Netflix comprou os direitos dos personagens do Rob Liefeld pra fazer o seu próprio universo de super-heróis... POR QUÊ? | Judão

Gigante do streaming compra direitos de personagens do Extreme Universe para desenvolver seu próprio universo compartilhado de filmes com super-heróis. A pergunta que fica é: POR QUÊ?

A gente já falou aqui umas OITOCENTAS vezes sobre toda a galera de Hollywood querendo fazer o seu próprio universo compartilhado, a exemplo da costura entre filmes que Kevin Feige vem mantendo nas produções Marvel Studios. Todo mundo correndo atrás do seu, da Sony com a Valiant ao tal do Dark Universe da Universal que, Bast seja louvada, aparentemente foi pro vinagre.

Mas sabe quem também tava procurando um universo compartilhado de filmes pra chamar de seu e, ainda por cima, estrelado por super-heróis? O Netflix. Você sabia disso? Nem a gente. Mas esta semana eles fecharam um acordo. No caso, com um sujeito chamado Rob Liefeld.

Sim, senhoras e senhores. Rob Liefeld, ele mesmo, vai finalmente ver seus personagens do Extreme Universe se tornando filmes. “A Marvel e a DC têm suas próprias mitologias maravilhosas. Mas, nos últimos 27 anos, a Extreme também desenvolveu a sua”, afirma o autor, sem qualquer traço de modéstia, em entrevista ao THR. “Com seus próprios personagens e conflitos únicos e poderosos, estes títulos permanecem fortes em suas fundações”, defende ele, logo depois de se declarar um fanático pelo Netflix, tendo feito maratona de todas as séries da Marvel e estar agora IN LOVE com Altered Carbon.

Na verdade, nem é a primeira vez que ele tenta levar a sua galera para as telonas. Na real, a gente até já contou aqui um pouco desta saga do Robinho, que já passou por um monte de acordos, estúdios e a porra toda. Ano passado, no entanto, ele e os produtores Akiva Goldsman e Graham King pareciam ter cravado um AGORA VAI nesta coisa toda, ao lado do estúdio chinês Fundamental Films.

O acordo com o Netflix, que começou a se desenhar durante a San Diego Comic-Con de 2017, não tem a participação de King, mas Goldsman continua na jogada, para criar a tal “sala de roteiristas” que vai começar a desenvolver os filmes, um modelo que ele mesmo está se tornando especialista em desenvolver (vide Transformers). Também fazendo parte do acordo, como produtores das vindouras películas, nomes como Brooklyn Weaver (da Energy Entertainment, que representa uma série de escritores/roteiristas em Hollywood) e Greg Lessans (da Weed Road, produtora de filmes como Constantine, Hancock e Eu Sou a Lenda).

Importante deixar claro aqui que esta negociação é um acordo totalmente diferente daquele fechado com o Mark Millar: aqui, os gibis do Liefeld continuam sendo publicados normalmente pela Image Comics. O foco nesta história são adaptações cinematográficas. Sabe-se, inicialmente, que o pacotão inclui os heróis solo Lethal, Cybrid e Kaboom, além dos supergrupos Brigade e Bloodstrike. Mas o Extreme Universe, que hoje é formado por seis gibis, teria pelo menos mais de 30 personagens diferentes, considerando heróis e vilões “adaptáveis”.

“A ideia é fazer com que eles se cruzem”, diz Liefeld, o que já nos parecia óbvio. “Eu não tenho um clubinho de super-heróis. Isso não é o meu catálogo. Tenho pessoas com diferentes agendas, ressentimentos e conflitos”, tenta explicar ele, para mostrar uma diferença entre as suas propriedades e as da Marvel/DC. “Nenhum dos meus personagens são bonzinhos. O Deadpool não era bonzinho. O Cable não era bonzinho. Minha geração [aka a galera que saiu da Marvel nos anos 90 pra fundar a Image] estava levando as coisas para um caminho diferente deste negócio de pessoas que ganham poderes e automaticamente se tornam heróis. Os conflitos são um pouco diferentes, eles são meio perturbados, é o tipo de coisa que encontrou um público tremendo”.

A maior bronca que a galera tem com o Rob Liefeld (a mais evidente, claro) é com relação ás suas óbvias limitações como desenhista — dos músculos inchados além do limite humano até a ausência de pés, estrategicamente escondidos por trás de fumacinhas. Mas, neste caso, vale falar do OUTRO Rob Liefeld, que é o que importa nesta negociação: o Liefeld criador de conceitos de personagens.

Eu sempre defendi que, apesar de ser um roteirista bastante mediano, Stan Lee era um excelente criador de CONCEITOS. Leiam com a atenção devida os roteiros das primeiras histórias do Homem-Aranha, do Quarteto Fantástico, dos X-Men, pra perceber que eles só se tornaram o que são nos dias de hoje anos mais tarde, quando passaram nas mãos de gente disposta a “esticar” um pouco mais o conceito. Mas, sem dúvida alguma, o CONCEITO era incrível.

Tá bom, não me xinguem, não vou entrar aqui no mérito de que, historicamente, existe todo um questionamento sobre o quanto de participação Lee teve de fato no desenvolvimento dos personagens e o quanto veio de seus parceiros de aventura, em particular de um homem brilhante chamado Jack Kirby. Mas os conceitos por trás do Homem-Aranha, do Quarteto Fantástico, dos X-Men, são incríveis. Eram incríveis e inovadores para os anos 60 e continuam sendo, ainda que atualizados por novas gerações de criadores.

Aí, voltamos ao Rob Liefeld. Sim, como roteirista a gente sabe que ele é tão mediano quanto como desenhista. Mas e como CRIADOR DE CONCEITOS PERSONAGENS, neste mesmo esquema do Lee? Bom, dá pra dizer que Rob Liefeld é um bom REAPROVEITADOR DE CONCEITOS. E aí é que mora o perigo. Porque 90% de seus heróis e vilões são versões de heróis e vilões da Marvel e da DC. Com uma boa parte, dá tranquilamente pra usar a palavra “cópia” sem se sentir lá muito culpado. Nada de novo no front. Goste você ou não, tenha você questões ou não (e eu tenho), mas o fato é que, sob este prisma, o Netflix fez um negócio bem mais interessante com o Mark Millar.

“Ah, mas o Liefeld é o criador do Deadpool e o Deadpool é foda”. Olha só, tá errado isso aí também. Porque o Deadpool que a gente conhece hoje, este dos filmes, o que se tornou um dos anti-heróis mais vendidos dos gibis da Marvel, com a coisa da loucura, do humor cartunesco, a quebra da quarta parede, NÃO surgiu com o Liefeld. Quando o Deadpool surgiu no gibi dos Novos Mutantes/X-Force, ele era apenas e tão somente um mercenário mascarado com um par de espadas nas costas, uma cópia descarada do Exterminador da DC (Wade Wilson e Slade Wilson, vamos lá). Todo o resto veio MUITO depois.

Basicamente, os personagens do Liefeld são versões dos X-Men, dos Vingadores, do Wolverine, do Lobo. Em termos de CONCEITO, também não tem nada de novo. A Lethal é uma assassina que parece irmã da Elektra. O Cybrid é tipo um Wolverine cibernético. O Brigade é um time spin-off do Youngblood que soa pra caramba como o momento em que os Novos Mutantes se tornaram extremos e viraram o X-Force (não ajuda em nada o fato de que, originalmente, o líder Battlestone tinha a cara do Cable). E o Bloodstrike, sobre esse, não dá pra falar nada a não ser que o líder é o Cabbot Stone, irmão do Battlestone e IGUALMENTE parecido com o Cable. ¯\_(ツ)_/¯

Porém, todavia, contudo, no entanto, o grande segredo dos personagens do Rob Liefeld sempre foram os excelentes contatos que o sujeito tem. As pessoas pra quem ele dava seus heróis e dizia “toma, cuida e faz o que você quiser, liberdade total”. E é nisso, de verdade, que estou me apoiando aqui pra enxergar o lado bom desta história toda. Porque o Rob Liefeld criou o Supremo, um arquétipo violento e sem-graça do Superman. Mas aí entregou na mão de um inglês maluco de nome Alan Moore e o que surgiu foi um compilado de histórias maravilhosas, reaproveitando todos os principais clichês do gênero em uma homenagem brilhante à Era de Prata.

Eis que a boa notícia nunca vai ser: “Netflix vai fazer filmes dos personagens do Rob Liefeld”. Mas sim seria se fosse algo do tipo: “Netflix vai fazer filmes dos personagens do Rob Liefeld ESCRITO/DIRIGIDO POR FULANO DE TAL”. É bem diferente. Justamente por isso, aliás, gosto quando ouço o Liefeld dizendo, ainda no papo com o THR que “fizemos umas coisas bem loucas que vamos REBOOTAR e adaptar para uma nova geração nas telonas”.

Até lá, até saber que elementos novos e criadores empolgantes estarão envolvidos com estes projetos, mantenho o meu mantra de que, por mais legal que vocês achem o Netflix, não tem nenhuma cláusula no serviço que diga que você é obrigado a amar tudo que eles lançam/produzem. Eles podem fazer umas bostas de vez em quando. E olha que fazem, viu? E TÁ TUDO BEM.

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