Netflix, Oscar e a discussão do momento: o que é cinema? | Judão

Academia está discutindo uma mudança de regras que poderia facilitar (ou afastar totalmente) a presença dos filmes feitos exclusivamente para o streaming na premiação

Ter ao menos 40 minutos, ser exibido – em película ou em formato digital, neste último caso em HD – em um cinema comercial do Condado de Los Angeles por sete dias consecutivos com três sessões diárias, sendo ao menos uma delas começando entre 18h e 22h, divulgação dessa exibição em jornais do mesmo condado... Ah, sim: o filme não pode estrear no país em outras mídias antes do cinema, no máximo isso pode acontecer no mesmo dia do que na tela grande.

São esses, de forma geral, os requisitos para um filme ser elegível aos PRÊMIOS DA ACADEMIA, que você popularmente conhece como Oscar, a premiação mais importante do cinema e entregue anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas lá dos EUA. Só que, no exato momento no qual você lê isso, está correndo um forte movimento dos bastidores para que esses requisitos sejam alterados – podendo permitir ou proibir totalmente que produções específicas para o streaming (leia-se Netflix) possam concorrer ao prêmio sem passar pelas salas de cinema.

De acordo com o Deadline, na última semana, mais exatamente na quinta, dia 28 de Setembro, cerca de 300 membros da Academia se reuniram para discutir isso, entre outros assuntos, sendo a segunda vez que um encontro deste tipo ocorreu em toda a história da organização. Não é pouco. E aí entrou uma questão importante: o que define um filme?

Bom, vamos à origem do problema: o Netflix quer concorrer ao Oscar sem ter que se dobrar às regras que abrem este texto. Eles até tentaram, mais notoriamente com Beasts of No Nation, lançar filmes simultaneamente em cinemas comerciais em Los Angeles, para preencher os requisitos, mas até hoje os exibidores não gostaram muito da ideia. Como também a própria empresa de Los Gatos não gosta da ideia de se esforçar com um segmento que, claramente, não é a deles – tudo pelo prestígio de um prêmio como o Oscar.

Beasts of No Nation: a tentativa que não deu certo

O Netflix, em seu núcleo, é uma empresa de tecnologia. Como tal, eles são bem pragmáticos sobre isso: cinema é um produto audiovisual que precisa preencher requisitos em seu formato, como duração, montagem e apresentação. Onde ele é exibido pouco importa. Por isso, a obrigação das três sessões diárias, em horários específicos e etc., perde efeito.

Já a lógica da Academia, até agora, tem sido bem diferente: cinema não é um formato, é uma experiência. Nela está incluída a tela grande, a programação do cinema e o cheiro da pipoca. Dessa forma, o que define um filme de cinema não é o tempo que ele tem ou se foi planejado para tal, mas se foi exibido da forma correta. E, nessa perspectiva, Netflix nunca será cinema. Na melhor das hipóteses, é TV.

Por isso as discussões entre os integrantes da Academia são tão profundas, chegando ao CERNE do que é ou não cinema.

No momento, um comitê da organização está analisando o assunto. De acordo com o Deadline, há uma corrente mais rígida, que acredita até que a estratégia do Netflix “comprar” sessões em cinemas de Los Angeles por uma semana deve ser proibida. Outra questão é que, com a linha entre cinema e TV ficando mais tênue, nada impediria de um longa-metragem vencer o Oscar E o Emmy no mesmo ano.

Na visão de um integrante, isso seria um “rebaixamento do Oscar”.

Um mundo no qual o filme ganha, no mesmo ano, o Oscar e o Emmy? É possível.

Há também outros riscos aqui: com o crescimento dos serviços de streaming (a Disney, por exemplo, já anunciou que terá um para chamar de seu), os filmes de Oscar podem quase que totalmente migrar da tela grande para o video on demand e membros mais conservadores, ou que não acreditem no formato do VOD, poderiam boicotar quem não passou pelo cinema.

O fato é que há uma clara migração do dinheiro para o streaming. Com o Oscar do lado deles, o placar pode virar goleada.

LEIA TAMBÉM!
O cinema on demand

Caso a Academia vá para o lado oposto, deixando as regras mais rígidas e inviabilizando filmes praticamente exclusivos do streaming, ganharia força a estratégia da concorrente Amazon – que tem se aliado com distribuidoras tradicionais e respeitado as tradicionais janelas, como fez com Manchester à Beira Mar (que, por acaso, foi indicado ao Oscar em seis categorias e levou duas estatuetas).

Casey Affleck ganhando um Oscar pra Amazon

Lá na França, o Festival de Cannes já decidiu algo parecido: depois do Netflix aparecer na seleção oficial com dois filmes, as regras do festival a partir de 2018 exigem a exibição dos filmes nos cinemas comerciais da França, país que, por sua vez, coloca uma janela obrigatória de 36 meses entre o lançamento na tela grande e o do VOD. Galera de Los Gatos ficou bem irritada com essa decisão.

Toda essa discussão, vale lembrar, acontece nos EFERVESCENTES bastidores da Academia. O Oscar é um prêmio extremamente político (são atores, diretores, produtores e outros profissionais da indústria votando em si mesmos e em seus amigos). Por isso, junto com essa discussão sobre streaming, rola também ainda aquele papo sobre diversidade – e há uma pressão para restringirem as campanhas dos filmes, aquelas “for you consideration”. “Há ainda muitos jantares de lagosta nos quais não tem nenhuma exibição envolvida”, contou um membro, de acordo com o Deadline.

Todas as cartas estão na mesa. Mas, se for pra chutar um desfecho, diria que HOJE não deve ser nada favorável ao streaming...