A Mulher-Maravilha que nunca foi | Judão

Antes de virar heroína da Marvel, Adrianne Palicki teve a chance de vestir o icônico uniforme da Princesa Amazona num piloto da NBC que acabou nunca virando série. Cá entre nós? AINDA BEM.

No papel de Bobbi Morse, a Harpia, já tinha ficado claríssimo que Adrianne Palicki tinha todo o potencial para ser super-heroína. O tamanho, a postura, o olhar, tudo nela lembrava claramente uma personagem de HQ incorporada. Mas antes dos produtores de Agents of SHIELD sacarem esta, a atriz esteve do outro lado do muro e incorporou uma heroína da DC — aliás, não apenas UMA heroína, mas A heroína primordial. No caso, a Mulher-Maravilha, em um piloto de série de TV pra NBC que, no fim, acabou não sendo nada além disso.

Na verdade, nem era o primeiro flerte dela com a DC, já que tinham rolado participações tanto em Smallville quanto naquele igualmente horroroso piloto de série do Aquaman que, também graças à força de Odin, jamais virou nada além daqueles 40 minutos iniciais. Quem teve a chance de assistir ao piloto, facilmente encontrável em qualquer lugar desta tal de internet, sabe bem do que estamos falando. :P

Quando o projeto surgiu nos corredores da Warner Bros. Television em 2010, a ideia era claramente tentar replicar, para uma nova geração, o sucesso que a personagem fez lá naquela série clássica da década de 70. Nas mãos do veteraníssimo produtor David E.Kelley (Chicago Hope, The Practice, Ally McBeal, Boston Public, Boston Legal), a parada foi levada para pelo menos CINCO grandes emissoras de TV dos EUA.

“É um gênero muito, muito diferente pra mim, um bicho estranho”, disse Kelley ao Zap2it. “Não vou saber se consegui ou não até terminar, mas tá indo... Se eu não conseguir, não quero enganar a Warner Bros. ou qualquer outra pessoa sobre meu papel nisso. A maneira como eu sempre trabalhei foi escrever um roteiro e descobrir, no processo de escrita, se é um lugar fértil e criativo no qual quero viver. Se eu sentir que tornei os personagens um pouco meus e este é um mundo rico o suficiente para eu revisitar, é um bom sinal para mim de que é uma série que vale a pena fazer”.

Bom, parece que alguém se convenceu de que tinha alguma coisa aí que valia a pena porque, quando tudo parecia perdido, a NBC, que tinha negado, voltou atrás e pediu pra ver o piloto. Ôpa! Só que aí é que o caldo entornou.

Na trama, estamos em Los Angeles. A Mulher-Maravilha patrulha as ruas, se deparando com uma nova droga que dá superforça e durabilidade a quem a usa mas que, depois da utilização contínua, pode levar à morte. A população ama a super-heroína mas parte da imprensa questiona seus métodos, sua atuação como “vigilante” que não responde à polícia, enfim. Mas aí começam as diferenças, porque tal qual Tony Stark, todo mundo sabe que a Mulher-Maravilha é Diana Themyscira (é, isso aí, este é o sobrenome dela), a CEO da Themyscira Industries. Esta é uma empresa cujo objetivo é, além de dar suporte à amazona em seu dia a dia de combate ao crime, cuidar do marketing da Mulher-Maravilha como modelo de comportamento para o mundo.

Nem sei bem se é justo chamá-la de “amazona” aqui, já que em momento algum é mencionado o fato dela ser ou não oriunda da ilha de Themyscira ou qualquer conexão mística/mitológica. Se eles tavam guardando a revelação de onde vieram os poderes de Diana para algum momento lá pelo meio da série, não sabemos.

A protagonista ainda tinha uma TERCEIRA identidade, esta sim secreta: Diana Prince. Um alter-ego de óculos (YEP) que ela criou para poder curtir um pouco de normalidade em um apartamento de subúrbio, vendo comédias românticas ao lado do seu gato lembrando do dia em que ela terminou com Steve Trevor, o grande amor de sua vida. Aquele mesmo que, no fim do piloto, ressurge como o grande gancho romântico, agora como um representante do Departamento de Justiça que vai trabalhar junto com a Themyscira Industries. Mas (PAM-PAM-PAAAAAM!), ele casou com outra mulher. Sobem os créditos.

O problema aqui não é, nem de longe, Adrianne Palicki como Mulher-Maravilha. Apesar das duas versões do uniforme que ela usa — no começo, numa pegada de uma recente versão com calça e, mais tarde, no último ato, uma reinterpretação do biquíni clássico dos gibis antigos e da própria Lynda Carter — serem um tanto questionáveis do ponto de vista estético, não chegam a incomodar porque ela sabe mostrar a que veio e, nas cenas de ação, chega a convencer. Tampouco é o laço da verdade que, apesar de chamado assim pela imprensa, é usado apenas para amarrar as pessoas e nada mais. Ou o jato que nada tem de invisível (mas cujos efeitos estão claramente não-finalizados, então vamos dar um desconto aqui). Ou ainda o cabelo nas cenas como super-heroína que, bom, parece MESMO uma peruca (nos outros momentos, em que ela está nitidamente com o cabelo natural, a diferença é nítida).

O lance é o roteiro, que tira tudo de mais interessante em torno da personagem original e a transforma numa mistura esquisita de Homem de Ferro e Superman, genérica de tudo, sem graça, sem apelo. Poderia ser a Mulher-Maravilha ou qualquer outra super garota, como uma Ultra Woman, por exemplo. Nada mudaria. Ou seja... qual seria mesmo o motivo desta caralha de série existir?

No final, quando ela preenche o seu perfil no Facebook como “solteira” e lista o nome do gato como seu único amigo, cara, um imenso sinal vermelho se acende na tela, do tipo “não, gente, não façam isso, não, por favor”. Este é daqueles momentos na cultura pop em que a gente pensa não algo como “que pena”, mas sim um “UFA, AINDA BEM”.

Eu tive a chance de interpretar a Mulher-Maravilha, que foi uma das coisas mais legais da minha vida. Me pagaram para usar aquele uniforme, quantas pessoas podem dizer isso?

“Eu tive a chance de interpretar a Mulher-Maravilha, que foi uma das coisas mais legais da minha vida”, disse Palicki anos mais tarde, em entrevista para o IGN. “Me pagaram para usar aquele uniforme, quantas pessoas podem dizer isso?”, brinca ele, dizendo que, no entanto, tinha esperança de que a série fosse acontecer de fato. “Eu fiquei bem triste quando acabou não rolando, por mais que todo mundo esperasse que fosse acontecer. Mas, em retrospecto, foi bom. Porque seria uma coisa muito difícil de filmar”, explica, relembrando as muitas cenas de ação que teria que rodar, já que ela costuma fazer tudo sem dublês. “Eu adoro! Talvez por isso eu receba tantos roteiros para histórias de ação”.

Mas, pra finalizar, rolou um “estou esperando um convite pra ser a Supergirl”, lá em 2013, antes de Melissa Benoist acontecer e ENVERGAR a capa vermelha. Tudo bem. Rolou a Harpia, que foi MUITO legal. E, cá entre nós, acho que ela tá pronta para ser uma ótima super-heroína em qualquer um destes múltiplos projetos vindos dos gibis que tão rolando em Hollywood. Precisamos de cada vez mais HEROÍNAS. Mas, por favor, me façam um roteiro que presta, né. Senão, não tem Princesa Amazona que aguente.