No tal Terror de 15 segundos, o que menos importa é o susto | Judão

Curta vencedor do tradicional concurso da Troma não depende de sustos fáceis – e, vamos ser honestos, os filmes de terror como um todo também não deveriam, né?

Quando escreveu sobre o impressionante A Bruxa, um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, nosso especialista no gênero, Marcos Brolia, logo fez uma ressalva importante: “se você gosta de ir ao cinema tomar sustos com um barulho altíssimo estourando seus tímpanos, este filme não é pra você”. Taí uma daquelas verdades sobre as quais quase ninguém fala: filmes de terror dão sustos. Mas não são SEMPRE e APENAS sobre isso. Terror é um gênero que, de alguma forma, mexe com você de uma maneira incômoda. Ponto. O resto é questão de estilo.

Durante algum tempo, circulou bastante por aí, nas redes sociais, uma coleção de “contos de terror em duas frases”. Coisas do tipo “Não consigo dormir, ela disse, deitando na cama comigo. Acordei com frio, segurando o vestido com o qual ela foi enterrada”. É um espaço curto. No qual é preciso minimamente contar uma história – que te vire o estômago, claro. Mas a história deve vir antes de tudo.

É o mesmo caso, por exemplo, do curta Emma, do austríaco Daniel Limmer, vencedor da terceira edição do 15 Second Horror Film Challenge, da icônica produtora Troma Movies (produtora independente de filmes de horror B lendários como The Toxic Avenger, de 1984, e Tromeu and Juliet, de 1997). “O filme que aterrorizou a web”, prometem os sites que divulgaram a parada, em suas manchetes retumbantes. Aí você dá play. E vai ler os comentários. “Ah, isso aí não me deu susto nenhum”. Não, não mesmo. E a intenção nem era esta.

Dá pra entender porque Emma foi o selecionado, dentre mais de 300 inscritos, pelo time de jurados formado por nomes como Lloyd Kaufman (um dos fundadores da Troma), Amanda Wyss (A Hora do Pesadelo), Barbara Magnolfi (Suspiria) e Hannah Fierman (V/H/S), entre outros.

Porque Emma é uma pequena peça de 15 segundos que trabalha basicamente construção de clima em um formato inusitado. Que, aliás, sempre foi uma característica bastante ativa do gênero, um dos primeiros a brincar com o found footage (oi, Bruxa de Blair!) e que, recentemente, vem explorando coisas como a narrativa digital vertical no Snapchat e até histórias rolando nas janelas de programas, dentro de chats e das redes sociais. Boas ou ruins, tanto faz. Mas são formas criativas de trazer a história mais pra perto da realidade do público atual e, portanto, conseguir mexer ainda mais com suas emoções.

Em uma entrevista publicada na página do concurso no Facebook, Daniel conta que gosta de experimentar com os medos das pessoas. Embora, atualmente, esteja muito mais interessado no trabalho de Stanley Kubrick e David Lynch, ele lembra que Brinquedo Assassino foi algo que o deixou apavorado quando era moleque. “É um filme que confronta você com o medo de uma forma que está ligada ao que está naturalmente ao seu redor, como os brinquedos do quarto de uma criança”.

A ideia para Emma surgiu durante uma discussão com os amigos. “Eu tava só pensando nas coisas que mais me assustam. Como crianças mortas. E fantasmas”. Originalmente, a ideia era gravar algo num carrossel, porque o cineasta achava que seria legal mexer com o suspense andando em círculos, numa perspectiva em primeira pessoa que vai se aproximando. “Mas então me convenci de que seria difícil lidar com isso em apenas 15 segundos. Aí pensei ‘o que mais poderia ser interessante?’. Eu sabia que queria me manter focado numa ambientação assustadora com uma virada no fim. Porque, pra mim, a coisa mais importante num filme de terror é ser surpreendido com algo que você não esperava. E com isso, eu NÃO quero dizer um jump scare. Tem que ser esperto e quando rolar, tem que ser pra me deixar arrepiado”. Viu? ;)

Filmado e finalizado em apenas 3 dias, em um parquinho qualquer perto da floresta e com duas crianças da vizinhança encontradas em 10 minutos de pesquisa de porta em porta, Emma é, para David, um exemplo de como você não tem que ficar esperando – simplesmente vai lá e faz. “Inicialmente, fodam-se todas as coisas técnicas. Só pega seus amigos e faz o filme, independentemente se você só tem um celular. Eu fiz uma comédia de horror de 1 minuto com alguns dos meus melhores amigos e foi divertido pra caramba. Acredito que é em situações como esta que você mostra seu maior potencial criativo”.

Quem quiser assistir aos TOP20 filmes do desafio / festival, só apertar o play aí embaixo. :)