da DC exatamente o terreno mais receptivo para novos leitores — e, justamente por isso, rolam tantos reboots e relançamentos cá e lá, ainda mais agora, com os cinemas servindo como uma SENHORA porta de entrada. Mas aí fica a questão: você é do tipo de leitor que crucifica a Marvel por “adaptar” o seu universo ao que está acontecendo nas telonas e não ao contrário? Por inventar uma explicação rocambolesca para tornar o Nick Fury negro o atual Nick Fury da cronologia? Pois é. Será que esta era exatamente a hora mais adequada de recomeçar do zero a história da Mulher-Maravilha?

O espírito ainda é o mesmo. Esta ainda é a Princesa Amazona que conhecemos. Resta saber se seria também a Princesa Amazona que uma nova leva de fãs, encantados com Gal Gadot, reconheceria nas páginas dos gibis.