Na Síria, a guerra vira combustível pro Metal | Judão

Documentário do agora refugiado sírio Monzer Darwish retrata, de maneira igualmente poderosa e emocionante, como o underground da música pesada em seu país de origem consegue resistir a um conflito devastador

Durante muito tempo, falar em heavy metal era sinônimo de se posicionar no mapa em países como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Suécia, Noruega. Quando os próprios músicos de grandes bandas descobriram a América Latina, este berço de fãs alucinados e que gritam mais do que os próprios pulmões aguentam, um novo panorama se abriu. Mas o lance é que, conforme Sam Dunn e Scot McFadyen nos mostraram em seu Global Metal, isso ainda é pensar MUITO pequeno. Porque o metal também está, ainda que em pequenas comunidades, na Índia, na Indonésia, na China, no Japão... e também no Oriente Médio.

E se este documentário de 2007, em sua passagem por Israel e pelos Emirados Árabes, já nos mostrou uma incômoda realidade BEM diferente dos shows megalomaníacos com toneladas de efeitos de luz que hoje se tornaram regra por aqui, abrindo as cortinas para a sonoridade étnica do Orphaned Land, o que um outro headbanger de carteirinha chamado Monzer Darwish faz em seu próprio documentário, o recém-lançado Syrian Metal is War, é um verdadeiro soco na cara. Porque os cabeludos em busca de uma violenta catarse coletiva ao som de guitarras dissonantes podem parecer os mesmos lá e cá. Só que na Síria, a realidade dos camisas pretas é MUITO diferente.

A ideia de Darwish para o filme surgiu em Dezembro de 2013, quando o aspirante a guitarrista, inspirado por caras como John Petrucci (Dream Theater) e Mikael Akerfeldt (Opeth), iria se encontrar com seus companheiros de banda para compor em Hama, uma cidade nas margens do rio Orontes, no centro da Síria, ao norte de Damasco. Mas uma explosão causada por um terrorista suicida algumas horas antes mudou completamente os seus planos e, diante de todo aquele cenário de destruição, resolveu deixar a carreira de músico de lado e se dedicar a uma nova paixão, o cinema. Ou melhor, digamos que unir as suas duas paixões: armado apenas com um celular e uma câmera DSLR, o cara viajou por conta própria por uma série de cidades sírias para registrar como a cena do metal ainda conseguia continuar resistindo em meio a um cenário de devastação pela guerra.

Esta é a causa de uma comunidade dentro da Síria lidando com a dor, com a perda, com a falta de esperança

Na cara e na coragem, em cenários que ofereciam o risco real de tiroteios ou bombardeios, ele se meteu nos buracos mais obscuros, mas não chegou, pelo menos naquele momento, a finalizar a obra, justamente porque a guerra civil bateu à sua porta. Vivendo na Turquia, onde a situação para os sírios se tornou insustentável, ele teve o visto Suíço negado em Istambul e então tomou a decisão de embarcar num bote de borracha, junto com a esposa e dois primos, em busca de uma vida melhor. Parte de suas filmagens se perdeu com tudo que o jovem cineasta teve de deixar pra trás. Depois de oito horas de viagem, chegaram na Grécia. E com passaportes espanhóis falsos, foram parar em uma cidadezinha próxima de Amsterdã.

Enquanto tentava colocar a vida em ordem, Monzer Darwish virou, graças ao primeiro trailer do filme e também a um corte de 33 minutos porcamente editado mas exibido no Norient Film Festival, alvo de uma reportagem do canal suíço RTS. Logo, o jovem chamou a atenção de Marie Alice Riley, cantora cheia de bons contatos que logo se apressou na criação de uma campanha de financiamento coletivo para, pelo menos, descolar um computador pro sujeito finalizar o seu trabalho. Deu certo. Mas, já com o corte final com 1h27 em mãos, depois de ter sido constantemente recusado por uma série de festivais, ele decidiu ir além e colocar a íntegra da parada no YouTube, para que o mundo tivesse a chance de ver.

E ela está aqui.

“Este filme pode nos trazer bençãos, apreciação, apoio... ou então ainda mais destruição e perdas para nós”, afirmou o diretor, em 2014, numa entrevista para a Atlantic, quando ainda não tinha quaisquer planos de abandonar o seu país. “Não importa qual seja o caminho, vamos com isso até o fim. Porque isso é maior do que eu ou qualquer um que esteja trabalhando comigo. Esta é a causa de uma comunidade dentro da Síria lidando com a dor, com a perda, com a falta de esperança”.

Enquanto mostra o nascimento do que chama de New Wave of Syrian Metal, praticamente todos herdeiros do cantor sírio que usa o codinome Jack Power, uma espécie de Bruce Dickinson local que, com suas bandas cover dos anos 80 e 90, acabou sedo pioneiro do gênero no país, Darwish revela que a luta dos headbangers sírios, fossem eles músicos ou apenas fãs, começou antes da guerra, um tabu lutando suas próprias batalhas — já que, considerados “adoradores do demônio”, os batedores de cabeça podiam ir parar direto na cadeia por desrespeitar os preceitos islâmicos. Foi o que aconteceu com Bashar Haroun, veterano músico e produtor da cidade de Aleppo que acabou encarcerado como encorajador de um movimento satânico. As provas? Uma camiseta com estampa de caveira e um pôster da banda Burzum na parede do quarto.

Haroun, aliás, é um dos mais persistentes personagens deste Syrian Metal is War. Já livre, criou em 2014 o Live Under Siege, uma série de shows de metal em lugares minúsculos como o Buzz Cafe, numa Aleppo já em frangalhos, com destroços por todos os lados e o medo constante de que um morteiro possa explodir nos arredores. É tudo pequeno, é tudo improvisado, é tudo no sangue e no suor, tendo que esperar até que a luz volte, graças a um sistema de serviços públicos pra lá de precário. E, mesmo assim, dezenas de jovens pintam de todos os cantos para uma gigantesca sessão de urros que servem, de alguma forma, pra exorcizar os demônios de sua dura realidade. A realidade que inspira as letras das composições próprias destes caras mas que também acaba ficando pra trás nesta válvula de escape em altíssimo volume.

A realidade que inspira as letras das composições próprias destes caras também acaba ficando pra trás nesta válvula de escape em altíssimo volume

E esta é a realidade em todos os lugares pelos quais ele passa, indo de Damasco pra Aleppo, Lataquia, Hama. O metal sempre tentando se esconder mas ao mesmo tempo se encontrar em pequenos estúdios de gravação, salas de ensaio, nos quais gente que nunca se viu na vida e que têm até uma herança familiar de ódio descobre o gosto por aquilo que têm em comum, pelo som do Metallica, do Iron Maiden, do Sepultura e do Hourglass, primeira grande banda síria de metal a fazer turnês fora do país — e cujo guitarrista e criador, Rawad Massih, foi buscar refúgio em Beirut, a capital do Líbano.

Quando estes caras e minas se encontram, pra curtir ou fazer um som, rapidamente o papo sai da guerra e vai pras suas bandas favoritas, pras eternas batalhas de qual disco é melhor, logo alguém saca uma guitarra pra sair dedilhando aquele riff. E aí começam os barulhos. De tiros, de bombas, que os fazem se entreolhar nervosos, mas com os quais eles lidam quase como se aquilo fosse normal, como se estivessem acostumados. Ou se tivessem que estar, pelo menos. Isso acontece ao longo de quase todo o filme, em diferentes cidades, em diversas entrevistas. E, mais até que as imagens de devastação, é o tipo de coisa que mais arrepia.

Em alguns casos, ele chega até a se questionar: que direito eu tenho de ficar aqui, pensando em música, com tudo aquilo que tá acontecendo lá fora? E é justamente neste momento que reencontramos, lá pro final do documentário, um dos antigos colegas de banda do diretor do filme. E a situação na qual ele está hoje, trocando uma guitarra por um rifle, é assustadora, é de uma intensidade brutal, tanto quanto qualquer thrash metal. E também é MUITO real.

“Hoje, meu principal objetivo é ajudar as bandas sírias a serem mais reconhecidas, pelo menos entre os metalheads de todo o mundo, apenas pela música que amam fazer”, diz Darwish, em entrevista pra Vice. “Me entristece ver que a cobertura da imprensa sobre a Síria mostre apenas a guerra e não dê a mínima para as histórias das pessoas comuns, com as quais podemos nos relacionar”. Saca, empatia? Issaê.

E ele ainda completa: “não acho que nenhum gênero musical nos permite expressar nossos pensamentos mais profundos, nossos sentimentos, nossas opiniões, como o metal faz”. Uma frase que, apesar de todos os temores e terrores, um camarada metaleiro de Deir Zor, maior cidade da parte oriental da Síria, resume ainda melhor: “No fim, KEEP IT METAL”.