Nossas Noites é um abraço em forma de filme | Judão

Daqueles que te apertam arrancando lágrimas, risos, mais lágrimas e mais risos

Num ano repleto de grandes filmes, é incrível pensar como uma produção tão simples quanto Nossas Noites consiga se destacar. Esse drama romântico, adaptação do último livro escrito pelo falecido Kent Haruf, não traz grandes novidades aos fãs da Sétima Arte. É direto, sem floreios ou grandes surpresas, além de se valer de muitos dos clichês que aprendemos a esperar do gênero. Ainda assim, graças a uma direção sutil, um par de atores lendários e um roteiro muito bem amarrado, é um dos longas que você mais precisa assistir em 2017.

Os atores lendários, como você muito bem já deve saber, são os veteranos Jane Fonda e Robert Redford, que interpretam respectivamente a viúva Addie Moore e o viúvo Louis Waters. Vizinhos há uma boa dose de tempo, eles passam a se envolver depois que ela propõe que, para espantar a solidão, eles passem a dormir juntos. Só dormir, mesmo. ;)

Addie é a primeira a dar as caras no filme, tomando coragem para ir falar com Louis. No papel, Fonda é sublime, construindo uma verdadeira personalidade para a personagem: a de uma mulher forte e independente que aprendeu a ser assim graças a um passado conturbado, mas é ainda sensível e vulnerável a ponto de ser tocada por um amor quase adolescente, já na sua terceira idade. Essa segunda parte, aliás, é fortemente ajudada pela jovialidade impressionante da atriz — que, aos 79 anos, parece pelo menos uns 10 mais nova que Redford, de 81.

Já distante da excelente forma física que esbanjava para os idos de A Última Fortaleza, por outro lado, Redford permanece tão magnético e carismático quanto sempre foi. Sempre a um sorriso de conquistar o seu coração, seu Louis é, como ele mesmo admite, um bom homem, consciente de seu passado, suas falhas e virtudes, mas que não tem outro objetivo na vida a não ser aguardar a passagem dos dias. É no contraste entre essa imponente presença e sua aparência mais frágil que se constrói uma enorme empatia com o espectador.

A simplicidade de Nossas Noites é um trunfo principalmente por não nos deixar esperando para enfim ver esses grandes atores juntos em cena. Dos primeiros cinco minutos do filme em diante, cada interação, cada diálogo e até cada momento de silêncio dividido por Redford e Fonda são um deleite. Se há algo de mágico nesse filme, é poder acessar um nível de franqueza tão alto na performance dessas duas lendas. Despidos de caracterizações, grandes figurinos e tramas elaboradas, fica a impressão que ambos estão acessando sem qualquer sombra de vergonha a sua própria experiência com a velhice, a vida e o amor, para entregar o que assistimos.

É uma dinâmica absolutamente cativante e, de certa forma, irônica. Da primeira vez em que atuaram juntos, na comédia Descalços no Parque de 1967, Fonda e Redford marcaram a fase inicial de suas brilhantes carreiras. Agora, em seu reencontro, fecham um ciclo, imagino, bastante emocional para suas PERSONAS. Bom saber que, ao menos em matéria de qualidade, nada mudou nesse tempo pros dois.

Atrás das câmeras, o cineasta indiano Ritesh Bartra (aqui, só em seu segundo longa falado em inglês) mostra um grande domínio e foco TONAL, fugindo de soluções melodramáticas e evitando pesar a mão para fazer de cada momento do filme algo épico ou emotivo. Seu olhar consegue ser, ao mesmo tempo e na medida certa, distante e próximo, deixando que os atores e o roteiro ditem os picos emocionais do filme. Sutil, como todo o filme.

Sutilezas, aliás são a grande marca e o grande mérito do roteiro, aquilo que realmente faz Nossas Noites funcionar. Com Redford e Fonda juntos pela primeira vez, tá aqui um filme que poderia se resumir a duas horas dos dois lendo uma lista telefônica e ainda assim ser considerado entretenimento. Felizmente, fomos agraciados com uma história que apresenta personagens munidos de uma história de vida e personalidade solidificados num passado que nunca é realmente acessado, mas tá SEMPRE ali, em tela. Não há flashbacks, não há digressões, mas há marcas do passado claramente impressas naquelas vidas, assim como no mundo real, registrando o que foi vivido e por que. Tudo num olhar, num sorriso, ou num aceno. É bem foda.

Vale e MUITO um destaque para o quão sensual é o filme, sem nunca PEDIR para ser. Os flertes entre Redford e Fonda são lindos de assistir, mostrando que amor, sexo e tesão não têm fucking idade MESMO. Aliás, como a própria Fonda fez questão de frisar durante o lançamento do filme no festival de Veneza, com uma certa idade, às vezes ele “só melhora”.

Graças a tudo isso, Nossas Noites se torna muito mais do que um filme sobre amor com certa idade. Se converte numa história sobre a vida — nosso passado, nossas escolhas, seu impacto no nosso presente; as sombras da solidão e da melancolia de uma velhice futura; o medo dos fantasmas do passado, em especial no ÂMBITO familiar. E ah, claro, com o bônus de ter dois dos maiores atores de todos os tempos como protagonistas.

Cê tá esperando o que para ver? :D