LEGO NINJAGO é legal, mas podia ter abraçado um pouquinho mais a galhofa | Judão

A mais nova animação estrelada pelos bonequinhos amarelos e suas milhares de pecinhas tinha potencial pra ser tão divertida quanto LEGO Batman e Uma Aventura LEGO, mas em certo momento acaba se levando a sério demais

Quando o Professor Utônio misturou açúcar, tempero e tudo que há de bom, ele fez só uma parte do caldo que daria origem às Meninas Superpoderosas. Na verdade, faltava ali o tal do Elemento X, que foi o deu o boom de verdade na porra toda.

Na tremenda loucura que foram os recentes LEGO Batman e Uma Aventura LEGO, o Elemento X é uma dose cavalar do bom e velho non-sense, um humor que chega cavalgando sem pé nem cabeça em altíssima velocidade. Um ingrediente que até existe em LEGO NINJAGO: O Filme, que estreia esta semana no Brasil. Mas daria tranquilamente pra pesar um pouquinho mais a mão nisso e menos no drama familiar (sim).

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que é melhor não se enganar com este “o filme” aí do título. Embora faça uso de elementos e personagens da série animada, a versão longa-metragem tem ZERO preocupação com cronologia ou com o que diabos esteja acontecendo na atual temporada. Dá pra assistir tranquilamente sem nunca ter ouvido falar em NINJAGO na vida. E nisso, cara, os diretores Charlie Bean, Paul Fisher e Bob Logan acertaram lindamente.

Basicamente, estamos na caótica NINJAGO, uma metrópole gigantesca que é uma mistura da antiga tradição japonesa com a loucura contemporânea de uma Nova York da vida, bem como rola na San Fransokyo de Big Hero 6. Os cinco ninjas multicoloridos misteriosos e seus robôs gigantes são a última linha de defesa contra o megalomaníaco vilão Lorde Garmadon, uma espécie de demônio oriental com quatro braços e uma aptidão especial para piadas infames que é a melhor coisa do filme. Quando o monstrengo egocêntrico dá as caras com seus planos de dominação escalafobéticos, rouba tranquilo a cena e vira protagonista, muito mais do que o seu choroso filho Lloyd — não por acaso, o ninja verde que lidera secretamente o esquadrão de heróis mascarados.

Quando o sem noção do Garmadon brilha, temos os ponto em que LEGO NINJAGO: O Filme mais funciona. Quando se entrega ao absurdo, ao “isso não faz qualquer sentido e tudo bem” do cara vestido de cachorro-quente, dos generais com cabeça de tubarão atirados pelo vulcão, das inocentes borboletas usadas como armas e da sensacional participação de Jackie Chan em sua versão live-action no começo da história. Que, tá legal, pode parecer BEM óbvia, o sábio mestre oriental contando ao garotinho uma antiga lenda de um guerreiro em busca de sua própria identidade. A gente entende. Mas aquilo é só a desculpa para o que vai vir depois. Para a primeira grande virada na trama e que gera alguns dos momentos mais fabulosos do cinema em 2017, igualmente divertidos e, por que não dizer, FOFOS (dizer mais do que isso é tirar a graça do totalmente inesperado).

Mas aí temos a história da relação conturbada de Lloyd com o papai pirado que, claro, pode te lembrar um pouco da luta de Emmet para ser alguém enquanto canta “Everything is Awesome” ou, quem sabe, da resistência que o Batman de Will Arnett tem para admitir que sente falta de uma família. Mas estes são, nos dois filmes anteriores, pequenos momentos que, devidamente encaixados no trem de BIRUTICES do restante da história, funcionam e não soam deslocados. Porque são usados na medida certa. E é aí que NINJAGO perde a mão.

Em certo ponto da história, ali mais do meio pro final, o dramalhão vem pra frente e o humor vai pra trás. Muda o holofote, e as coisas ganham cores que chegam a beirar a pieguice — mas não daquele tipo de brega legal, o exagerado que não tem medo de rasgar a camisa. Aqui é só o chato mesmo. Pra se ter uma ideia, uma sequência de treinamentos quando o quinteto quer provar que é mais do que um bando de pilotos de robôs acaba se levando tão, mas tão a sério, que por um tantinho beeeem pequenininho assim não chegou a lembrar o Punho de Ferro do Netflix e o seu mantra eterno de que é imortal e protetor de K’un-Lun.

Isso sem mencionar a por demais longa sequência de flashback na qual descobrimos porque o vilão abandonou a sua família, nos jogando diretamente no meio de qualquer filme de ação genérico dos anos 80 — bastaria trocar os bonecos de plástico pelo Stallone que tava de bom tamanho.

Para os pequenos, é o momento de se ajeitar na cadeira e começar a torcer pela próxima sequência de luta. Para os grandões, é hora de se ajeitar na cadeira, dar aquela bocejada e lembrar que o celular, desligado no bolso, deve ter alguma distração que ajudaria o tempo a passar mais rápido.

Não é algo que chegue a arruinar a experiência, não é preciso exagerar. Mas é SIM a distração na hora de chutar pro gol que faz a produção bater na trave e não ser tão espetacular como suas primas mais famosas conseguiram. No fim, como parte de uma FRANQUIA, tal qual Carros, talvez NINJAGO prove a que veio por conta da quantidade de bonequinhos que vai vender pra molecada. Mas digamos que, numa maratona de filmes LEGO, este aqui vai estar longe de ser O Império Contra-Ataca.