Neil Gaiman vai expandir o universo de Sandman | Judão

Autor britânico convida outras equipes criativas para cuidar de quatro novos títulos que, supervisionados por ele, prometem adicionar novos personagens e conceitos ao Sonhar

Embora a data de capa seja de Janeiro de 1989, o número inaugural do Sandman de Neil Gaiman começou a ser vendido oficialmente no dia 29 de Novembro de 1988 — portanto, estamos falando de um aniversário de 30 anos a ser comemorado este ano.

O mais importante título do Vertigo, um dos primeiros gibis a figurar na lista de mais vendidos do New York Times e, claro, uma HQ absolutamente icônica que influenciou toda uma geração de criadores de fantasia (e não só dentro do mundo dos quadrinhos) e fez os críticos que sempre torceram o nariz pros gibis finalmente encontrarem algo na Nona Arte que pudesse ser comparado àquela tal de “literatura”.

Portanto, impossível passar este 2018 sem soprar as velinhas em alto estilo. Uma comemoração que, obviamente, teria que ter a participação de Neil Gaiman, criador do personagem e roteirista da maior parte de seus momentos mais icônicos ao lado dos Eternos no reino mitológico conhecido como Sonhar. Mas, embora tenha eventualmente retornado a este mundo mítico ao longo dos anos (como na prosa The Dream Hunters, de 1999; na graphic novel The Sandman: Endless Nights, de 2003 e na mini prequência The Sandman: Overture, de 2013), chega a ser injusto dizer, como alguns ~especialistas sugeriram, que o sujeito não consegue largar o osso de Sandman. Basta ver a quantidade de coisas diferentes e nas mais diversas mídias que o cara fez ao longo destas três décadas para entender o quanto a afirmação está equivocada.

Por isso mesmo, tamanha é a importância deste novo anúncio, em relevância, em tamanho, em contexto. Ainda mais porque, desta vez, Gaiman não vai ser o escritor da parada. Ele vai ser uma mistura de editor, curador e, sei lá, MAESTRO de quatro novos títulos que compõem um novo selo dentro da Vertigo, batizado de Sandman Universe. Os roteiristas já foram anunciados, mas os nomes dos desenhistas ainda devem ser mencionados em breve.

“A história segue em frente”, explica Gaiman, em entrevista ao EW. “Tem uma grande caixa de brinquedos com os quais ninguém estava brincando. Eu gosto da ideia de liberá-los para que se brinque, relembrando as pessoas do quão divertidos eles são e ainda tendo a oportunidade de trabalhar ao lado de alguns escritores fantásticos”, conta. “Vamos trazer tudo de volta, vamos nos divertir com isso. Pra mim, a diversão é sentar com estes escritores inteligentes, que amam o material original, e dizer: tá na hora da brincadeira”.

A diversão de Gaiman começa oficialmente em Agosto com The Sandman Universe #1, o gibi especial que abre os trabalhos ao mostrar o panorama atual do cenário e a partir do qual os roteiristas trabalharão em seus títulos próprios. Justamente por isso, esta primeira HQ tem um plot desenhado por Gaiman, mas o roteiro será desenvolvido a oito mãos por Nalo Hopkinson, Kat Howard, Si Spurrier e Dan Watters. As capas desta edição com ares de pontapé inicial serão de Jae Lee, com arte da brasileira Bilquis Evely, que vinha desenhando as aventuras da Mulher-Maravilha.

O que dá pra saber, até o momento, é que Morpheus (aka Lorde Moldador e uma pancada de outros nomes), o soberano do Sonhar, o Mundo dos Sonhos, simplesmente sumiu. Ninguém faz ideia de onde diabos o sujeito foi se meter. O caos se estabelece. E é daí que estas novas histórias se desenrolam.

Em House of Whispers, a roteirista jamaicana Nalo Hopkinson, em sua estreia nas HQs, vai falar sobre a mais nova residente do Sonhar, a senhora da chamada Casa dos Sussurros, cuja chegada surpreende os irmãos Cain e Abel, respectivamente donos da Casa dos Mistérios e da Casa dos Segredos. Trata-se de Erzulie, entidade/loa do vodu, padroeira do amor, das mulheres, da beleza e da paixão. O seu repentino aparecimento pode ter relação direta com uma mulher chamada Latoya, que esteve em coma e cuja namorada e irmãs tentaram a todo custo curar usando o Livro dos Sussurros. Já acordada, ela sofre da chamada Síndrome de Cotard, doença metal rara que faz com que acredite que está morta, transmitindo seu conhecimento aos outros para tentar transformá-los em guardiões da rachadura que se fez no Sonhar, deixando-o aberto a outros mundos.

“A Nalo escreve ficção científica, fantasia, livros históricos e até materiais que misturam tudo isso. E tudo com base nas raízes caribenhas e africanas”, revela Neil. “Aí, pensamos, bom, faremos House of Whispers — e se vamos usar algo da mitologia do vodu, não tinha ninguém melhor”.

Já Simon “Si” Spurrier (X-Force) será responsável pela HQ The Dreaming, estrelada por coadjuvantes como Lucien e Matthew, o corvo falante, conforme eles navegam pela superfície do Sonhar sem o mestre dos sonhos para guiá-los. E enquanto Lucien, o bibliotecário, continua responsável por todos os livros que foram sonhados mas nunca escritos, eis que um deles acaba vindo parar no nosso mundo, o dos acordados, descoberto por um grupo de crianças.

Sob a batuta de Dan Watters (Limbo, da Image), o Satanás com a cara de David Bowie vai cair ao mundo infernal mais uma vez. Ou quase isso: afinal, parece que esta versão do “inferno” foi feita sob medida pro sujeito. Neste novo gibi de Lucifer, o demônio titular cego e destituído de seu cargo, está preso em uma pequena pousada, em uma cidadezinha calma, tranquila, pacífica... mas da qual ninguém pode sair.

E, completando a patota, Kat Howard (outra estreante no mundo dos gibis, mas veteraníssima do mercado editorial de fantasia) assume as rédeas de Books of Magic, continuação do clássico escrito por Gaiman na década de 90 sobre o menino bruxo chamado Timothy Hunter, muito antes de um certo Harry Potter existir.

Alternando sonhos de se tornar ao mesmo tempo o maior mago do planeta e igualmente o nosso maior inimigo, o garoto se vê dividido entre dois futuros potenciais igualmente assustadores. “Quando pensei nos Livros da Magia, pensei imediatamente na Kat. Ela tem o toque, ela entende o assunto”, revela Gaiman, que já tinha editado textos da escritora numa antologia chamada Stories.

Mas a ideia com Tim Hunter é começar tudo de novo. Um reboot do personagem, por assim dizer. Ou quase isso. “Nos dias de hoje, vivemos em um universo no qual todo mundo sabe que caminho uma história como esta seguiria originalmente”, explica, relembrando que JK Rowling já desenvolveu bem o conceito de um menino de óculos aprendendo seus poderes mágicos e com uma coruja empoleirada na janela.

“Então, quis voltar atrás e olhar caminhos que podíamos seguir, tanto mais leves quanto mais sombrios do que o original. Nossa pegada me lembra um pouco do conceito que a própria DC usou quando criou a Terra Um. Veja o Flash: temos o Flash Barry Allen na Terra Um e o Jay Garrick se manteve como o Flash da Terra Dois. Aqui, temos um novo Tim Hunter para um novo tempo — mas o velho Tim Hunter talvez tenha mesmo existido e isso pode nos trazer ramificações daqui pra frente”.