Nêmesis: qualquer adaptação vai ter que melhorar muito, porque olha... | Judão

Um dos conceitos mais legais dos gibis autorais do autor escocês acaba se desenvolvendo de um jeito bem merda, deixando a gente pouquíssimo empolgado pela tal da adaptação vindoura…

Podem me incluir fora da atual lista de fãs de quadrinhos que, por algum motivo, insistem em colocar Mark Millar no mesmo panteão de roteiristas como Alan Moore e Neil Gaiman. Veja, Gaiman e Moore estão na categoria “geniais” justamente porque sua lista de obras tem muito mais altos do que baixos – eles erram, sim, mas quando acertam, rapaz, acertam pra valer.

Millar, no entanto, é um sujeito esforçado. Um máquina de fazer gibis autorais. Um bom criador de conceitos que acertou algumas vezes (vejam o irrepreensível caso do primeiro arco de Os Supremos, por exemplo) mas errou em outro tanto (O Procurado é daquelas histórias que conseguem ser piores do que a sua adaptação para o cinema, o que é um fato raríssimo). Digamos que a proporção, até agora, tá em 50% pra cada lado.

Não posso ser injusto e dizer que falta talento ao sujeito — muito pelo contrário, obviamente que ele tá bem acima da média. Mas não dá pra tapar o sol com a peneira e fingir que ele não tem a necessidade de uma série de muletas narrativas. As suas favoritas são uma boa dose de palavrões e violência gráfica explícita até dizer chega. Tem vezes em que isso funciona e até contribui para a narrativa geral. Mas tem situações em que acaba virando cortina de fumaça pra disfarçar um roteiro meia boca.

Vejamos o caso de Nêmesis, por exemplo. Sua obra ao lado do ótimo Steve McNiven cujo conceito é GENIAL: o que aconteceria se o Batman fosse, na verdade, o Coringa? Estamos falando de um bilionário que, ao invés de dedicar todo o seu intenso treinamento e suas geniais traquitanas tecnológicas no combate ao crime como fez um certo Bruce Wayne, deixa aflorar seu lado psicopata. Então, como numa espécie de jogo doentio, ele busca superar alguns dos maiores investigadores do planeta, matando indiscriminadamente, sequestrando, explodindo coisas e pessoas e provocando sem qualquer piedade, simplesmente porque ele pode. Para provar que ele é o fodão e ninguém consegue detê-lo.

Este é um dos muitos projetos do Millar que tão rolando em Hollywood há um tempão – Nêmesis, em particular, tava na Fox desde 2010, mas aí em 2015 as notícias davam conta de que a adaptação tinha ido parar na Warner. Originalmente, Tony Scott estava praticamente fechado pra dirigir mas, depois de sua morte, o cargo acabou nas costas de Joe Carnahan, que chegou a reescrever o roteiro com o irmão Matthew Michael Carnahan. O que vai ser feito deste material agora que Millar fechou o acordo com o Netflix? Nem ideia.

O meu ponto aqui é só que, pra se tornar um filme/série/whatever de potencial, a versão audiovisual de Nêmesis vai MESMO ter que seguir a nossa regra de “gibi é gibi, filme é filme”. Porque...miga, apenas melhore.

De novo: o conceito original é lindo, de babar. Mas Millar peca gravemente em três aspectos na hora de executá-lo. O primeiro erro dele é muito simples: todo Batman precisa ter um Coringa. E todo Coringa precisa ter um Batman, por consequência. Por mais que Nêmesis, o personagem, seja interessante e atraente, ele definitivamente não tem um antagonista à altura. Millar não consegue convencer o leitor de que Blake Morrow, um dos maiores nomes da polícia de Washington, principal responsável pela limpeza das ruas da capital dos EUA, seja um rival suficientemente à altura de Nêmesis. Alguém que faria com que o psicopata trajando capa branca abandonasse sua trilha de atrocidades no Oriente para vir para os EUA caçar. E o segundo erro de Millar está diretamente ligado a isso: o timing.

A violência está lá, explodindo magnificamente em splash pages na bela arte de McNiven – como é esplêndida a sequência do sequestro do presidente dos EUA de dentro do Air Force One! Mas tudo acontece rápido demais, tudo atropelado, tudo numa correria desnecessária que não nos permite conhecer os personagens suficientemente para que possamos nos importar com eles. Seria preciso um pouco mais de tempo para descobrirmos o que Blake fez para tornar-se tão respeitado, para nos conectarmos com a família dele antes que o Nêmesis passe a ameaça-la.

O que temos aqui, e é bastante comum num determinado momento da carreira de Millar, é o roteirista tentando ser Tarantino, mas soando apenas como Michael Bay. Violência plástica e vazia. Millar quer ser um bad boy, o cara que explode miolos nas HQs, aquele que segue contra a maré do politicamente correto. Mas que o faça MINIMAMENTE com uma história coerente, vá.

A terceira e última grande cagada de Millar acontece justamente quando a trama vai se encaminhando para o seu desfecho. Como virou mania entre os cineastas moderninhos, o autor enche a história de “falsos finais”, de soluções que, poucas páginas adiante, você vai descobrir que estava erradas, que eram mentiras, que na verdade escondiam um OUTRO segredo.

Esta necessidade de jogar, na sua cara a cada meia-dúzia de quadrinhos um “Ah, não, espera, ainda não acabou! Te peguei!” pode até te surpreender no começo, mas depois vai cansando, cansando, cansando...até broxar de vez.

A broxada final é justamente quando Millar, como que imaginando uma grande sacada genial, desconstrói totalmente o personagem, derrubando por terra o conceito “o que aconteceria se o Batman fosse, na verdade, o Coringa”. Se o que vem depois fosse surpreendente, novo, de cair o queixo, vá lá. Mas ele opta por uma saída tão óbvia que até um filme meia-boca do Van Damme, de 1993, já tinha explorado a mesma ideia.

Eu, como leitor, não me senti apenas enganado. Me senti tratado feito idiota, como se minha inteligência tivesse sido subestimada. Vamos ver que tipo de relação o Nêmesis dos cinemas vai travar com o Nêmesis dos gibis. Eu espero, sinceramente, que seja do tipo “vamos refazer tudo do zero?”.

Vamos aproveitar melhor este potencial aí e colocar um pouco mais de melodia nesta barulheira toda? Obrigado.