Sim, A Múmia ainda é um pipocão de primeira! | Judão

A história daquela saga da Múmia iniciada em 1999 que, com os anos, putaquepariu… :D

Quase 20 anos antes de Tom Cruise correr lindamente de uma Gazelle enfaixada por Londres, ou receber direcionamentos dum Russel Crowe doidão, a Universal Pictures apostou (e lucrou) com OUTRO resgate ao mito da Múmia estabelecido pelo clássico de 1932. Sim, ESSE MESMO mesmo que você tá pensando. ;D

Trazendo grandes nomes como Brendan Fraser, Rachel Weisz e, depois, até The Rock (em seu primeiro trampo em Hollywood), a saga iniciada em 1999 por A Múmia rendeu ao mundo dois divertidíssimos filmes que são um misto de horror clássico, ação NOVENTISTA e comédia, um terceiro bem questionável e até um desenho animado bacanudo. Todos elementos de um importantíssimo tijolo na pirâmide da nossa cultura pop moderna, convenhamos.

Ainda era 1992, quando os produtores James Jacks e Sam Daniels deram à luz o que evoluiria aos filmes que conhecemos, decidindo que era hora de atualizar a múmia de Boris Karloff para novas gerações. Sob a exigência da Universal que mantivessem todos os seus projetos sob um teto de custo de US$ 10 milhões, os caras começaram a explorar idéias que contemplassem essa pindaíba e, se desse, ainda pudessem render bons filmes.

A primeira veio da mente degenerada do lendário cineasta britânico Clive Barker, o cara por trás da saga Hellraiser. Considerada por Jacks uma abordagem “sombria, sexual e repleta de misticismo”, essa trama veria um obsessivo funcionário dum museu de arte contemporânea protagonizar repetidos esforços para reanimar múmias expostas no local, mas logo foi abandonada, à medida que a Universal e o próprio Barker broxaram nas negociações.

Menos intensa, mas não menos interessante, a segunda opção analisada pelos produtores foi contratar Joe Dante, diretor dos brilhantes Gremlins e o subestimado Pequenos Guerreiros. Muito mais intimista que a de Barker, sua ideia teria Daniel Day Lewis (!!!) como uma triste e velha Múmia, presa nos tempos atuais, buscando sua amada pela eternidade. Acabou dispensada por custar US$ 15 milhões.

A saída foi tentar mesclar gêneros com um expoente crescente das ultimas décadas: os filmes de zumbi. Para isso, o pai de TUDO, George A. Romero, foi chamado, e logo começou a trabalhar em um primeiro draft. Sua Múmia seria um ex-general de Faraó, acidentalmente acordado por uma arqueóloga, que passaria a tentar adaptar-se à era atual. Mais homem que monstro, ele acabaria acordando um de seus fieis aliados que, aí sim, adotaria uma postura mais monstruosa, assassinando de forma serial todos aqueles que guardassem relíquias do Egito Antigo.

Ah, claro, também rolaria uma história de amor, mas não central o bastante pra agradar a Universal, que dispensou a ideia por considerá-la “violenta demais” AND por tretas contratuais do Romero com outros projetos. Foi só depois de tudo dar ruim, também, com Mick Harris e Wes Craven, que Stephen Sommers veio batendo na porta do estúdio com o que provaria ser uma galinha dos ovos de ouro. Fã devoto do filme de 1932 com Karloff, ele já tinha bem claro na sua mente o que fazer.

“No filme original, Boris Karloff é a múmia apenas em uma cena, quando ele acorda. Para o resto do filme, ele é Boris Karloff. Mas as pessoas têm aquela imagem da múmia com bandagens, o tempo todo, que era exatamente o que eu não queria para esse filme”, explica Sommers, no making of de A Múmia. O que ele queria era algo mais próximo de Indiana Jones, mas ainda preservando elementos-chave da mitologia apresentada no filme original. “Era algo assustador. O Frankenstein era trágico, solitário, e o Drácula era sexy, legal. O único filme daquela época que realmente me assustou foi A Múmia”, ele adiciona.

Juntou-se a fome à vontade de comer, já que PARALELAMENTE à abordagem do cineasta na Universal, o estúdio vinha mal das pernas após o fracasso de Babe na Cidade Grande nas bilheterias. Com uma direção criativa nova, a ideia era justamente investir pesado nas propriedades de sucesso da década de 30 (e você pensando que Dark Universe é novidade?), o que garantiu um boost daquele teto orçamentário de US$10 milhões pra, olha só, US$ 80 GRANDES MILHOS. :D

Tudo certo com a grana, começou a corrida para a montagem do elenco – e não é que um tal Tom Cruise foi considerado para o papel de protagonista? Junto de Brad Pitt, Matt Damon, Bem Affleck e OUTREM, o baixinho corredor foi preterido por Brendan Fraser graças ao suce$$o de George, o Rei da Floresta. Rachel Weisz foi recrutada como o principal interesse amorouso do herói (AND do vilão) e o britânico Arnold Vosloo, de ascendência afrikaner, assumiu as faixas de Karloff. Pra criançada interessada na aventura, John Hannah assumiu o papel de cunhadão besta, o alívio cômico-mor dos filmes, dali pra frente.

A trama era simples, mas polvilhada de momentos de LULz tosquíssimos AND brilhantismo de terror. Mais de 3 mil anos depois de ser enterrado vivo com escaravelhos comedores de carne, o sumo-sacerdote Imhotep foi despertado de seu sono por Fraser e Weisz, embarcando numa jornada sanguinária (mas sem sangue visível, porque é PG-13) para reviver sua amada. Resta ao casal culpado de seu retorno encontrar uma forma de pará-lo.

Pense em Piratas do Caribe, antes de Piratas do Caribe. A pegada de A Múmia era claramente essa, das cenas toscamente atuadas de bebedeiras, aos diálogos bregas, até à ideia que gatinhos deveriam assustar uma múmia como boletos vencidos assustam adultos. Em compensação, tanto o novo e grotesco design da criatura, quanto elementos como os tais escaravelhos carnívoros (que caminhavam sob a pele), conseguiram marcar como elementos pra lá de assustadores.

Falando no visual da Múmia, aliás, o trampo, fruto dos sempre surpreendentes profissionais da Industrial Light & Magic, é incrivelmente competente mesmo quase duas décadas depois de ter vindo ao mundo.

Embora tenha dividido os críticos entre aqueles que se renderam à diversão inegável do filme e aqueles que exigiam coesão de roteiro (algo que, realmente, num tem ali), o filme agradou MASSIVAMENTE o público, fazendo o montante respeitabilíssimo (em especial para os padrões de então) de US$ 445 milhões em bilheterias.

Resultado? Dois anos depois chegava aos cinemas O Retorno da Múmia, um festival de efeitos especiais e cenas de ação elaboradíssimas que trazia os personagens de Fraser e Weisz mais de uma década mais velhos – e com um filho – enfrentando, mais uma vez, a fúria de Imhotep. Bem mais forma que conteúdo, esse foi um filme que enriqueceu o universo do seu antecessor, mas emburreceu ainda mais uma fórmula que, honestamente, nunca foi inteligente. Divertido? Sim. Mas nada FRESCO. Pra ficar numa comparação atual, é um reflexo distorcido do que fez James Gunn em Guardiões da Galáxia Vol. 2, aumentando tudo aquilo que deu certo no primeiro filme, mas sempre em detrimento dos personagens.

Deu grana? Pra caramba! Um total de US$ 433 milhões com um orçamento de US$ 98 millones. E muito fã ainda vai defendê-lo com tesão, até pelo fato de levá-lo de volta ao cativante universo do primeiro filme. Agora, sendo bem sincero, o grande trunfo de O Retorno da Múmia foi trazer ao mundo do mainstream, ainda cru e BEM RUIM, aquele que seria, hoje, um dos maiores nomes da indústria de entretenimento mundial: Dwayne “The Rock” Johnson. Incumbido de viver o Escorpião Rei, talvez o maior guerreiro que o Egito já viu, por alguns minutos do filme, a popularidade do personagem (e do Campeão do Povo) acabou sendo tanta que os produtores acharam por bem dar a ele seu primeiro filme, O Escorpião Rei. O resto é história. ;)

Agora, se Dwayne Johnson é HORS CONCOURS nesse quesito, meu fruto favorito do segundo filme da trilogia da Múmia (ok, é também o ÚNICO) é A Múmia: A Série Animada. Lançado ao final de 2001, pra capitalizar no lançamento do filme, esse desenho explorava mais a fundo a dinâmica familiar dos personagens do filme de 1999 e 2001, enquanto dava espaço para Imhotep mostrar seus poderes de formas totalmente sem limites. Era a EPÍTOME do conceito “fun above all” que os filmes tinham. Podia não ser exatamente BOM, mas eu curtia AND durou o bastante para não cansar: apenas duas temporadas, sendo cancelada em 2003.

A essa altura, os papos já eram frequentes sobre um terceiro filme poder ou não rolar. Enquanto Fraser e Weisz pareciam abertos à ideia, Sommers passou a desconversar com mais freqüência. Só em 2005 boas notícias rolaram para os fãs: havia um novo roteiro – uma história envolvendo um imperador chinês e seu exército de soldados amaldiçoados – e a esperança de um novo filme, centrado no casal do original e em seu filho, agora adulto.

Com Sommers confirmadamente fora da direção desse terceiro longa em 2007 (Rob Cohen assumiu a brincadeira), um baque tornou-se dois quando Weisz decidiu ficar de fora também, citando divergências em relação ao roteiro e sua então recente gravidez. Entra Maria Bello – e uma versão repaginada da protagonista feminina da franquia – Jet Li e Michelle Yeoh. Temos um desastre chamado A Múmia: Tumba do Imperador Dragão.

Lançado em 2008, sete anos depois da já fraca sequência pro filme de 1999, essa tentativa de fazer grana fantasiada de projeto criativo larga mão dos principais charmes de seus antecessores pra tentar emplacar uma nova e forçada história, em que os mesmos erros de aventuras anteriores são repetidos e as mesmas cenas de ação são revividas. Bello não ajuda simplesmente por estar lá, de repente, num papel tão vinculado à Weisz. E Fraser, bem, já está uns anos a frente daquilo que foi seu auge.

Massacrado sem dó pela crítica e lembrado com pouquíssimo carinho pelos fãs, o filme foi de longe o menos rentável e mais caro da franquia, custando US$ 125 milhões e rendendo pouquíssimo mais de US$ 400 milhões. Um prego desnecessário num sarcófago que já parecia muito bem fechado. Até rolou um inesperado otimismo, com Maria Bello afirmando categoricamente que rolariam novos filmes (e com um gancho pra sequência ao final da história de Tumba), mas GRAÇAS A OSIRIS, não rolou.

Também como aprendemos com Piratas do Caribe, algumas histórias divertidas, desmioladas, mas dotadas de imenso carisma e coração, não nasceram para serem esticadas e levadas para além de sua zona de conforto. Ao menos, não de forma tão desmiolada quanto inicialmente.

A Múmia é um filme divertidíssimo que, hoje, se mostra talvez ainda melhor que quando pintou no cinema, apenas como mais uma grande aventura de ação. Transita bem entre gêneros e agrada diferentes idades, como mostra sua base de fãs, que atravessa gerações igualmente marcadas por uma história que gente chata chamaria de idiota sem se prestar a acompanhar. Uma pena que o que veio depois só fez piorar, salvo um tal de Van Helsing, não necessariamente da mesma saga, mas com uma ligação específica da qual hei de logo falar por aqui.

E eu to olhando pra você, Tom Cruise. ;)