Músicas pra conhecer The Who | Judão

Ao lado da Lady Gaga (que infelizmente não veio), uma das atrações mais importantes e icônicas do Rock in Rio é também uma das mais importantes e icônicas a passar pelos nossos palcos EVER — pela primeiríssima vez em seus mais de 50 anos de carreira

Um grande amigo, daqueles do coração mesmo, sempre tem uma resposta na ponta da língua quando questionado a respeito da sua preferência na eterna disputa que os fãs de rock amam discutir na mesa de boteco — afinal, cê prefere Beatles ou Stones? E lá vem ele, sem pensar duas vezes, metralhando com uma terceira banda britânica: The Who. A terceira via. O grupo de Londres que, conhecido por suas performances incendiárias na era de ouro, destruindo guitarras e baterias em pleno palco, se tornou um dos mais influentes da história do rock mas que, apesar do prestígio, jamais beirou o mainstream tão absoluto dos outros dois combos ingleses. E vamos combinar que merecia muito.

Nenhum fã de rock que se preza, aliás, é capaz de negar que o The Who merecia ser daquelas bandas monumentais, gigantescas, que até hoje lotam estádios como Jagger e Richards ainda conseguem competentemente. Qualidade pra isso jamais faltou.

The Who que, inexplicavelmente, nunca tinha feito um show sequer em terras brasileiras em suas mais de cinco décadas de atividade — agora pra valer, exatos 10 anos depois de uma turnê ter sido anunciada, ter deixado toda uma geração de fãs em polvorosa e, antes mesmo dos ingressos começarem a ser vendidos, ser enfim cancelada. Em 2013, o guitarrista Pete Townshend, único membro original remanescente ao lado do vocalista Roger Daltrey, já tinha dado a letra em entrevista ao jornal O Globo. “Gosto dos barcos, dos aviões e das mulheres do Brasil”, afirmou. “E iremos aí. E logo. É o destino. Música brasileira? Adoro, claro. A música de violão e o pop brasileiros. Eles são complexos, rítmicos, românticos, mas também apaixonados e profundos. A música brasileira é a melhor expressão que posso imaginar do temperamento latino do português”.

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Tamos falando de um quarteto com mais de 100 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Os caras que, com Tommy (1969), praticamente inauguraram o conceito de rock opera. Cujas obras conceituais e complexas viraram filmes (Tommy, de 1975, e Quadrophenia, de 1979). Que foram listados como influência tanto por caras como Pink Floyd quanto para o surgimento de sons mais pesados como o hard rock, o heavy metal e o punk. Aliás, MC5, Stooges, Ramones, Sex Pistols, Clash, toda esta turma citava claramente o Who como influência pro seu trabalho, assim como a galera do britpop tipo Blur e Oasis. Tudo isso fazendo um tal “power pop”, como o próprio Townshend tentou definir, numa pegada Small Faces. Mas que era muito mais, isso sim, reflexo de suas raízes mods — aquele movimento britânico de jovens dos anos 60 que usam terninhos, andavam de scooters e ouviam soul, ska e R&B.

É claro que este The Who que continua em atividade, agora com o apoio do batera Zak Starkey (filho de um certo Ringo Starr, doce ironia), não é o mesmo animal selvagem da época em que contava com os falecidos John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria) — este último, talvez uma das representações mais furiosas do que era o rock n’ roll, para o bem e para o mal. Mas, ainda assim, é uma turnê das mais respeitáveis, prometida para ser a última, aquela de despedida, sabe? Seu mais recente disco de inéditas, Endless Wire, tem já 11 anos de idade. Portanto, espere aí nada menos do que uma metralhadora de clássicos enfileirados tanto no Rock in Rio (sábado, dia 23) quanto no show de SP, que acontece na quinta, dia 21.

Então, a gente listou abaixo algumas músicas imperdíveis dos caras, que muito possivelmente estarão no setlist e nos quais você, obviamente, deve prestar toda a atenção do mundo. Porque nelas mora uma pedação crucial da história do rock. Que a aula (deles, não nossa) comece.

I Can’t Explain

Escrita por Townshend quando tinha seus 18 anos, saiu no lado A do primeiro single da banda — quer dizer, o primeiro com o nome The Who, quando eles enfim abandonaram a ALCUNHA de The High Numbers. Há quem compare diretamente com All Day and All of the Night, sucesso dos Kinks. E faz sentido, até, porque o Who nunca escondeu que os Kinks tiveram influência sobre eles.

Who Are You

Esta obviamente você conhece. Porra, até quem NÃO assistia ao CSI clássico, o de Las Vegas, sabe que esta era a música da abertura. Canção-título do álbum lançado em 1978, foi um sucesso imediato nos EUA, um de seus maiores hit por lá — e também um dos últimos antes da morte de Moon, em setembro de 1978. A letra referencia um “incidente” alcoólico que rolou com o guitarrista, tornando amigo de vez de Steve Jones e Paul Cook, dos Sex Pistols.

The Kids Are Alright

Favor não confundir com o nome da música do Offspring, que é The Kids Aren’t Alright. Espécie de hino da juventude mod, sobre jovens sem futuro em busca do que fazer com a vida, está no disco My Generation, de 1965. Se tornou tão representativa para o seu público que virou também o título do documentário sobre a banda, lançado lá em 1979.

I Can See for Miles

Certa vez, Paul McCartney leu um crítico numa revista dizendo que esta era a canção “mais pesada” que já tinha ouvido (lembre-se, era o final dos anos 60). Sentiu-se então desafiado a escrever algo mais forte e mais pesado. O resultado foi Helter Skelter, dos Beatles. Sacou a importância da bagaça? ;)

My Generation

Talvez um dos refrões mais contagiantes e grudentos da história, do tipo que cê já sai repetindo da segunda vez que ouve. E talvez a canção que melhor represente não apenas o próprio The Who, mas também as angústias adolescentes da época, servindo como trilha definitiva para toda a contracultura dos mods, tentando encontrar seu lugar na sociedade. “I hope I die before I get old”, diz a letra, numa alusão que obviamente permeou tudo que se chamaria punk nos anos a seguir.

Behind Blue Eyes

Você bem deve lembrar da versão que o Limp Bizkit fez pra trilha sonora daquele filme merda com a Halle Berry (foda-se qual é, na real). E olha que a reinterpretação nem é tão ruim assim. Mas por mais que se esforce, o Fred Durst não consegue dar a carga de profundidade emocional que o Daltrey entrega aqui. Composta depois de um show do Who em Denver, em 1970, ela é resultado da tentação que Townshend “sofreu” graças a uma groupie mas acabou deixando passar e foi direto pro quarto do hotel, sozinho, já como resultado dos ensinamentos do mestre espiritual indiano Meher Baba (em resumo: “pega mais leve, camarada”). A letra que começaria a rabiscar, quase como uma reza, daria origem à faixa.

Pinball Wizard

Single e canção mais representativa de Tommy, é contada sob o ponto de vista de um campeão de pinball, chamado de Local Lad, impressionado com as habilidades do personagem principal da história, Tommy Walker, que apesar de cego e surdo para o mundo, consegue sentir as vibrações da máquina bem o suficiente para tornar-se um expert no joguinho. ;)

Baba O’Riley

Canção de abertura de Who’s Next, de 1971, o disco que se tornou uma variação do megalomaníaco projeto Lifehouse, que seria uma continuação meio ficção científica de Tommy, abortado no meio do caminho. E também canção de abertura de CSI: NY, né. O título da música, uma “homenagem” à desolação dos jovens chapados de LSD em Woodstock, é referência a duas influências fortíssimas para Townshend na época: Meher Baba e Terry Riley, músico americano minimalista.

Won’t Get Fooled Again

Outra que veio do Who’s Next, outra associada com uma série da franquia CSI, só que a de Miami. Seria a canção de encerramento de Lifehouse, uma crítica às falsas revoluções, com o personagem principal morrendo e o restante dos personagens desaparecendo, deixando governo e exército para trás, em pé de guerra. Para Townshend, uma revolução é não apenas inesperada, mas incontrolável — e é assim que tem que ser para causar mudanças efetivas. Filosófico, não? ;)