Stranger Things não é uma criação do algoritmo do Netflix | Judão

Se afirmarmos isso, estaremos desmerecendo o trabalho dos criadores e diretores da série, os Duffer Brothers, que conversaram com a gente sobre o processo criativo e o caminho que percorreram pra chegar no serviço de streaming

Stranger Things é um sucesso. Com roteiro bem amarrado, inúmeras referências aos anos 1980 e uma história de mistério, ficção científica e amizade, a série estourou. Algo inesperado pra uma produção que, há um mês, ninguém comentava – e que está levando muita gente a falar que a produção seria resultado do tão comentado algoritmo do Netflix, aquele que procura entender o que você gosta pra indicar o que você vai ver a seguir.

Só que afirmar isso é desmerecer o trabalho de Matt e Ross Duffer, os Duffer Brothers, que criaram, produziram, escreveram e dirigiram a série.

Sim, Netflix sabe o que você gosta. Afinal, a empresa veio do Vale do Silício e é, em sua essência, uma companhia de tecnologia. Eles sabem em qual momento você desistiu de assistir a House of Cards – pra muita gente, é logo no começo do primeiro episódio. A dúvida, porém, é se isso acontece porque o Frank Underwood quebra o pescoço do cachorro que está agonizando no asfalto, ou se é porque ele quebra a quarta parede para falar com o espectador, duas coisas que incomodam muita gente.

O algoritmo tem sim muita influência. Não pra direcionar como uma série deve ser, mas para saber se a empresa comprará aquela produção. Voltando para House of Cards: quando a série foi oferecida pra eles, os executivos se voltaram para os dados da plataforma e perceberam que as pessoas gostavam não só da versão britânica da produção, mas que elas também assistiam a muitos filmes com Kevin Spacey e dirigidos pelo David Fincher (justamente o produtor executivo da versão americana).

Afirmar que o sucesso de Stranger Things é por conta de um algoritmo é desmerecer o trabalho de Matt e Ross Duffer, criadores da série

Os Duffer surgiram em um contexto bem diferente, fora de todo esse imaginário pós-moderno do entretenimento. Na verdade, a origem deles é bem mais comum — apesar de meteórica. Os gêmeos estudaram cinema na Chapman University, na Califórnia e, depois de produzirem diversos curtas por lá, escreveram o projeto de longa-metragem, chamado Hidden, que conseguiram vender para a Warner, que não só topou o filme como aceitou colocar os dois como diretores.

Após a estreia na cadeira de diretor, M. Night Shyamalan os chamou pra escrever alguns episódios da série Wayward Pines. Enquanto isso, Matt e Ross preparavam um novo projeto autoral – justamente aquele que viria a ser Stranger Things.

“Escrevemos um episódio. Então meio que montamos um livro de como seria, como iria aparecer. Nós desenvolvemos de forma bem rudimentar, como um pitch de 20 minutos”, afirmou Ross Duffer em entrevista ao JUDÃO ainda durante as gravações dos últimos episódios da série em Atlanta, nos EUA. “E então fizemos um teaser de dois minutos. Era apenas uma compilação, meio que uma mistura de A Hora do Pesadelo com ET, e tudo que nos inspirou. Tubarão, Contato Imediatos do Terceiro Grau...”, continuou Matt Duffer, isso enquanto uma parte da equipe de produção preparava os equipamentos para a próxima cena e outra jogava basquete no ginásio que servia de locação. “Foram 30 filmes que amamos que misturamos pra meio que representar a série”.

“Nós descobrimos que colocar uma música e John Carpenter em ET era sensacional”, comentou Ross, meio que surpreso com a própria descoberta. “E isso é a série: músicas do John Carpenter por cima de cenas do Spielberg”, completou o irmão.

Os Duffer Brothers com Winona Ryder no set da série

Os Duffer Brothers com Winona Ryder no set da série

Foi então que essa proposta de série caiu nas mãos de Shawn Levy, diretor, ator e produtor canadense responsável por filmes como Uma Noite no Museu e Os Estagiários. “Eu recebi um material que era uma combinação de palavras e imagens que evocavam o mundo da série como eles a imaginavam, e eu fiquei maravilhado, era tão vívido!”, disse Levy. “Era o tipo de coisa que eu amo, mas que não via há muito tempo”.

Foi a produtora de Levy, a 21 Laps Entertainment, que apostou em Stranger Things e foi em busca de alguém que topasse bancar e exibir a série. Essa não foi uma trajetória fácil, algo que o sucesso de agora faz parecer. “As pessoas estavam confusas sobre a série, era tipo ‘eu não entendo, ou você tira as crianças e vai ter que ser sobre o xerife investigando coisas paranormais, ou tem que ser apenas sobre as crianças para as crianças”, nos disse Matt Duffer. “Eu respondi: ‘Não, não, não. Eu quero fazer tudo’. Se tirarmos as crianças, deixa de ser interessante”.

Os Duffer não fizeram concessões para que algum canal topasse bancar a série

Foi aí que chegaram no Netflix – que, aí sim, viu todas aquelas referências, olhou pro algoritmo e percebeu que tinha algo no projeto, com potencial de ser visto, comentado e de se espalhar sem um orçamento enorme para divulgação. Mas, sinceramente, dava pra responder isso só com o feeling.

“Eles têm uma fé tremenda na instantaneidade da nossa cultura e o fato de contágio – o potencial viral desse mundo de hoje”, disse Levy em entrevista pra Variety. “A grande coisa é que eles têm uma fé real na série. Ela terá que fazer o trabalho [de marketing] por nós. A ideia é que conquiste as pessoas de um jeito que as faça falar com a família e os amigos, e nós vamos crescer organicamente a partir daí. Netflix tem um tremendo sucesso com esse paradigma”.

Bom, dá pra perceber que a estratégia deu certo, né?

Os Duffer e Caleb McLaughlin, o Lucas, gravando no estúdio

Os Duffer e Caleb McLaughlin, o Lucas, gravando no estúdio

É importante que se diga que, quando você conversa com os Duffer, dá para perceber que esse amor pelos anos 80 não é da boca pra fora, nem que simplesmente foram jogando ali as referências porque “vendem”. Aquilo é parte da vida e das referências cinematográficas dos caras. “Tubarão é um grande filme. E depois ET também é grande. Conta Comigo é grande”, disse Ross, empolgado, enquanto lembrava de todas as suas inspirações na infância. Matt completou: “Nós não crescemos assistindo a toneladas de televisão, então a série é inspirada pelos filmes. E em alguns dos livros do Stephen King. It: A Coisa é uma grande influência”.

“[Stranger Things] é um pouco mais sombrio do que Goonies, mas tem muita relação com o que fizemos com as crianças”, afirmou Matt, nos lembrando de outro grande filme oitentista. “O que eu gosto em Goonies é que eles fizeram as crianças levarem a aventura muito a sério e não foram condescendentes com você, como criança. E era bem pesado, como na hora que colocavam a mão do Gordo no liquidificador, com ele chorando”, lembrou Ross.

Falam ‘merda’ 22 vezes em Goonies, eu contei

Aliás, o clássico da Sessão da Tarde, que foi dirigido por Richard Donner e tem argumento de Steven Spielberg, ajudou a convencer o Netflix sobre uma escolha bem importante feita pelos gêmeos, como ressaltou Ross. “Para nós era importante que as crianças falassem como crianças. Quando você vê uma criança de 12 anos na televisão, parece uma série da Disney. Você quer que eles sejam como crianças!”. Matt explicou: “Falam ‘merda’ 22 vezes em Goonies, eu contei, porque você tem que explicar pro Netflix a importância disso, porque eles precisam falar ‘merda’”.

A estrutura do roteiro também é um dos grandes trunfos de Stranger Things. “O roteiro do nosso piloto tinha mais acontecimentos mas, quando se tornou uma série, nós os espalhamos por vários episódios”, relatou Matt Duffer. “Nós vemos a série como um filme de oito horas, é estruturado como um filme”, explicou Ross. “As esperanças, os objetivos, vão crescendo, crescendo e crescendo. No episódio final as coisas ficam malucas. Nós queríamos que vocês sentissem os três atos de um filme”.

Por isso, quando alguém falar que qualquer sucesso do cinema ou da TV é resultado de um robô, de números jogados em um algoritmo que calculou uma formula perfeita, desconfie. O cinema de verdade, esse que gostamos tanto, é mais do que isso, é mais do que computadores. É paixão, dedicação, referências, inspirações e suor, muito suor.

Sucessos, afinal, são feitos disso.