Não tão Quarteto, muito menos Fantástico | Judão

Novo filme do Quarteto Fantástico enfim chega aos cinemas e, acredite: consegue ser pior do que você imaginava

“Não é um desastre”, afirmou o produtor Simon Kinberg à EW. Ele se referia aos problemas que, apesar de o tempo todo tentar amenizar, não consegue dizer que não aconteceram. Dos rumores das saídas do diretor Josh Trank, do roteiro escrito pelos dois e do elenco, aos prejuízos de US$100.000 que o cachorro de Trank causou na casa alugada em Nova Orleans para a gravação do filme, a única coisa que Kinberg diz é que, bem, as coisas foram realmente DESAFIADORAS, mas deu tudo certo.

Ou... algo assim. Porque Josh Trank ficou no cargo, o elenco é o mesmo anunciado no início do ano passado... Mas o filme é, sim, um desastre. Putaquepariu, que enorme monte de bosta que é esse novo Quarteto Fantástico.

O filme até que começa bem. Totalmente inspirado na versão Ultimate do Quarteto, como era de se esperar, acompanhamos a construção de Reed Richards como um gênio desde a infância, alguém que consegue construir algo que desafia as leis da física e da lógica com peças de ferro velho (o que, talvez, seja uma assinatura de Josh Trank?); Ben Grimm, apesar de estar longe da encarnação original, guarda essa grande parceria com Reed, essa amizade que você realmente acredita — ainda que ele apareça mais como aquele amigo tímido, que nunca sai nas fotos, sempre se esconde da humanidade, não dá uma porra de um sorriso nunca; Johnny é um moleque, inconsequente, mas que não soa bobo como os dois filmes anteriores. A Sue Richards também funciona bem, com todo o seu autocontrole creditado à habilidade de encontrar padrões em tudo.

O visual do Coisa enfim parece ser de um monstro feito de pedra (e não aquela borracha mastigada dos filmes do Tim Story), os efeitos do Tocha Humana voando e disparando bolas de fogo estão legais e a Mulher-Invisível faz mais uso dos campos de força do que efetivamente de sua invisibilidade, mas Hollywood ainda tem dificuldades de fazer efeitos bacanas de um homem esticando partes de seu corpo, né? Melhorou. Mas podia ser MUITO melhor.

Miles Teller, Michael B. Jordan e Jamie Bell conseguem vender bem seus personagens — e, Kate Mara, especialmente, além disso consegue também apagar rapidamente da nossa memória aquelas “caras de dor de barriga”, como diria meu pai, que a Jessica Alba fazia.

Quarteto FantásticoIsso não significa, porém, que eles salvam a sua ida pro cinema.

Você dá uma olhada pro relógio, depois de cansar de tentar se ajeitar na poltrona, e percebe que se passaram 1h30 e absolutamente NADA aconteceu. Os personagens foram construídos, mas não desenvolvidos. A genialidade do Reed não é usada pra nada muito além do que ele já tinha feito na escola (tirando que é mais caro, como o próprio diz no filme), a amizade com o Ben serve só pra receber uns WhatsApps, a inconsequência de Johnny o faz soldar metal e a Sue Richards, bom... Ela é a menina chata que conta tudo pro papai — a ponto de ser absolutamente excluída da viagem interdimensional que dá os poderes ao Quarteto.

Ela não só não “é um dos caras”, como parece ser absolutamente descartável. Eles a tratam mais ou menos como estavam sendo tratados pelo pessoal da Fundação Baxter e ela, em momento algum, questiona. Seus poderes? É meio que um efeito colateral de tudo o que acontece. E olha só: independente de ela ser ou não mulher, ela é integrante do time, ela ajudou a desenvolver a bagaça junto com todo mundo, vai. Ficou uma solução muito “ai caraio, esquecemos a Sue, vamos dar um jeito de colocar ela pra ganhar poderes também?”.

Chamaram até o Ben, cara. E ele não tinha nada a ver com aquilo...

Faltando então, sem brincadeira ou exagero, 20 minutos para acabar o filme, parece que alguém acionou um alarme lá no set. “Fodeu, temo que acabar saporra!”, grita um. “Mas a gente vai terminar o filme sem uma única luta sequer com o vilão?”, questiona outro. “Putz, é verdade”. E toca então um filme de ficção científica se transformar, num passe de mágica, em filme de heróis, com pancadaria e superpoderes para todos os lados.

Em meros cinco minutos, os quatro se transformam numa equipe bem ensaiada, que sabe lutar em conjunto e combinar seus poderes para detonar o malvadão. E passam a se enxergar como uma família. E ainda encontram o momento certo para se posicionarem como um grupo independente de heróis e ainda se batizarem como equipe. PORRA!

Amazing Adventures, Journey into Mistery, Marvel Tales, Tales of Suspense, Strange Worlds... Se você esquecer o final apressado, dá pra dizer que o filme é uma adaptação de uma história ruim de algum dos títulos de ficção científica da Marvel Comics (ainda sob o nome Atlas) dos anos 50 e começo dos 60 – e não do Quarteto Fantástico. Até porque essa coisa de “aventura ao desconhecido”, com os aventureiros sendo obrigados a lidar com os desdobramentos da burrada que fizeram, não eram apenas um tema recorrente dessas HQs na época, como também do próprio Stan Lee enquanto roteirista.

Ok que as primeiras aventuras do Quarteto ainda bebiam dessa influência, mas não dá pra dizer que o filme é uma homenagem a isso.

O Quarteto Fantástico, enquanto equipe, não funciona. E, cara, ser uma EQUIPE sempre foi o trunfo desse time! Quarteto Fantástico... Um filme como esse precisa, minimamente, entregar o que tá no título. Mas é tudo tão apressado, acelerado, atrapalhado, jogado na tela de maneira tão escrota que chega a dar raiva.

Quarteto Fantástico

Uma das piores coisas, no entanto, é aquilo que a gente já esperava: o Doutor Destino. Victor Von Doom não é um hacker chamado Victor Domashev que assina como “Doom”, por aí, como o próprio Tobby Kebbel chegou a afirmar que seria (“Não é um desastre”. Oh, Simon Kinberg...). É um moleque mala, mimado, que desenvolveu uma versão prévia do equipamento de teleporte e é chamado de volta pra ajudar o Reed, o que desde o início já o deixa meio puto, com ciúmes da inteligência dele — e se chama Victor Von Doom. Isso a gente entende. Mas aí ele é todo cheio de fazer graça, de querer questionar a autoridade mostrando o dedinho do meio (é sério). E, pior, ainda é apaixonadinho pela Sue. Pô, gente, sério? Jura que precisa MESMO deste recurso pra se criar tensão numa equipe e encontrar um antagonista decente? Jura que vocês não conseguiram pensar em nada diferente? O visual dele é horrível e, em movimento, é ainda pior. As falas dele são assustadoras, mas do jeito errado. E ainda tem a coisa de ele ter poderes que são basicamente uma telecinese avançada fodona. Com aquela capa toda rasgada pendurada no pescoço, ele parece um Tetsuo, do Akira, jogando pedras e destroços nos outros com o poder da mente.

Latvéria? Uma única menção. E só prá constá, mesmo.

Vamos esquecer por um minuto que ele é o Doutor Destino, no entanto. Esqueçam que ele não funciona como adaptação (porque, não, não funciona). Nem se ele se chamasse Doutor Apocalipse, por exemplo, se fosse um outro vilão qualquer, ele funcionaria. Porque é um retrato tão genérico de vilão que chega a dar pena. “A Terra está sendo destruída pela humanidade. Então, vou absorver o planeta para um outro planeta, matar a humanidade toda e reconstruir tudo à minha imagem”. Mas caralho de agulha! Não dava para a motivação do vilão ser MAIS preguiçosa? Se era pra partir para este lado, que fosse algo como o bom e básico “quero dominar o mundo” que, pelo menos, ficava mais justo.

O garoto que lia aquelas HQs dos anos 50 ficaria com vergonha.

Antes do filme, comentamos aqui que, quando você assiste aos trailers e vídeos promocionais, fica sabendo pouco da história. Parece que estão escondendo um pouco da trama, qual o objetivo do vilão, coisa assim... E cara, isso é bem legal, porque pode significar que eles têm muitas surpresas na manga reservadas para quem vai assistir ao dito cujo. Triste é você perceber que não era por isso. Mas sim porque aquilo era tudo que eles tinham para contar mesmo.

O que a Fox precisa entender é que a fórmula dela pra transformar uma equipe de super-heróis em um filme já existe. Se chama X-Men: Primeira Classe.

O resto, bom... É Quarteto Fantástico.