Não, Netflix não tem uma dívida de US$ 20 bilhões | Judão

Serviço de streaming tem, sim, uma conta bem cara pra pagar – mas eles dizem que tudo faz parte do plano

Cerca de US$ 20 bilhões ou, em termos mais REAIS, quase R$65 bilhões. Foi este número, mágico, que o Los Angeles Times tirou da cartola na última semana, avisando que o Netflix tem esse valor em dívidas de longo prazo, tudo por causa dos investimentos em conteúdo original, o que fez muita gente sair por aí se descabelando.

Mas, calma, não é pra tudo isso. Tanto é que, no último mês, as ações da empresa na Nasdaq acumularam uma alta de quase 20%, apesar da leve queda nos últimos dias.

Na realidade, tudo começa com um erro de avaliação do LA Times em relação aos dados do balanço da empresa. O Netflix tem capital aberto e, dessa maneira, tem de divulgar seus números financeiros, algo que faz de forma religiosa a cada três meses. Nada é escondido, já que isso seria considerado um crime bem pesado.

No último balanço, consta que a empresa tem um débito de longo prazo de US$ 4,8 bilhões – um crescimento de US$ 1,5 bilhões no último trimestre, o que é sim muita coisa, mas bem longe dos tais 20 bilhões de dólares. Pra chegar nesse número astronômico, foram somadas também as obrigações da empresa com produtores de conteúdo original, que tão em US$ 15,7 bilhões (quase R$ 50 bilhões).

“Ah, então eles devem esses 50 bilhões, pronto”. Hm, nem tanto, já que são coisas bem diferentes agregadas num número só. Os tais débitos de longo prazo são empréstimos e obrigações financeiras com prazo maior de 12 meses. É tipo você pegar uma grana emprestada com o banco pra comprar um apartamento, sabe? Você paga aquela dívida por 5, 10, 20 ou 30 anos e provavelmente encaixa o valor da parcela e dos juros dentro da sua renda. Ou, ao menos, deveria.

As tais obrigações da empresa com os produtores de conteúdo são aquilo que eles se comprometeram em pagar através do tempo. É tipo você encomendar uma roupa no ALFAIATE. Você paga um sinal de, sei lá, 30%. Os outros 70% serão pagos ao entregar a roupa – e são um compromisso financeiro que você TEM mesmo. Até lá, você recebeu a grana para ir a um evento com aquela mesma roupa nova, quita a grana do alfaiate, fica lindo na festa e ainda tem lucro.

Tudo isso é parte do jogo.

The Get Down foi a série mais cara da história: US$ 120 milhões por uma temporada

“A matéria do LA Times calcula de forma errada o nosso débito em US$ 20 bilhões ao contar nossas obrigações de streaming (por exemplo, nossos contratos com os estúdios) de US$ 15,7 bilhões como um débito, o que não é correto”, afirma o Netflix em comunicado oficial e explicando o assunto de forma mais prática. Após o aviso da empresa, o jornal corrigiu a matéria na versão online.

“Para mais contexto, os US$ 15,7 bilhões contam para futuras despesas de conteúdo que rolarão no informe financeiro com o tempo”, continua a empresa. “Todo canal de TV, canal pago ou por streaming, tem acordos de licenciamento na mesma estrutura. Como um ponto de referência, Disney/ESPN tem US$ 49 bilhões [cerca de R$ 150 bilhões] em compromissos de contratos esportivos”.

A ESPN tem compromissos em contratos esportivos de US$49 bilhões, por exemplo.

No caso da ESPN, eles compraram os direitos de transmissão da NFL em 2011 por US$ 15,2 bilhões num acordo válido até 2021. Ou seja, nesse período todo, o resto do contrato que ainda não foi pago constará como uma dívida no passivo do balanço financeiro do Mickey. Dinheiro pra caralho, mas não quer dizer que o cobrador esteja batendo na caixa forte do Tio Patinhas pra recolher até a moeda número um. Com o tempo, entra a grana dos anunciantes e dos assinantes – que muitas vezes só chegam justamente porque o canal possui a NFL – e ela é direcionada para pagar esses tais direitos de transmissão.

Obviamente eventos esportivos possuem contratos mais caros e mais complicados do que séries de TV e filmes, mas claramente o Netflix tem também suas obrigações financeiras em relação a esse conteúdo e espera pagar por esses valores com a grana que entrará dos assinantes, que vem justamente atraídos por essas séries originais. É um ciclo.

A grande diferença de um Netflix para uma Disney ou Time Warner é que estamos falando de uma companhia de tecnologia, que emprega uma política agressiva como outras do mesmo estilo. O caminho da empresa de Los Gatos é investir pesado em conteúdo e cobrar um valor menor que os concorrentes para, obviamente, fragilizá-los. Após “derrotar” os “adversários”, é possível aumentar preços e negociar contratos menores com quem produz. Guardadas as devidas proporções, é parecido com o que empresas como o Uber fazem.

Aliás, mantendo a comparação com o Uber aqui: quando o serviço de carona chega numa cidade, eles dão descontos para os usuários e incentivos para que motoristas fiquem circulando mais nas ruas, literalmente pagando para que os dois lados utilizem o serviço deles. Com o tempo, superando barreiras naquele lugar, eles tiram esses incentivos. No caso do Netflix, a estratégia compreende um investimento pesado em produções exclusivas, as tais séries originais. Em 2017, esse valor vai chegar em US$ 6 bilhões – fora, claro, a compra de produções de terceiros, como, por exemplo, Star Wars.

Essa estratégia é paga pelos investidores. São eles que financiam esse crescimento, bancam os investimentos e esperam que, no futuro, a empresa domine o mercado. É por isso que o número de assinantes é uma métrica tão importante nos resultados do Netflix: é a prova de que eles estão conseguindo manter a dominação do mercado.

Nessa conta toda também entra a capacidade de pagar suas contas. O Netflix tem ativos – ou seja, propriedades que valem dinheiro ou mesmo o dinheiro em si – no valor de US$ 16,5 bilhões, ou R$ 51 bilhões. Além disso, a empresa tem um valor de mercado de US$ 75 bilhões (cerca de R$ 235 bilhões). Há, afinal, uma garantia de pagamento.

O segredo aqui é não gastar mais do que deve, encontrando um ponto de equilíbrio. Primeiro você precisa investir bem – ou seja, não adianta torrar milhões em algo que pouca gente vê. Depois, também precisa equacionar o crescimento de assinantes com o lançamento de novas produções. Não foi à toa que o Netflix começou, recentemente, a enfim cancelar séries – principalmente aquelas muito caras, como Sense8 e The Get Down.

“Olha, nesse universo, nós percebemos várias coisas como falhar não ser uma coisa tão ruim assim, e se você não está falhando é porque talvez não tenha tentado o suficiente”, disse Ted Sarandos, o CCO da empresa, na última conferência sobre os resultados financeiros. “Nós temos um bom índice de sucesso e, mesmo com os nossos cancelamentos recentes, ainda temos 93% de renovação das nossas séries”.

Obviamente uma hora o Netflix precisará pagar essa conta. Mas, por enquanto, gastar tanta grana assim é parte de um plano bem maior...