Não, nós não estamos em uma masmorra esperando resgate | Judão

A piada sobre princesas e suas fragilidades no trailer de WIFI Ralph é um bom sinal dos novos tempos no meio de tanta bagunça que estamos vendo :)

Quando eu era bem pequenininha, era obcecada por Branca de Neve e os Sete Anões — e quando eu digo obcecada, meus amigos, quero dizer que assistia ao filme diariamente. Com o tempo, comecei a imitar os movimentos da Branca durante todo a duração da obra. Sabia as falas, as músicas e a única coisa que não evoluiu foi o meu medo da bruxa, mas isso não vem ao caso. No final das contas, acabei crescendo com esse NEGÓCIO todo na minha cabeça de mocinha indefesa, príncipe encantado e animais bonzinhos da floresta.

Depois de adulta, conheci o feminismo. E quando repensei o papel feminino na sociedade (e o que EU era nela e esperava das coisas), percebi que muitas das minhas expectativas andavam de mãos dadas com esse meu grande amor por essas personagens. Porque minha favorita era a Branca, veja bem, mas eu ostentei fitas VHS de quase todas essas histórias contadas pela Disney: A Bela Adormecida, Cinderela, A Pequena Sereia, A Bela e a Fera… enfim. O pacote completo das meninas frágeis e amaldiçoadas que eram salvas por homens valentes que apareciam sempre nos 45 do segundo tempo.

Mas... as coisas estão mudando. As últimas produções da Disney que envolviam princesas, Moana e Frozen: Uma Aventura Congelante, trouxeram meninas mais empoderadas, com bastante personalidade e que não dependiam de um grande herói para salvar o dia. Em Frozen, inclusive, rola até uma discussão sobre não fazer sentido ALGUM uma pessoa se casar com outra assim que se conhecem. E nessa mesma pegada, o trailer de WIFI Ralph traz uma boa e, por que não?, surpreendente cutucada sobre isso.

Durante um passeio pela internet com Ralph, Vanélope Von Schweetz vai parar dentro de uma sala dedicada às Princesas Disney oficiais (ainda que, ali dentro, não estejam TODAS). Diante do estranhamento inicial, a pequena diz que está tudo bem porque também carrega esse título de Princesa. Para testar a veracidade dele, as princesas questionam se ela “tem cabelo ou mãos mágicas? Fala com animais? Foi envenenada? Amaldiçoada? Raptada ou escravizada?”. “Vocês estão bem? Eu deveria chamar a polícia?” Vanélope questiona, preocupada.

E, cara, por que que NÓS nunca perguntamos isso?

Sequestro, envenenamentos, relacionamentos que resultam em um casamento em questão de DIAS. Sem falar nas idades, né? A Bela, que é mantida como refém por seu ~grande amor, tinha 17 anos na história. Minha amada Branca de Neve e a Aurora caíram nas armadilhas de suas madrastas aos 14 e 16 anos, respectivamente. Ariel trocou a voz por um par de pernas também com 16. Homens sentiram-se no direito de beijá-las e persegui-las (o príncipe da Cinderela é um verdadeiro stalker) sem se importar com coisas básicas como CONSENTIMENTO ou respeito pela ideia de mulheres serem algo além de um bibelô bonito que se coloca na estante. Puxado MESMO.

O final da cena é a cereja do bolo: “As pessoas acham que todos os seus problemas foram resolvidos por um grande e forte homem?”. Então vem o veredito: “Ela é uma princesa!”.

Além de ser BEM engraçado, é um refresco agradável ver esse tipo de reflexão rolando. WIFI Ralph é um filme infantil. E saber que outras crianças podem JÁ crescer questionando todas aquelas narrativas ultrapassadas me faz sentir esperança em um futuro onde meninos não se sintam superiores e meninas queiram ser as heroínas das próprias histórias! <3