A nostalgia peculiar de Big Mouth | Judão

Por baixo de todos os hormônios, um mergulho afetuoso numa das fases mais memoráveis da vida

Não importa de onde ou quem você seja: se tem pelo menos uns 15 anos de idade, sabe e concorda que a adolescência é um período bem do fodido na vida. Primeiro, porque seu corpo simplesmente buga, passando a executar diversas novas funções (a maioria delas sexuais e/ou reprodutivas, como preferir chamar) e absolutamente HAGANDO para o que você de fato quer. Segundo porque é a fase em que, supostamente, solidificamos nossa personalidade — algo que já seria uma merda por si só, sem que tivéssemos de nos preocupar com as coisas que o nosso corpo resolve colocar pra fora.

Se tem algo de mágico nesse período, porém, é justamente a sensação de aventura que reside em mergulhar e enfrentar cada nova descoberta. Há uma razão para que, há uns bons 50 anos, Hollywood ame criar histórias que visitem esse período, explorando especialmente o potencial cômico que uma fase tão intensa do nosso crescimento tem — ainda que com visões absolutamente tortas do mundo. De Porky’s a American Pie, chegando até meu favorito, Superbad, a clássica história do despertar sexual desastroso de jovens deslocados é mais batida que cara de boxeador velho mas, assim como tal, ainda é capaz de providenciar uns golpes certeiros. Entra em cena Big Mouth, a nova animação original do Netflix, assinada por Nick Kroll e Andrew Goldberg.

Inspirado na própria história dos dois, amigos desde os tempos de colégio, Big Mouth é o retrato mais FRANCO da puberdade já registrado no formato serializado. Tá tudo ali: o tesão imparável e injustificável, o desespero causado pelas primeiras interações com o crush, os picos hormonais e as RECORRENTES tretas familiares. Tudo com uma dose cavalar de palavrões, referências à cultura pop e, surpreendentemente, números musicais.

O próprio Kroll é o dono da voz de Nick, seu eu-jovem-animado: um bocudo (no caso, literalmente) jovem, ainda não VITIMIZADO pela puberdade, que nutre todo tipo de insegurança por ser o menor e mais ~pueril de seus amigos de classe. Já no papel de Andrew, é John Mulaney que assume a voz, dando vida a um jovem judeu absolutamente entregue aos seus hormônios adolescentes, incapaz de resistir ao olhar dum relógio de parede no formato de gato sem ter de recorrer à famigerada LOUVAÇÃO À ONÃ.

Esses hormônios — ou melhor, a puberdade como um todo — são, aqui, representados na forma de um enorme monstro, uma espécie de fauno peludo (magistralmente interpretado, também, por Kroll), munido de diversos pênis também felpudos com vida própria, além de uma metralhadora de bosta vinda direto da sua boca. É brilhante como o texto da série consegue captar todas as GROSELHAS que uns cinco adolescentes diriam entre eles num intervalo escolar AND direcionar para o personagem — mérito de Goldberg, que certamente aprendeu a deixar de lado qualquer escrúpulo menor ao longo de seus anos como roteirista de Family Guy.

É esse mesmo monstro que tenta Nick a cada catálogo de biquíni, outdoor sugestivo, ou até tomate com formato de bundinha — e é ele, também, o responsável pelos momentos mais grotescamente ofensivos AND hilários da série, SE esse for seu prato. Para auxiliar no critério: uma cabeça decepada executa sexo oral em um certo momento.

Parando por aí, Big Mouth já seria suficientemente interessante (e, ok, bizarra) para merecer uma assistida ocasional, mas é com seus outros personagens que ela ganha e solidifica sua personalidade própria, realmente tornando-se digna de atenção.

Jessi Klein dá voz à Jessi Glazer, a principal amiga de Nick e Andrew e também principal garota da série. Certamente com uma boa ajuda da co-roteirista Jennifer Flackett nesse aspecto, ela é responsável por muitos dos melhores momentos dessa primeira temporada, mostrando, sem rodeios, os efeitos da puberdade na perspectiva feminina (algo infelizmente ainda raro na cultura pop). Do episódio sobre menstruação, que culmina num encontro com sua própria versão do monstro da puberdade (uma glamourosa criatura mítica, dublada com perfeição pela ex-SNL Maya Rudolph), até aquele que inclui um hilário bate-papo vaginal (Kristen Wiig, sua gênia), tudo é brilhante.

Destaque também para um quarto membro do grupinho, Jay Bilzerian (Jason Mantzoukas), protagonista da mais linda história de amor com um travesseiro na história.

Isso tudo não quer dizer que Big Mouth seja um poço de pura originalidade. Até pela experiência SUPRACITADA de Goldberg, não é difícil enxergar alguns momentos em que as piadas adotam o formato tão visto nas criações de Seth MacFarlane, com flashbacks ou cortes rápidos para momentos antes citados pelos personagens. À medida que Nick e Andrew começam a usar referências culturais em seu bate-papo, também, isso só aumenta — e ganha ainda mais força com as crescentes aparições de famosos, adaptados ao exagerado traço da série.

Só que, se nesse aspecto Big Mouth não consegue realmente inovar, ao menos passa longe de errar na sua execução. A grande maioria das referências rende piadas ótimas, assim como as participações de celebridades (com exceção da principal delas, o fantasma do musicista Duke Ellington, que acaba irritantemente repetitivo, apesar do trabalho competente de Jordan Peele). Falando nelas, aliás, rola um toque especial no fato que, aqui, as vozes das celebridades são impressionantemente próximas às reais. Prepare-se para se arrepiar com o número musical protagonizado pelo fantasma de Freddie Mercury, além de rachar o bico com toda e qualquer referência a Dwayne “The Rock” Johnson.

Com toda essa mistura (e olha que nem comentei sobre os pais de Nick e Andrew — dois hilários e absolutamente opostos casais, capazes de representar a maioria dos pais do mundo –, Big Mouth consegue fazer o mais importante para uma grande obra sobre adolescência: não só revisitar com bom humor os extremos dessa fase, mas provocar com calor a conflitante sensação de vergonha e saudade que quem já passou por isso costuma ter ao pensar no assunto.

“Puberdade é algo que as pessoas associam à estranheza. O que ela é mesmo, mas quando você pensa nela, há toda essa nostalgia estranha. E se você é uma criança passando por isso, ou acabou de passar por isso, nós pegamos um período bem estranhamente doloroso para você e o deixamos, espero, bem engraçado e catártico”, afirmou Nick à revista Time. E é exatamente isso. Por baixo de todos os pintos animados, todas as piadas com QUÁDRUPLO sentido e toda a sujeira que vem no pacote, Big Mouth é uma série sobre uma fase da nossa vida em que tudo isso meio que dita a regra do jogo. A grande diferença é que a série não tem medo de mostrar.

Num momento em que tanto se discute, duma perspectiva bem da moralista, a relação do ser humano com o corpo, bem como o sexo, chega a ser urgente uma série que mergulha sem medo no assunto, meio que constantemente afirmando: “ei, relaxa, isso é NATURAL”.

Aquela coisa óbvia, mas que, aparentemente, precisa ser reforçada. :D