Qual é a do Mysterio em Homem-Aranha: Longe de Casa? | JUDAO.com.br

Jake Gyllenhaal interpreta o tradicional antagonista do Cabeça de Teia. Isso a gente já sabia. Mas diz que vai lutar AO LADO do Teioso. Isso a gente já não imaginava. MAS…

Quando o Jake Gyllenhaal foi contratado para integrar o elenco de Homem-Aranha: Longe de Casa, a continuação direta para De Volta ao Lar, todo mundo já sabia que ele interpretaria o Mysterio, vilão do Escalador de Paredes que até então não tinha dado as caras nos cinemas e é dos queridinhos dos leitores das HQs (incluindo este que vos escreve).

Logo, quando ele apareceu ao lado do Tom Holland na comic con de São Paulo e confirmou pela primeira vez publicamente que viveria o personagem, não foi lá muita surpresa. O que a gente NÃO esperava é que, numa entrevista DEPOIS do painel da Sony, ele tenha, ao lado de Holland e de Jacob Batalon (Ned) dado algumas informações adicionais sobre a trama que indicam uma participação diferente de Quentin Beck na história. “Mysterio é um cara bonzinho neste filme. Ele e o Homem-Aranha se juntam para resolver tudo, para enfrentar estes monstros chamados Elementais”, disse. Hein?

“Mysterio é alguém que sabe muito sobre eles e quer se certificar que o mundo esteja seguro contra estes caras. Aí o Nick Fury pede a ajuda dele porque é o único cara que os entende de alguma forma. E ele se junta ao nosso Amigão da Vizinhança e, infelizmente, tem que fazer com que ele seja mais do que o Amigão da Vizinhança”.

Nesta terça (15) saiu o que parece ser o trailer exibido lá na comic con, que ENFIM mostra o Mysterio, primeiro sem e depois com o aquário na cabeça, mas lutando contra uns monstrões gigantes e pans, bem bancando o herói, o que parece confirmar este papo todo do Gyllenhaal.

Dá o play e a gente já conversa.

Vamos começar pelos Elementais — sim, eles REALMENTE existem no Universo Marvel dos gibis, ainda que estejamos falando de personagens J. Surgidos originalmente na edição 8 da revista Supernatural Thrillers, título de horror no qual a Casa das Ideias apostou na década de 70, estes quatro humanoides extradimensionais são criações de Tony Isabella (criador do Raio Negro, na DC Comics) e Val Mayerik (cocriador de Howard, o Pato).

Como os nomes já indicam, tamos falando de Hydron, senhor das águas; Magnum, o mestre da terra; Hellfire, o comandante do fogo; e Zephyr, a dominadora dos ventos. Os quatro teriam sido trazidos de seu próprio universo milênios atrás, chegando na Terra antes mesmo que a Atlântida fosse construída. Por aqui, com seus poderes, criaram um reino que não teve oposição até que resolveram estender seus domínios além do lugar que um dia seria conhecido como Egito.

Lá, um jovem guerreiro de nome Dann se uniu a um mago conhecido como Garret. Juntos, eles fundiram suas almas à magias arcanas muito antigas e criaram o artefato conhecido como Escaravelho de Rubi — no caso, um item mágico que minou os poderes dos Elementais e os baniu para outro universo.

Corta então para os tempos modernos, quando eles de alguma forma se libertaram de sua prisão e convocaram o herói N’Kantu, a Múmia Viva, para ajudá-los na busca pelo Escaravelho de Rubi, que seria vital para que eles tomassem o controle do mundo novamente, bwahahahahaha, aquela coisa toda. A treta acabou envolvendo tanto o terrível vilão Ahmet Abdol, aka Faraó Vivo, aka Monolito Vivo, que estava usando o artefato para tentar recuperar seus poderes mutantes perdidos, quanto o egiptólogo Doutor Alexi Skarab, descendente direto de Nephrus, sacerdote do faraó Aram-Set, além de uma cidade do Cairo mantida inteira prisioneira sob um campo de força. No fim, Zephyr acabou traindo os antigos parceiros e ajudou a derrotá-los, fazendo-os serem banidos do planeta uma segunda vez.

A trinca ainda apareceria um pouco mais tarde para enfrentar a Miss Marvel (na época, ainda Carol Danvers, com seu codinome e uniforme antigos, pré-Capitã Marvel), mas você já imagina que tiveram suas bundas devidamente chutadas mais uma vez.

Não te parece, portanto, meio estranho que JUSTAMENTE estes caras sejam os vilões do filme do Homem-Aranha? Não soa meio aleatório demais? Claro que sim. Mas aí tem o Mysterio nesta conversa toda. E se a gente for buscar a primeira aparição do personagem, assim, da encarnação original do sujeito — já que, além de Quentin Beck, outras pessoas, como o aspirante a dublê Daniel Berkhart e o mutante Francis Klum, fizeram uso da identidade — tudo parece BEM mais claro.

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A data da primeira aparição OFICIAL do Mysterio é Junho de 1964, na revista The Amazing Spider-Man #13, cortesia da dupla Stan Lee e Steve Ditko. Nesta história, somos apresentados a Quentin Beck, um especialista em efeitos especiais e dublê que trabalha para um estúdio de cinema em Hollywood, aspirando ser o próximo grande nome na sua área. Mas ele acaba, como muitos, se deparando com a falta de chances para dar o pulo rumo aos blockbusters. O sujeito até tenta virar ator, mas simplesmente não consegue. E aí percebe que sua especialidade no ramo das ilusões pode fazer com que ele consiga tirar uma grana em OUTRO ramo...

Usando uma série de truques de luz, som, fumaça (incluindo gases que confundem o Sentido de Aranha de Peter e que também dissolvem as suas teias) e diversos mecatrônicos, ele rouba o Midtown Museum e faz parecer que foi o Homem-Aranha o responsável pelo delito. Mas, na real, nem era aí que a gente queria chegar. Porque, em termos PRÁTICOS, ainda que não tenha sido diretamente identificado, Beck já tinha aparecido no gibi do Aranha — em The Amazing Spider-Man #2, que saiu mais de um ano antes.

Na segunda história do gibi, The Uncanny Threat of the Terrible Tinkerer!, temos a primeira aparição do Consertador, que teria se aliado a um grupo de alienígenas, coisa e tal — e o final, com uma máscara no formato do rosto do vilão, dá a entender que ele também era um ET. Só que, muito tempo depois (mais especificamente em Peter Parker, The Spectacular Spider-Man #51, de 1981), rolou um daqueles clássicos retcons e descobriu-se que os tais aliens na verdade eram um bando de gente fantasiada, com a ajuda de uma pancada de efeitos visuais práticos... e que Beck era o líder da galera, devidamente contratado pelo Consertador para roubar segredos militares e industriais.

Se a gente for, inclusive, levar em consideração o plot da edição que o próprio Jake Gyllenhall está segurando em mãos neste post no Instagram, no caso The Amazing Spider-Man #311, de 1989, aí dá pra amarrar direitinho: afinal, estamos falando de uma trama na qual Quentin Beck orquestra uma armação para que o Homem-Aranha se sinta culpado pela morte de um inocente...

Sacou onde a gente queria chegar?

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I just realized I’m not playing Spider-Man.

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Muito provavelmente, os Elementais são, tal qual aconteceu com os alienígenas lá na década de 60, uma armação do Mysterio. Porque, afinal, depois de Guerra Infinita, já vimos aliens demais para nos surpreendermos por aqui neste planetinha azul, não é mesmo? Apela pra quatro seres místicos e vambora.

Aqui, talvez ele esteja tentando se passar por herói para, de alguma forma, acabar com o Homem-Aranha, seja fazendo-o se sentir menor e sem habilidade/função, seja manipulando-o para que cometa algum erro pelo que possa ser posteriormente acusado. Tudo isso faria sentido — inclusive, aliás, que o próprio Nick Fury chegando pra convocar o nosso cavaleiro das teias seja igualmente uma farsa, um robô/MVA (modelo de vida artificial) desenvolvido só pra enganar o aracnídeo e fazê-lo entrar na roda.

Aliás, retomando aqui as origens do Mysterio nos quadrinhos, vocês se lembram de quem dava uma força pro Abutre em Homem-Aranha: De Volta ao Lar? Não, não apenas uma versão do Shocker, o mais legal dos vilões-merda da galeria do Cabeça de Teia. Mas também o próprio Phineas Mason, o Consertador.

Talvez o filme crie uma nova versão da mutreta entre os dois, talvez como uma vingança pelo que aconteceu com Adrian Toomes no filme anterior? Lembremos que ele saiu de fininho quando deu merda na tentativa de sequestrar o avião do Stark, repleto de traquitanas dos Vingadores...

O mais curioso de tudo isso? Além desta ser uma forma de justificar o fato de que o Jake Gyllenhall, até o momento, não apareceu com aquela bola de vidro na cabeça (por que diabos ele precisa se esconder, já que ele é um aspirante a herói? Junte a isso o fato de que é o Jake e que muito dificilmente gastaram uma fortuna pra que ele ficasse o filme todo com a cara tampada, né...), também é uma apresentação interessante do vilão para um NOVO público.

Porque, confesso, minha primeira reação foi “caralho, eu conheço o Mysterio, é vilão, é um baita manipulador, certeza de que esta coisa toda de elemental aí é cena”, seguida de “pra que fazer isso, todo mundo sabe que é mentira, que merda de surpresa teremos no final...”. O ponto é que eu sou leitor dos gibis. Eu conheço o Mysterio. Mas, como já falamos algumas vezes por aqui, o filme NÃO É PRA MIM. Não é pro leitor fanático dos gibis. Até porque se a bilheteria dependesse apenas e tão somente de quem consome os quadrinhos da editora, maluco, tudo que é produção deles ia ser prejuízo na certa.

A Marvel tá querendo construir o Homem-Aranha para um novo público, pra molecada que cresceu com os filmes do MCU e não com as HQs, pro consumidor eventual de blockbusters que se apaixonou pela Marvel nas telonas...

“Fico muito feliz não apenas como aquele leitor fanático desde os 7 anos de idade mas também como pai de um menino que, prestes a completar seus próprios 7 aninhos e finalmente numa fase interessado pelos velhos gibis de super-heróis do pai orgulhoso, vai ter o momento ideal para se apaixonar pelo herói como eu tive quando comecei a ler quadrinhos”, foi o que eu disse na minha resenha do filme. Hoje o filhote já tem 8 anos, mas nada mudou: este Mysterio, que ele sabe que é um dos meus vilões-aranha favoritos, também é muito mais pra ELE do que PRA MIM. Ele tem que se surpreender.

Afinal... que rufem os tambores... FILME É FILME, GIBI É GIBI.