Entrevistamos Russell Crowe durante sua visita ao Rio de Janeiro e percebemos que Noé é MUITO mais do que um filme baseado numa história presente em tudo quanto é religião
A minha ideia inicial era confrontar Russell Crowe. Era entender se Noé, pra ele, era só mais uma história sendo contada ou algo em que ele REALMENTE acredita e acha que as pessoas também deveriam conhecer e acreditar. Usando uma camiseta do Cthulhu, minha primeira pergunta pra ele foi “onde estão os Dinossauros?”, tendo em mente a teoria do Criacionismo da Terra Jovem, que coloca T-Rexes, Triceratops e outros junto de Coelhinhos, Gatinhos e Hienas. Esperava, como resposta, algum tipo de brincadeira, como sempre faço em minhas entrevistas.
Mas, Crowe, contemplativo, disse que isso dependeria de ONDE eu coloco essa história na linha do tempo. BOM, seja lá qual o momento que eu resolvesse encaixar a história, seria impossível ter Dinossauros numa Arca construída por um HUMANO. Mudei, então, a abordagem e fui direto: Criador ou Big Bang? “Você tem certeza que são coisas diferentes?”.
Aí eu entendi. Não só o pensamento de Russell Crowe sobre esse filme, mas como o próprio filme.
Não penso que a Alanis estivesse lá, de boa, de saco cheio de não fazer nada e não ter nada pra fazer, quando veio aquele ESTALO e “OPA! Vou criar tudo” e, sete dias depois, tava ela lá na frente do computador jogando seu próprio MMORPG. Nem sequer faz sentido uma coisa dessas. Mas, filosoficamente falando... O Big Bang foi quem colocou a gente aqui, não? ;)
Em Janeiro de 1982, a professora Vera Fried pediu para que sua classe escrevesse um poema sobre a paz. Um de seus alunos, o Darren Aronofsky de 13 anos, escreveu sua própria versão da história da Arca de Noé — o que lhe rendeu um prêmio. Mais de três décadas depois, o agora diretor indicado ao Oscar resolveu filmar essa sua visão do texto, que martela sua cabeça desde então. E, fazendo tudo do seu jeito, Aronofsky conseguiu criar um filme que vai atingir a todos de uma mesma maneira. Um filme que não é dedicado a nenhum tipo de público, mas que conta uma história, dá uma visão de mundo.
É isso o que a gente quer em um filme, certo? Eu não costumo ir assistir a um filme pra ver SÓ o que eu quero. Gosto de ir pro cinema pra ser surpreendido, pra pensar, pra enxergar outras visões do Universo e, enfim, aprender.
Baseado na versão judia da história — que, só prá constá, está presente nos livros de tudo quanto é religião, não é exclusividade cristã — o Noé de Aronofsky é mais ou menos o equivalente aos filmes sobre outras mitologias que vemos por aí. Não é o filme bíblico sobre o qual estamos acostumados; é um épico de fantasia que não tenta, em nenhum momento, vender a ideia da religião, e sim diversas outras, através de conflitos simples como o que se come e o quão cegamente devem ser seguidas as ordens do Criador (que, em momento algum, é chamado de Deus).
“Eu acho que esse filme tem elementos [religiosos e científicos]”, disse Russell Crowe. “Tem a histórias do Gênesis, mas também tem um aspecto Darwinista. Você não reconhece os animais”. E é verdade: nenhum bicho visto ali é um bicho que temos hoje em dia. Se parecem, mas não são. “Darren está deixando ali um espaço pra evolução.”
Noé não te dá nada de bandeja. Como o próprio diretor disse em seu twitter recentemente, o filme “fica melhor na segunda vez que você assiste”, o que não é muito comum. Quer dizer, muitas vezes um filme melhora, piora ou muda tudo depois que você vê uma segunda vez, em outro momento; mas se o próprio diretor e co-roteirista (Ari Handel assina o script com Aronofsky) pensa assim fica claro que não é um filme fácil. Não é um filme que você vai assistir e vai ter tudo definido na sua cabeça — nem mesmo uma opinião.
Tirando, é claro, que Emma Watson é amor. E não só amor: puta menina talentosa. Ila, sua personagem, filha adotiva de Noé, foi criada por Aronofsky pra ajudar a transmitir um pensamento crucial no meio de toda essa coisa de “acabar com os homens e deixar só os animais recomeçarem”. E ela não só assumiu, como aguentou todo o peso da responsabilidade.
As atuações de Logan Lerman, que interpreta Sem, o filho do meio de Noé, e de Ray Winstone, o Tubal-Cain (que não, não é o Mickey Rourke), também ajudam e MUITO Darren Aronofsky a contar sua história e dividir seus pensamentos e ideias — especialmente o segundo que, como disse Devin Faraci em sua crítica no Badass Digest, faz um discurso que Aragorn poderia ter feito em Senhor dos Anéis e todo mundo ficaria maluco. Mas, nessa história, Tubal-Cain é um vilão. Ou... ¯\_(ツ)_/¯
Noé, assim como tantos outros filmes baseados em livros e quadrinhos, vai despertar a ira de fãs, exigindo um realismo que, bem, nem sequer faz sentido. Vão exigir fidelidade, vão achar que é heresia. Noé, porém, é só um filme. É uma história que usa um fundo religioso pra gerar discussões — sobre a própria fé, inclusive — e fazer pensar.
Tudo no meio de batalhas épicas, efeitos especiais, 3D, IMAX e muito dinheiro envolvido. É o mais puro, simples e sensacional cinema. ;)