Netflix e o preconceito linguístico | JUDAO.com.br

ROMA, filme de Alfonso Cuarón falado em língua espanhola, ganhou legendas que diziam ser para compreender regionalismos… mas serviu pra outra coisa mesmo

Em 2013, fomos apresentados a um filme sobre a popularização da TV nos lares e sua ameaça à existência um cinema de uma cidadezinha do Ceará: Cine Holliúdy, do diretor Halder Gomes. O longa ficou conhecido não só por contar uma história interessante e BEM próxima de muitos brasileiros, mas também por ter um detalhe curioso: legendas. Em português mesmo.

A obra começa com o seguinte aviso: “Vocês vão assistir ao primeiro filme nacional falado em ‘cearencês’. Por isso, as legendas”. E, claro, faz parte de uma piada. Mas também é um trunfo: outros brasileiros que não estão acostumados a acompanhar uma fala mais rápida podem ver o filme sem fazer manha. Pelo Twitter, o cearense Jonathan Luna contou que, pra ele, “é como assistir a um filme dublado com legendas.”

Isso porque a legenda é uma transcrição. Ela traz todas as falas INCLUINDO todos os regionalismos e gírias, sem mudar nada. Ou seja: se você não sabe o que significa “estrambólico”, “pêia”, “espilicute”, quando alguém clama por Padim Ciço ou diz que tá “pebado”... vai ter que inferir pelo contexto ou pesquisar por aí. Afinal, ninguém nunca se importou em traduzir expressões do sudeste em novelas e outras produções. E quanto mais a gente aprende sobre a pluralidade da nossa língua, mais aprende a respeitá-la. Né?

É, deveria ser. Mas nem todo mundo pensa assim.

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ROMA, de Alfonso Cuarón, tá estourando aos olhos do público e crítica (você pode ler nossa resenha aqui). O filme que acompanha a vida de Cleo, uma trabalhadora doméstica, no distrito mexicano de ROMA, é um dos favoritos dessa temporada de premiações e já faturou Globo de Ouro, Critics’ Choice Award, Leão de Ouro e muitos outros. E tudo isso sendo falado em espanhol mexicano e mixteco, que é um conjunto de dialetos mexicanos típicos e, na legenda em português, aparece entre colchetes.

Eis que o Netflix resolveu disponibilizar uma faixa de legenda em espanhol para o filme. Mas não era uma transcrição, como normalmente são aquelas em inglês, pra ajudar quem tem problema de audição. Tratava-se mesmo de uma ~TRADUÇÃO~ de termos para o espanhol ibérico, europeu, aquele falado na Espanha mesmo. “Mamá”, que significa mãe, foi mudado para madre, um termo mais tradicional; “Ustedes”, que traduz-se como “vocês”, virou vosotros. É uma adequação das falas à uma “norma culta” e isso fez com que Alfonso Cuarón ficasse puto, mas MUITO puto da vida.

Ao El País, o diretor disse que isso era paroquial, ofensivo e ignorante para os próprios falantes de espanhol. “Algo de que gosto muito é a cor e a textura de outros sotaques”, disse. “É como se Almodóvar precisasse de legendas.”, completou. E o escritor mexicano Jordi Soler se manifestou também, dizendo que é clara a intenção de colonizar aquela fala regional e que tal decisão era “paternalista e profundamente provinciana”.

Ajudar com algumas gírias seria algo diferente. Como quando lemos algo em português europeu e precisamos de uma mãozinha pra entender certas coisas, como “bué fixe” ou “giro”. Mas POLIR palavras e colocá-las em caixinhas de norma culta é preconceito linguístico, além de um desrespeito SEM TAMANHO com a obra original e seus significados. A repercussão foi tão negativa que fez com que o Netflix retirasse essa opção e, na última quinta-feira, dia 10, foi disponibilizado o recurso de transcrição do áudio (também conhecido como closed captions) que preserva todos os termos.

AINDA é muito comum que os países da América Latina sejam pressionados a agir como colônias, dominados e devedores de satisfações para os europeus. É comum tratar nossos costumes como algo secundário e enaltecer aquilo que vem “do primeiro mundo”. Inferir que um dialeto ou uso regional de uma língua está errado e é um atentado à preservação de culturas. Ninguém é obrigado a compreender todas as palavras e às vezes é preciso SIM buscar significados. Isso tudo não seria um problema se o Netflix disponibilizasse um glossário ou algo parecido para uma compreensão mais completa. Mas essa foi uma desculpinha safada pra escusar uma higienização FEIA e, infelizmente, ainda muito comum.