Não importa quem morre em Vingadores: Guerra Infinita | JUDAO.com.br

O marketing ficar sobre a história contada foi, definitivamente, o maior erro do filme, desviando nossa atenção do que realmente é relevante nessa história

SPOILER! A grande hagada de Vingadores: Guerra Infinita não é algo que aconteceu dentro do filme, mas sim fora dele. Com mudança de data de estreia em cima da hora (adiantou em uma semana lá nos EUA), aquelas cartinhas do diretores e a ideia de #ThanosDemandsYourSilence, a Disney acabou colocando o marketing em cima da história que estava sendo contada.

Depois de assistir ao filme pela segunda vez nesse fim de semana, fica claro e muito óbvio que esse investimento na cultura do pavor do spoiler machuca o que os Irmãos Russo queriam falar no fim das contas, desviando completamente a atenção do que realmente importa para “quem morreu” ou não, quem volta ou não.

Com uma única exceção, simplesmente não importa quem morre em Vingadores: Guerra Infinita.

Entrar na sala do cinema sabendo quem é que ia ou não pro saco e que aquela é a Parte 1 de uma história — ou, em outras palavras, entrar na sala do cinema ignorando tudo o que o marketing do filme me vendeu — permitiu que eu pudesse olhar por outros ângulos o que estava sendo contado no filme.

Já disse aqui e repito: se um filme depende de um plot twist, ele não é um bom filme. Pode fazer o sucesso que for, especialmente pelas cabeças explodindo com a grande revelação, mas não é um bom filme por definição. Vingadores: Guerra Infinita não depende de revelação nenhuma. Mas a narrativa criada em torno dele sim.

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Boa parte dos personagens que desapareceram no estalar de dedos do Thanos vai voltar — se não todos, claro. Você sabe que já tão pré-produzindo a sequência de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, você sabe que a carreira de Pantera Negra nos cinemas não vai ser ignorada e que Guardiões da Galáxia Vol. 3 sem o Groot (cuja última palavra foi “Pai”, segundo James Gunn) não rola. É impensável algo assim e isso, por si só, tira boa parte do peso desses desaparecimentos.

Um peso que, dessa vez eu percebi, nunca existiu. Ou não deveria existir, se não fosse pela Cultura do Pavor dos Spoilers.

Veja: essa ideia de que não importa quem some também é reforçada por algo que o Thanos diz em determinado momento do filme, sobre sua ideia de equilíbrio ser algo completamente randômica, sem distinção entre ricos, pobres e esse tipo de coisa. Somando isso ao fato de que, por motivos completamente randômicos, são os Vingadores FUNDADORES que sobram, qual é a real importância do nome de quem faz cosplay do logo do Windows 3.1 nesse filme?

Vingadores: Guerra Infinita, na realidade, se apoia o tempo todo na morte, apenas e tão somente. A velha amada do vilão nos quadrinhos, olha só, é o grande tema do filme. O fim, a quebra, que provavelmente se tornará recomeço e reconstrução com Vingadores 4, mas isso eu deixo pra falar algum outro dia.

Enquanto esse continua sendo um filme do Thanos, na segunda assistida, sabendo tudo o que já sabia, é possível perceber também que Vingadores: Guerra Infinita é, no máximo, 50% dele. A outra metade é dividida entre o personagem outrora conhecido como Capitão América, Homem de Ferro e o Todo Poderoso Thor, o grande personagem de toda essa Fase 3, o super-herói real oficial criado por Taika Waititi em Thor: Ragnarok.

A divergência de ideias entre Steve Rogers e Tony Stark continua por aqui. Enquanto o ex-Capitão segue com sua equipe da Guerra Civil com a ideia de defender a Terra acima de tudo, Tony Stark o tempo todo está na linha de frente, numa ofensiva contra o Titã Louco — lembra daquela conversa sobre “lutar pra acabar com a luta e ir pra casa”, de Vingadores: Era de Ultron?

Cada um à sua maneira — um arrancando uma gota de sangue, outro segurando não só a mão do vilão, como a mão com a manopla — eles conseguem causar algum dano ao Thanos.

E aí tem o Deus do Trovão que, alheio à Guerra Civil e, sinceramente, a tudo o que o Thanos está pensando em fazer com o Universo, é movido pela vontade de vingança e é o que mais causa dano ao Monstro Roxo — o que mais perto chegou de acabar com tudo aquilo de fato, se ele tivesse mirado na cabeça. Ou se não tivesse tão cego (sem trocadilho aqui) pela vontade de se vingar e se ligasse que só precisaria um estalar de dedos.

Também cada um à sua maneira, os três lidam com a ideia de morte e o valor de uma vida. O Time Capitão América leva a sério demais a ideia de “não trocar vidas” (a Wanda chega a dizer que o preço é muito alto quando o Visão sugere que a Joia da Mente seja retirada da sua testa pra evitar que o Thanos despareça com metade da vida do universo), o que obviamente prolonga um combate, enquanto Tony Stark inicialmente não entende porque catzo o Doutor Estranho entregou a Joia do Tempo, se aquela era a única vantagem que tinham, enquanto o Thor aceita tomar a porrada de uma estrela no peito.

E ainda tem o Thanos entregando a Gamora, né?

Um amigo que eu não posso citar o nome por conta de um contrato de exclusividade com um grande portal (mas que é Jornalista), lembrou que dá pra entender o público “comum” ficar absurdado com tudo o que acontece no fim do filme, as mortes, “nossa mas como assim”, “nãããão”, “Chris Pratt vai tomar no cu” e tudo bem. Nós, desse lado aqui, que não só convivemos com todas essas histórias diariamente como trabalhamos com elas, estamos CONDENADOS a perceber, sentir e repercutir esse tipo de coisa.

Nós nem sempre (quase nunca) temos o direito de ignorar absolutamente tudo o que envolve a produção de um filme na hora de analisá-lo. Aliás, pelo contrário: a maneira como um filme é vendido é um ponto importante do nosso trabalho e, num caso como Vingadores: Guerra Infinita, em que o marketing passou a ser mais importante do que a história em si, não se pode ignorar como as coisas poderiam ter sido.

Se os Irmãos Russo não tivessem aparecido pedindo pra ninguém soltar nenhum spoiler e, depois, pedindo pras pessoas saírem da internet, se eles não tivessem batido na tecla de que esse era um filme solo, completo, fechado, e a narrativa se bastasse na história que seria contada, as coisas poderiam ter sido diferentes em termos de cinema.

Recordes de bilheteria seriam batidos independente de qualquer coisa. Mas, pelo menos, teriam deixado o cinema ser cinema.