A noite em que Michael Moore conseguiu fazer o discurso de agradecimento do Oscar 2003 | JUDAO.com.br

Após ter sido vaiado e arrancado do palco da premiação 15 anos atrás, o diretor resolveu reler e finalmente terminar seu polêmico discurso anti-guerra e anti-Bush no palco do Critics’ Choice Documentary Awards

O ano é 2003. O Lula tava assumindo a presidência da república pela primeira vez. O Pânico na TV estreava. A Nina Simone morreu. O Retorno do Rei foi lançado. E George W. Bush estava fazendo uma de suas especialidades: merda. Num novo movimento da guerra contra o Iraque, soldados invadiram o país mais uma vez a mando do então presidente. Era dia 20 de Março.

A premiação do Oscar daquele ano rolou 3 dias depois, 23 de Março. E um dos ganhadores da noite foi o documentário Tiros em Columbine. Lembra? Ele parte do ataque de Columbine pra falar sobre os problemas que envolvem a cultura da violência nos Estados Unidos. E quando Michael Moore, diretor da obra, subiu ao palco pra agradecer, ele tinha um discurso impactante preparado.

“Nós [documentaristas] gostamos da não-ficção, mas vivemos em tempos ficcionais. Vivemos uma época com resultados de eleições ficcionais que elegem um presidente ficcional. Vivemos em uma realidade onde temos um homem nos mandando para a guerra por razões ficcionais..” Moore seguiu criticando duramente a realidade americana, mas foi vaiado, BEM vaiado. Para interromper os brados do diretor de “Que vergonha, Sr. Bush! Que vergonha!”, a produção subiu a música, interrompendo sua fala. Ele só agradeceu, atrapalhado, e foi embora.

Pula pra 2018. Michael Moore ganhou um prêmio de conjunto da obra no terceiro Critics’ Choice Documentary Awards que rolou no sábado passado, dia 10. Depois de ter sido apresentado – e chamado de verdadeiro americano – por Robert De Niro, era hora de Moore falar. E ele tinha um negócio entalado na garganta há 15 anos.

O diretor disse que estava há alguns dias procurando a coisa perfeita para dizer lá em cima. “Foi quando eu tive uma ideia, levantei hoje de manhã e fucei minhas coisas, caixas e arquivos. Eu sabia que tinha guardado isso... e achei!”. Sim! Ele tá falando do TAL discurso de 2003. Ele, então, seguiu, lendo o texto inteiro e comentando a noite no meio.

Colocamos aqui o discurso completo, com os comentários de Michael Moore no meio destacados em itálico.

    “Eu convidei meus colegas documentaristas nomeados para subir ao palco conosco, e eles estão aqui porque são solidários a mim e gostam de não-ficção. Nós gostamos da não-ficção, mas vivemos em tempos ficcionais. Vivemos uma época com resultados de eleições ficcionais que elegem um presidente ficcional. Aqui foi quando todo aquele inferno começou.

    Vivemos em uma realidade onde temos um homem nos mandando para a guerra por razões ficcionais. Nessa hora, a cacofonia das vaias foi ficando alta e eu nem me ouvia mais. Seja lá qual for a mentira, nós somos contra essa guerra, Sr. Bush.

    Que vergonha, Sr. Bush. Nessa hora eu só estava tentando ser escutado, nem estava no meu discurso original, mas comecei a falar isso na frente de bilhões de pessoas, mas sem palavrões, Bob. Foi aí que o som começou a ser cortado, a música começou, o contrarregra ficou acenando pra mim e eu fiquei me curvando ao microfone.

    E sempre que você tem o Papa e as Dixie Chicks contra você, já era. Eu já tinha me dado mal e eles me arrastaram pra fora do palco…

    Então, pela primeiríssima vez, apresento o resto do meu discurso de vencedor do Oscar.

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    Antes de encerrar, quero dizer algumas palavras sobre a não-ficção e como usá-la como cura para muitas das mentiras por aí e como uma ferramenta não-violenta de revolução e mudança. Eu li ao longo dos anos que meu primeiro filme, Roger e Eu, abriu as portas para documentários, o primeiro do gênero a ser distribuído para cinemas de shoppings e multiplexes dos Estados Unidos.
    A Academia, no entanto, não me aceitou como um membro por 13 longos anos. Não até mês passado. E eu ouvi vários motivos pra isso: “‘Roger e Eu’ não é um documentário, já que filmes desse gênero não devem ser divertidos”; você está usando um humor frívolo que tira a seriedade e o impacto da sua mensagem; etcetera, etcetera.

    Aqueles que vêm das cidades de empresas abandonadas que ficam no Cinturão da Ferrugem [região ao norte dos EUA] e que, como eu, só têm o diploma do ensino médio — e olha que eu quase não me formei, reprovei em Inglês e matemática, mas tirei um D em Francês — que são da classe trabalhadora, sabem bem o tom classista usado por várias pessoas que falam conosco. O tom que usam aqueles que foram para escolas sofisticadas ou que fizeram qualquer universidade. Eu encorajo vocês que estão em casa hoje no bairro de Gary, nas Indianas desse país, no Camden, nas New Jerseys, nos distritos como San Ysidiros e cidades como East St. Louis, e, claro, nas Flints, Detroits, Pontiacs e as Dearborns, a pegar uma câmera e lutar contra o poder. Faça com que sua voz seja ouvida e ajude a parar essa guerra sem sentido.

    Obrigado e boa noite.”

E foi isso.

Michael Moore foi silenciado em 2003. E eu adoraria terminar esse texto falando que 15 anos depois, ele poderia se expressar sem grandes preocupações. Mas eu e você sabemos bem que AINDA não é assim. E, mais do que nunca, é hora de pegar em câmeras, computadores, livros, canetas, papel, lápis de cor… e em todas as nossas armas de criação em massa. Mesmo sendo do começo do milênio, o conselho de Moore continua extremamente atual: faça a sua voz ser ouvida. Lute contra esse poder!