Na vida e na arte, tudo é uma questão de referência | JUDAO.com.br

O ilustrador norte-americano Sam Spratt está cuidando das capas do gibi solo da Shuri, irmã do Pantera Negra. E seu lindo trabalho, sempre com uma pegada realista, demanda que ele afie seu olhar para retratar uma realidade que não é a sua

Quando o Alex Ross começou a dar as caras no mercado de quadrinhos e fez gibis hoje icônicos como Marvels e O Reino do Amanhã com aquela impressionante arte pintada repleta de realismo, todo mundo queria saber: de onde diabos vinham as referências do cara? Pode parecer óbvio, mas logo ele deixou claro que seus pincéis sempre estiveram guiados pelo mundo ao seu redor. Por exemplo, o personagem Norman McCay, pastor da igreja que é o protagonista da série sobre o futuro da DC, é baseado na própria imagem do pai dele, Clark Ross — que, por sinal, também é pastor na vida real.

Tá bom que, neste caso, a coisa ficou fácil. Mas e como fazer pra buscar este tipo de referência para algo que não necessariamente orbita ao seu redor? Foi isso que teve que descobrir Sam Spratt.

Também adepto desta pegada mais realista, ele já fez trabalhos para publicações impressas (Variety, Rolling Stone, Wall Street Journal), pra materiais de divulgação de jogos (Angry Birds, Tomb Raider) e de séries de TV. Mas onde se tornou conhecido DE FATO foi mesmo trampando com as capas de artistas como Janelle Monáe, Ty Dolla Sign, Childish Gambino (aka Donald Glover) e Logic.

Qual é o ponto aqui? Sem rodeios, Spratt é um cara branco que foi convocado pela Marvel Comics pra fazer as capas de Shuri, gibi solo estrelado pela genial irmã mais nova de T’Challa, o Pantera Negra. Pra alguém que tem este estilo rebuscado de arte, o simples ato de ter que pintar/desenhar cabelos já é um sacrifício. Imagina então ter que entrar neste nível de detalhe num tipo de penteado que não é muito comum pra ele? Spratt sacou o tamanho do desafio quando tava desenhando a arte de capa da edição 2. Mas digamos que ele soube resolver a parada muito bem ao usar, ao invés de modelos vivos como Ross, um monte de... vídeos tutoriais do YouTube.

“Geralmente, eu uso fotos, porque a chave pro realismo de fato são as referências”, explica ele, sobre seu processo de trabalho, para a revista DJ Booth. “Claro, eu nunca vou conseguir reunir dez pessoas em uma espaçonave de verdade e pintá-las exatamente como eu queria, mas consigo encontrar dez pessoas em dez diferentes situações e dúzias de fotos de cada uma delas para tentar entender tudo remotamente. De uma forma estranha, imagine um daqueles painéis dos malucos fanáticos por teorias da conspiração dos filmes. Um monte de imagens com fios ligando um pin ao outro. Você junta estas imagens e as costura de algum jeito. Você estuda o rosto de um mas a iluminação de outro. A ideia é sempre fazer algo realista, mas não dá pra fazer só com fotografia, colando umas fotos juntas e tal. A ideia é usar e estudar o realismo pra fazer algo NOVO”.

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Este lance de enxergar uma série de referências diferentes e saber como cruzá-las, de procurar as conexões entre elas... Olha que isso lembra um pouco do tal do menino jornalismo, hein? Devidamente salpicado com a tal da empatia, que é mais do que achar que sabe tudo na vida, mas sim tentar entender o que não gira ao redor do seu umbigo. “Se tem uma coisa que eu aprendi na vida, é que eu tô errado constantemente”, diz Spatt. “A única melhoria que eu já fiz foi a de saber reconhecer minhas próprias cagadas e tentar de novo, tentando de novo. Essa é a melhor maneira de falhar”.

Viu? Não é difícil. ;)

Em contraste com o trampo do Spratt na capa, Shuri, a série, tem ilustrações internas do jovem brasileiro Leonardo Romero — cuja arte dinâmica e limpa, que já pôde ser vista nas aventuras de Doutor Estranho e da Gaviã Arqueira, tem bem mais de Alex Toth, Bruce Timm ou Darwyn Cooke do que de Alex Ross. Os roteiros são de Nnedi Okorafor, premiada escritora especialista no afrofuturismo (estética que combina ficção científica e arte/história da África) que já tinha trabalhado com o universo de Wakanda em Black Panther: Long Live The King e Wakanda Forever.

Na história, Shuri — que, cronologicamente nas HQs, já usou o manto do Pantera Negra e foi regente de Wakanda durante um tempo, morreu e ressuscitou — tem que lidar com a ausência de seu irmão, que desapareceu em uma missão no espaço. Mas enquanto ela prefere ficar em seu laboratório, mantendo sua nação na liderança do que existe de mais avançado em termos de ciência e tecnologia, é fato de que seu povo precisa se um líder. E sem T’Challa por perto, talvez ela tenha que fazer uma escolha das mais difíceis...

Shuri será lançada oficialmente em Outubro.