No Festival de Cannes, Asia Argento disse algumas verdades pra quem mais precisava ouvir | Judão

Passou da hora dos Festivais acompanharem as mudanças do resto do Mundo

Durante a cerimônia de encerramento do festival da treta, aquele mesmo que aconteceu em Cannes, a atriz italiana Asia Argento subiu ao palco e, quebrando completamente o protocolo e ignorando o que dizia o teleprompter, fez um dos discursos mais importantes e relevantes da história de todo e qualquer festival, de qualquer coisa.

“Em 1997, fui estuprada por Harvey Weinstein aqui em Cannes”, começou a atriz. “Eu tinha 21 anos. Este festival foi o seu terreno de caça. Eu quero fazer uma previsão: Harvey Weinstein nunca será bem recebido aqui novamente.”

Argento foi uma das muitas corajosas mulheres que denunciaram Harvey Weinstein no artigo escrito por Ronan Farrow para a revista The New Yorker, em outubro de 2017. Desde então, a atriz tem sido uma das vozes mais proeminentes do movimento #MeToo.

Durante anos, Weinstein foi uma figura de MUITO poder nos corredores de Hollywood e nas mesas de negociações de grandes festivais. Ele sempre foi visto como um dos principais produtores independentes da indústria e usou esse poder para abusar sistematicamente de MUITAS mulheres. O prestígio e a influência de Weinstein eram tão grandes, que Cannes era apontado por muitos como um festival DELE e, agora, como a própria Argento disse no seu discurso, o produtor agora “vive em desgraça e é evitado pela comunidade cinematográfica que uma vez o abraçou e encobriu seus crimes”.

Tão importante quanto seu relato pessoal, seu discurso também mirou o próprio festival e os assediadores que ainda circulam livremente pela indústria. “Mesmo hoje à noite, sentados entre vocês, há aqueles que ainda precisam ser responsabilizados por sua conduta contra as mulheres. Você sabe quem você é, mas, mais importante, nós sabemos quem você é, e nós não vamos permitir que você se dê bem com isso”, finalizou

Na edição de 2018, os organizadores do Festival montaram uma linha telefônica de denúncia para as vítimas de assédio, além de abrir espaço para vários grupos de discussão abordar questões sobre abuso sexual e sub-representação das mulheres na indústria. Ainda é pouco, mas já é alguma coisa. Cannes é reconhecidamente um festival que sempre fechou os olhos para denúncias de abuso – exemplo disso é a relação estreita que o festival mantém com Roman Polanski.

Ser chamado de campo de caça para predadores sexuais durante sua cerimônia de encerramento, porém, PRECISA representar uma mudança significativa na postura das pessoas que organizam o Festival. Até esse momento, ninguém tinha apontado o dedo e dito que a culpa também é de quem encobriu Weinstein.

Depois do discurso, Argento disse para o Hollywood Reporter que houve resistência para que ela saísse do roteiro, mas que isso precisava ser feito pelas vítimas. “Eu assisti ao vídeo depois para ver a reação das pessoas quando eu disse o que disse, porque, obviamente, não estava usando um teleprompter. E vi uma mulher rindo. E isso me deixou ainda mais furiosa. Tipo, isso não deve ser levado como brincadeira, filha da puta.”

Assim como Argento e movimentos como #MeToo, NÓS precisamos lutar diariamente para que QUALQUER pessoa tenha o direito de se sentir segura em QUALQUER lugar.